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Homem irracional

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Woody Allen volta às telas unindo suspense, comédia e drama. De novo.

 

 

 

 

 

 

 

 

Homem Irracional

por Marcelo Costa

Furacões vêm, furacões vão e Woody Allen continuam lançando filmes anualmente. Fanáticos tentam convencer a humanidade que o fim do mundo está próximo enquanto Woody, impassível, segue filmando. “Homem Irracional” (“Irrational Man”, 2015) é o filme de número 48 que o traz à frente da direção (incluindo na conta o não lançado “Men of Crisis: Harvey Wallinger History”, de 1971; o episódio “Oedipus Wreck”, de 1989; e o televisivo “Quase um Seqüestro”, de 1994). Se o assunto for roteiro, esse número pula para 52. E impressiona.

Números, no entanto, são apenas um dado curioso. A grande questão, sempre, deve ser (ou ao menos deveria): o novo filme de Woody Allen é bom? E se você veio aqui atrás dessa resposta, que é um pouco mais complicada do que parece, então pode ir ler outra coisa após os dois pontos: sim, o filme é bom. Woody repete fórmulas, ações e pequenos dramas em uma sútil história de humor negro, mas o resultado final soa original, ainda que a junção entre comédia, suspense e drama faça com que espectadores afoitos riam quando devessem chorar.

É quase uma traição, como se a pessoa mordesse uma maçã e sentisse gosto de tangerina, já que o espectador sai de casa propenso a rir, é isso que ele espera do cineasta, e se Woody não cumprir a sua parte (que, para esse fã irracional, é colocar piadas na trama), ele irá rir da mesma maneira, ainda que a cena em questão seja uma discussão sobre aceitar o crime de outra pessoa (mais por interesse do que por amor) ou mesmo uma tentativa de assassinato. Não importa: ele irá dizer que tangerina que mordeu é uma maçã, e a vida segue.

Ao contrário de filmes notadamente dramáticos de seu currículo (como “Interiores” e “Match Point”, para citar dois), “Homem Irracional” começa aparentemente leve, com uma trilha de jazz dançante e uma breve sugestão de romance que toma quase metade da fita: vivendo uma crise existencial, o polêmico professor de filosofia Abe Lucas (Joaquin Phoenix, ótimo) começa a dar aulas em uma nova faculdade, onde precisa lidar com a impetuosidade sexual de uma professora de química e a jovialidade apaixonante de uma inteligente aluna.

A primeira metade do filme é a calmaria pré tempestade. Abe está completamente perdido, dependente de uísque e, como ele mesmo diz, brocha. A professora Rita (Parker Posey) não consegue anima-lo e ele luta para manter a relação com a aluna, Jill Pollard (Emma Stone, belamente fotografada por Darius Khondji), no âmbito da amizade. A depressão ameaça devora-lo, mas o milagre acontece: Abe descobre atrocidades sobre um juiz aparentemente corrupto, e promete para si mesmo que irá mata-lo. Sua vida ganha um novo sentido.

É aqui que o filme engrena, com “The ‘In’ Crowd”, de Ramsey Lewis Trio, embalando as cenas enquanto questões filosóficas são despejadas ao lado do nome de Dostoievski (não à toa, “Crime e Castigo”) e Hannah Arendt (“A Banalidade do Mal”), entre outros. Para Abe, eliminar a vida de um homem corrupto será o principal gesto de sua vida, afinal ajudar pobres e ensinar alunos que, futuramente, vão manter as coisas exatamente do jeito que estão, não muda nada. É preciso ação, e, para isso, ele tenta criar regras morais que o convençam do ato.

Tematicamente, “Homem Irracional” tem pontos bem interessantes, mas sua execução sugere desleixo. A espinha dorsal do filme (e alguns detalhes) é “emprestada” de “Match Point” (sua melhor obra nos últimos 10 anos), e, ainda que ele sugira muito mais profundidade nos temas (lá se discutia culpa, aqui moralidade), seu acabamento é notadamente inferior, o que não estraga o filme, mas o impede de figurar em meio a suas melhores obras. Em outras palavras: Woody tinha material para um filme excelente em mãos, e o fez apenas bom.

Woody já foi muito mais desleixado (se “Magia ao Luar”, de 2014, é apenas gracioso, títulos como “Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos”, de 2010; “Igual a Tudo na Vida”, de 2003; e “O Escorpião de Jade”, de 2001, são absolutamente indefensáveis – ficando em filmes dele deste século) e se o espectador deixar de lado o que “Homem Irracional” poderia ser, encontrará um bom filme na sala da cinema, com alguns momentos de comédia (menos do que a plateia insiste) e uma interessante discussão sobre moralidade e destino. Vale a pena.

( Fonte: www.screamyell.com.br )

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