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O quarto de Jack

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A alegoria do desconhecido.

 

 

 

 

 

 

 

 

O Quarto de Jack

(Room, 2015)

Por Marcelo Leme

A alegoria do desconhecido.

Há um mundo atrás da parede. E o que isso significa? Para Jack, não passa de um conto, uma fábula. Nesse sentido, é impossível não relacionar sua vida com o mito da caverna, de Platão. Da mesma forma quanto O Enigma de Kaspar Hauser (Jeder für Sich und Gott Gegen Alle, 1974) ou Nell (idem, 1994), filmes relativamente próximos, a história de O Quarto de Jack (título bastante injusto, quando o original é apenas “Room”) se inclina sobre o contato com o desconhecido, sobre a quebra de uma realidade unidimensional. Repentinamente, diante à nova realidade a qual enfrenta quando finalmente sai de sua prisão, Jack absorve o mundo.

Você deve pensar que acabo de soltar um spoiler ao mencionar a saída do garoto. Vale dizer que isso não é uma revelação importante. Consta no trailer e em sinopses. O roteiro não prepara surpresas, lida com situações ordenadas, é anticlimático e nos faz compreender a obra como um estudo de personagens. E uso o plural, pois o filme não inicia no quarto de Jack, mas no quarto de Jack e Joy, sua mãe. Eles vivem aprisionados em um pequeno quarto há anos. Ela, sequestrada, engravidou de seu sequestrador. Ele, que nascera ali dentro, apenas conhece o os programas apresentados na televisão e o que sua mãe inventa, a fim de poupá-lo das verdades. De real para a criança, apenas a existência do que lhe é palpável e mensurável.

E diante ao que existe ou, ao que lhe é familiar, assistimos ao início do filme acompanhando closes ao som de respirações. Uma criança contempla o espaço ao redor, cumprimentando objetos. A cena é tocante, apresenta-se como representação da vivência infantil, limitada por circunstâncias devastadoras. Jack tem apenas 5 anos. Conhece poucas coisas. Mas com essa idade, questões despontam, impossibilitando Joy manter sua estória. O roteiro inicialmente visa explorar essa elaboração materna, com o intuito de minimizar as consequências da prisão. É uma escolha similar e que oferta empatia de uma maneira mais dramática em comparação as peripécias do personagem Guido Orefice, de Roberto Benigni, por exemplo.

Mas muito embora seja a mãe quem ambienta a história com suas criações – e para isso, sustentando tal ideia, a literatura do menino passa de O Conde de Monte Cristo a Alice no País das Maravilhas –, a compreensão é inteiramente de Jack. É por isso que a obra é vista a partir de seus olhos. Não à toa, a câmera rodeia o que o menino vê, nos aproximando de sua percepção espacial e sensorial. Lenny Abrahamson dirige e traz visão psicológica à história. O estilo parece ser característica singular em sua arte. Seu último trabalho, Frank (idem, 2014), traz o protagonista-título vivido por Michael Fassbender usando uma enorme cabeça como defesa às suas desordens emocionais. Ambos os filmes são construídos com situações graduais que tratam da emoção de seus personagens que se transformam a medida que lidam com novidades do cotidiano.

Adaptado a partir do livro de Emma Donoghue, que também assina o roteiro, O Quarto de Jack revela-se com leveza um potencial estudo de personagens por tratar competentemente as reações de mãe e filho em diferentes âmbitos, até o extremo da relação entre eles. Quando fora do quarto, lidam com prisões diferentes. Externamente ao cárcere, Joy perde o papel o qual se dedicou enquanto vê Jack reconhecer o que há além dela. E que extraordinária atriz Brie Larson se mostrou, com contrastes de personalidade visíveis em gestos, fortalecendo o papel que assumira enquanto centro do mundo para depois ser parte dele. Seu olhar é sempre apreensivo. E o pequeno Jacob Tremblay é notável. Não se esforça para atuar, o que lhe naturaliza.

Dividido em basicamente dois momentos, dentro e fora do quarto, a obra traz expansões visuais. Isso acontece segundo o que o menino passa a ver e perceber, além do que podia enxergar através de uma claraboia que existia em seu quarto, onde avistava a cor do céu e folhas envelhecidas que caíam de árvores por perto. E com relação à fuga, percebam que a maneira a qual ela é planejada simboliza igualmente formas de confinamento. E que cena extraordinária aquela em que percebemos o mesmo quarto em diferentes óticas a partir de um novo contato. Sua dimensão muda. Um trabalho simples e competente da fotografia que permite distintas noções espaciais.

A fuga não significa necessariamente libertação. A prisão tem um significado particular a Joy, e não é o mesmo para Jack (que não sabe que está preso). Em Michael (idem, 2011), a relação entre o sequestrador e seu sequestrado ganha dinâmica patológica devido ao tipo de relacionamento. O foco é outro, mas tem início semelhante. Em Ata-me! (¡Átame!, 1990), algo similar acontece – para os psicanalistas, é a expressão do desejo entre sequestrado e sequestrador. Já em À Procura (The Captive, 2014), a relação se transforma à medida em que há um crescimento de uma personagem, ocasionando outro perfil de conexão. Cito os exemplos para trazer diferentes níveis os quais o cinema já trabalhou. No horizonte imagético de Jack, o papel do sequestrador fica de lado para assumir a postura de algum tipo de divindade, algo fantasmagórico.

São construtos infantis e defrontações maternas. O foco é justamente os personagens e como estes se desenvolvem em situações hostis. Em suma, me parece que O Quarto de Jack declara-se ser uma fábula complexa sobre a relação entre mãe e filho; e mais profundamente do que isso, a explanação da imaginação como fuga, ou enquanto resgate de alguma esperança. É definitivamente uma obra bastante simples; e ser simples, simplesmente, faz muito bem a ela.

( Fonte: www.cineplayers.com )

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