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Página 1 de 3 No Em Revista dessa edição, um panorama de sete séculos da poesia portuguesa, do Trovadorismo ao Modernismo. ( Leia completo)
Uma breve apresentação " Navegar é preciso, viver não é preciso". Tomando emprestada a frase de um poema de Fernando Pessoa, introduzimos nossa " Pequena Antologia da poesia Portuguesa" . De forma sucinta, buscamos apresentar ao leitor do LetraseLivros um panorama de sete séculos de poesia portuguesa, partindo de seus primórdios, no século XIII, com a poesia chamada trovadoresca, escrita e divulgada pelos trovadores e jograis oriundos da Península Ibérica que deambulavam entre os castelos e as cidades, e seguimos atravessando os mares pelos quais navegaram os que fizeram parte das mais importantes escolas literárias como barroco, arcadismo, romantismo, realismo, simbolismo e modernismo. Optamos por dispor os poetas e suas obras em ordem cronológica para que desta forma, o leitor possa acompanhar a evolução de uma poesia que encontra no lirismo uma de suas principais características. Ao final da antologia, um resumo da biografia de cada autor. Que deixemo-nos pois, navegar. Nota 1) Autores como Fernando Pessoa , José Régio e Forbela Espanca foram propositalmente deixados de fora dessa edição por já terem sido objeto de estudos individuais no LetraseLivros. Nota 2) " Navegar é preciso, viver não é preciso" é talvez um dos mais conhecidos poemas de Fernando Pessoa. No entanto, a frase que inspirou o poeta português vem de um general Romano. Em seu texto, Pessoa cita "navegadores antigos", marujos sob comando de Pompeu, general que viveu numa época de instabilidade, com guerras e ataques piratas. Por volta de 70 a.C., Pompeu foi enviado à Sicília para escoltar uma frota com provisões para Roma, que passava fome diante de uma rebelião de escravos liderada por Espártaco. Com os navios prontos para partir, o comandante da frota anteviu uma tempestade e sugeriu a Pompeu que adiassem a partida. Segundo o historiador romano Plutarco, foi nessa hora que o general disse: "Navigare necesse, vivere non necesse". Índice Pág. 01- Séculos XIII a XVIII Pág. 02- Séculos XIX e XX Pág. 03 - Biografias D. AFONSO X, O SÁBIO (1221-1284) CANTIGAS DE SANTA MARIA
Cantiga C (de loor)
Esta é de loor.
Santa Maria, Strela do dia, mostra-nos via pera Deus e nos guia.
Ca veer faze-los errados que perder foran per pecados entender de que mui culpados son; mais per ti son perdõados da ousadia que lles fazia fazer folia mais que non deveria. Santa Maria...
Amostrar-nos deves carreira por gãar en toda maneira a sen par luz e verdadeira que tu dar-nos podes senlleira; ca Deus a ti a outorgaria e a querria por ti dar e daria. Santa Maria...
Guiar ben nos pod'o teu siso mais ca ren pera Parayso u Deus ten senpre goy'e riso pora quen en el creer quiso; e prazer-m-ia se te prazia que foss'a mia alm'en tal companhia. Santa Maria... DIOGO BERNARDES (1520-1605) Onde porei meus oihos que não veja A causa, donde nasce meu tormento? A que parte irei co pensamento Que pera descansar parte me seja?
já sei como s'engana quem deseja, Em vão amor firme contentamento, De que, nos gostos seus, que são de vento, Sempre falta seu bem, seu mal sobeja.
Mas inda, sobre claro desengano, Assim me traz est'alma sogigada, Que dele está pendendo o meu desejo;
E vou de dia em dia, de ano em ano, Após um não sei quê, após um nada, Que, quanto mais me chego, menos vejo. LUIS VAZ DE CAMÕES ( 1524?- 1580?) 1) Aquela fera humana que enriquece A sua presunçosa tirania Destas minhas entranhas, onde cria Amor um mal que falta quando cresce;
Se nela o Céu mostrou (como parece) Quanto mostrar ao mundo pretendia, Porque de minha vida se injuria? Porque de minha morte se enobrece?
Ora, enfim, sublimai vossa vitória, Senhora, com vencer-me e cativar-me; Fazei dela no mundo larga história.
Pois, por mais que vos veja atormentar-me, Já me fico logrando desta glória De ver que tendes tanta de matar-me.
2) Amor é um fogo que arde sem se ver; É ferida que dói, e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer; É um andar solitário entre a gente; É nunca contentar-se e contente; É um cuidar que ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor? 3) Transforma-se o amador na cousa amada, Por virtude do muito imaginar; Não tenho logo mais que desejar, Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada, Que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente pode descansar, Pois com ele tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia, Que como o acidente em seu sujeito, Assim co'a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia; E o vivo e puro amor de que sou feito, Como a matéria simples busca a forma. 4) Busque Amor novas artes, novo engenho Para matar-me, e novas esquivanças; Que não pode tirar-me as esperanças, Que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho! Vede que perigosas seguranças! Pois não temo contrastes nem mudanças, Andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas conquanto não pode haver desgosto Onde esperança falta, lá me esconde Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que na alma me tem posto Um não sei quê, que nasce não sei onde; Vem não sei como; e dói não sei porquê. 5) Tanto de meu estado me acho incerto, Que em vivo ardor tremendo estou de frio; Sem causa, juntamente choro e rio, O mundo todo abarco, e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto: Da alma um fogo me sai, da vista um rio; Agora espero, agora desconfio; Agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao céu voando; Num' hora acho mil anos, e é de jeito Que em mil anos não posso achar um' hora.
Se me pergunta alguém porque assim ando, Respondo que não sei; porém suspeito Que só porque vos vi, minha Senhora. 6) Um mover de olhos, brando e piedoso, Sem ver de quê; um riso brando e honesto, Quase forçado; um doce e humilde gesto, De qualquer alegria duvidoso;
Um despejo quieto e vergonhoso; Um repouso gravíssimo e modesto; Uma pura bondade, manifesto Indício da alma, limpo e gracioso;
Um encolhido ousar; uma brandura; Um medo sem ter culpa; um ar sereno; Um longo e obediente sofrimento;
Esta foi a celeste formosura Da minha Circe, e o mágico veneno Que pôde transformar meu pensamento
FRANCISCO RODRIGUES LOBO (1579-1621) 1) Eu amor sigo? Que busco? Que desejo? Que enleio é este vão da fantasia? Que tive? Que perdi? Quem me queria? Quem me faz guerra? Contra quem pelejo? Foi por encantamento o meu desejo E por sombra passou minha alegria; Mostrou-me Amor, dormindo, o que não via, E eu ceguei do que vi, pois já não vejo. Fez à sua medida o pensamento Aquela estranha e nova formosura E aquele parecer quase divino; Ou imaginação, sombra, ou figura, È certo e verdadeiro meu tormento: Eu morro do que vi, do que imagino. 2) Coração, olha o que queres: Que mulheres, são mulheres... Tão tirana e desigual Sustentam sempre a vontade, Que a quem lhes quer de verdade Confessam que querem mal; Se Amor para elas não val, Coração, olha o que queres: Que mulheres, são mulheres... Se alguma tem afeição Há-de ser a quem lha nega, Porque nenhuma se entrega Fora desta condição; Não lhe queiras, coração, E senão, olha o que queres: Que mulheres, são mulheres... São tais, que é melhor partido Para obrigá-las e tê-las, Ir sempre fugindo delas, Que andar por elas perdido; E pois o tens conhecido, Coração, que mais lhe queres? Que, em fim, todas as mulheres! 3)
Mil anos há que busco a minha estrela E os Fados dizem que ma têm guardada; Levantei-me de noite e madrugada, Por mais que madruguei, não pude vê-la.
Já não espero haver alcance dela Senão depois da vida rematada, Que deve estar nos céus tão remontada Que só lá poderei gozá-la e tê-la.
Pensamentos, desejos, esperança, Não vos canseis em vão, não movais guerra, Façamos entre os mais üa mudança:
Para me procurar vida segura Deixemos tudo aquilo que há na terra, Vamos para onde temos a ventura. 4) Dizem que já noutra idade falaram os animais, e eu creio que por sinais inda hoje falam verdade.
Ouvi contar como então se fez valente e temido um vil jumento, escondido nos despojos de um leão.
Enquanto de longe o viam os outros fugiam dele: eram milagres da pele do rei, a que eles temiam.
Quis falar, buscou seus danos, que os outros, com raiva crua, fazem pagar pela sua da outra pele os enganos.
Quantos há, na nossa aldeia, leões e lobos fingidos, que houveram de andar despidos, se não fora a pele alheia!
ANTONIO BARBOSA BACELAR (1610-1663) A uma ausência
Sinto-me, sem sentir, todo abrasado No rigoroso fogo que me alenta; O mal, que me consome, me sustenta; O bem, que me entretém, me dá cuidado.
Ando sem me mover, falo calado; O que mais perto vejo, se me ausenta, E o que estou sem ver, mais me atormenta; Alegro-me de ver-me atormentado.
Choro no mesmo ponto em que me rio; No mor risco me anima á confiança; Do que menos se espera estou mais certo.
Mas se de confiado desconfio, É porque, entre os receios da mudança, Ando perdido em mim como em deserto. À variedade do mundo
Este nasce, outro morre, acolá soa Um ribeiro que corre, aqui suave, Um rouxinol se queixa brando e grave, Um leão c'o rugido o monte atroa.
Aqui corre uma fera, acolá voa C'o grãozinho na boca ao ninho üa ave, Um demba o edifício, outro ergue a trave, Um caça, outro pesca, outro enferoa.
Um nas armas se alista, outro as pendura An soberbo Ministro aquele adora, Outro segue do Paço a sombra amada,
Este muda de amor, aquele atura. Do bem, de que um se alegra, o outro chora... Oh mundo, oh sombra, oh zombaria, oh nada! A umas saudades
Saudades de meu bem, que noite e dia A alma atormentais, se é vosso intento Acabardes-me a vida com tormento, Mais lisonja será que tirania.
Mas, quando me matar vossa porfia, De morrer tenho tal contentamento, Que em me matando vosso sentimento, Me há-de ressuscitar minha alegria.
Porém matai-me embora, que pretendo Satisfazer com mortes repetidas O que à beleza sua estou devendo.
Vidas me dai para tirar-me vidas, Que ao grande gosto com que as for perdendo Serão todas as mortes bem devidas.
ALMEIDA GARRET ( 1799-1854) Seus olhos Seus olhos --- se eu sei pintar O que os meus olhos cegou --- Não tinham luz de brilhar. Era chama de queimar; E o fogo que a ateou Vivaz, eterno, divino, Como facho do Destino. Divino, eterno! --- e suave Ao mesmo tempo: mas grave E de tão fatal poder, Que, num só momento que a vi, Queimar toda alma senti... Nem ficou mais de meu ser, Senão a cinza em que ardi.
Não te amo Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma. E eu n'alma --- tenho a calma, A calma --- do jazigo. Ai! não te amo, não. Não te amo, quero-te: o amor é vida. E a vida --- nem sentida A trago eu já comigo. Ai, não te amo, não! Ai! não te amo, não; e só te quero De um querer bruto e fero Que o sangue me devora, Não chega ao coração. Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela. Quem ama a aziaga estrela Que lhe luz na má hora Da sua perdição? E quero-te, e não te amo, que é forçado, De mau feitiço azado Este indigno furor. Mas oh! não te amo, não. E infame sou, porque te quero; e tanto Que de mim tenho espanto, De ti medo e terror... Mas amar!... não te amo, não.
Destino Quem disse à estrela o caminho Que ela há-de seguir no céu? A fabricar o seu ninho Como é que a ave aprendeu? Quem diz à planta --- <<Floresce!>> --- E ao mudo verme que tece Sua mortalha de seda Os fios quem lhos enreda? Ensinou alguém à abelha Que no prado anda a zumbir Se à flor branca ou à vermelha O seu mel há-de ir pedir? Que eras tu meu ser, querida, Teus olhos a minha vida, Teu amor todo o meu bem... Ai! não mo disse ninguém. Como a abelha corre ao prado, Como no céu gira a estrela, Como a todo o ente o seu fado Por instinto se revela, Eu no teu seio divino Vim cumprir o meu destino... Vim, que em ti só sei viver, Só por ti posso morrer.
Gozo e dor Se estou contente, querida, Com esta imensa ternura De que me enche o teu amor? Não. Ai não; falta-me a vida; Sucumbe-me a alma à ventura: O excesso de gozo é dor. Dói-me alma, sim; e a tristeza Vaga, inerte e sem motivo, No coração me poisou. Absorto em tua beleza, Não sei se morro ou se vivo, Porque a vida me parou. É que não há ser bastante Para este gozar sem fim Que me inunda o coração. Tremo dele, e delirante Sinto que se exaure em mim Ou a vida ou a razão.
Quando eu sonhava Quando eu sonhava, era assim Que nos meus sonhos a via; E era assim que me fugia, Apenas eu despertava, Essa imagem fugidia Que nunca pude alcançar. Agora, que estou desperto, Agora a vejo fixar... Para quê? - Quando era vaga, Uma ideia, um pensamento, Um raio de estrela incerto No imenso firmamento, Uma quimera, um vão sonho, Eu sonhava - mas vivia: Prazer não sabia o que era, Mas dor, não na conhecia ...
Este inferno de amar Este inferno de amar - como eu amo! - Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi? Esta chama que alenta e consome, Que é a vida - e que a vida destrói - Como é que se veio a atear, Quando - ai quando se há-de ela apagar?
Eu não sei, não me lembra: o passado, A outra vida que dantes vivi Era um sonho talvez... - foi um sonho - Em que paz tão serena a dormi! Oh! que doce era aquele sonhar... Quem me veio, ai de mim! despertar?
Só me lembra que um dia formoso Eu passei... dava o sol tanta luz! E os meus olhos, que vagos giravam, Em seus olhos ardentes os pus. Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei; Mas nessa hora a viver comecei...
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