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7 de Setembro de 2010
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Sobre muros reais e simbólicos, por Antonio Ozaí Silva PDF Imprimir E-mail

Image Pensando bem, não é um imenso absurdo os muros fictícios e reais que interpomos em nossas relações? São muros de concreto, cercas de arames, barreiras formadas por humanos armados e artefatos tecnológicos. Francisco de Goya (1746-1828) afirmou que ... ( Leia completo)

Sobre muros reais e simbólicos

Pensando bem, não é um imenso absurdo os muros fictícios e reais que interpomos em nossas relações? São muros de concreto, cercas de arames, barreiras formadas por humanos armados e artefatos tecnológicos. Francisco de Goya (1746-1828) afirmou que "O sonho da razão produz monstros". Ele viveu o suficiente para ver a "razão" personificada nos soldados franceses e suas baionetas, sob o domínio de Napoleão.[1] Os horrores da guerra, em nome de valores universais como a Liberdade, foram registrados em sua obra.[2] Se tivesse vivido o século XX, teria testemunhado o terror de Estado protagonizado por governantes do tipo Stalin e o horror nazista na Alemanha. Teria, ainda, presenciado duas guerras mundiais, a "guerra fria" e a construção do Muro de Berlim. Quem sabe teria pintado outro quadro com estas palavras: "A razão em ação também produz monstros".

O século XX marca a crise da razão iluminista. A idéia de progresso, que acalentou o sonho da liberdade e desenvolvimento humano numa perspectiva ascendente, caiu por terra. O iluminismo, como sugere a expressão, almejava libertar os indivíduos das trevas, das superstições e preconceitos religiosos. A fé cega e intolerante deveria ser substituída pela razão. E a crença na potencialidade desta foi tão forte que influenciou os espíritos mais iluminados da época, inclusive os que criariam ideologias políticas como o marxismo e o anarquismo.

E foi sob a inspiração da ideologia marxista que se realizou a primeira revolução proletária de vulto: a Revolução Russa. A razão, instrumentalizada pelo partido de vanguarda, parecia dar início a uma nova era, à aurora da sociedade humana fundada em princípios solidários e igualitários. O que se seguiu foi a instituição da ditadura do partido e, depois, do "guia genial dos povos". A revolução tornou-se o seu oposto. Nascia, assim, aquilo que conhecemos como "socialismo realmente existente". Paradoxalmente, muitos dos países que viriam a orbitar em torno da "Meca do socialismo", a URSS, se autoproclamaram "democracias populares".

O Muro de Berlim foi um dos resultados mais visíveis desse processo histórico. Hoje, é patente o disparate representado pela sua construção. Quantas vidas humanas foram ceifadas pelo simples desejo de ultrapassá-lo? Quanto sofrimento causou? No entanto, é sintomático que encontre defensores entre os próprios alemães submetidos à separação forçada e mantida por ideologias em conflito. De novo, a vítima é a razão: as ideologias temporais intentarem superar a irracionalidade fundada em sentimentos e valores religiosos, mas, à sua maneira, subverteram a razão, tornaram-se irracionais e assumiram o caráter de uma espécie de religião profana. Só assim é possível compreender a cegueira que obscureceu a lucidez dos cidadãos, os quais, passiva ou ativamente, legitimaram regimes políticos autoritários e atos como a construção do Muro de Berlim. Certo, há o medo, o poder policial, o terror de Estado tão bem descrito em obras literárias como "1984" (George Orwell). Mas não devemos desconsiderar o poder de convencimento das ideologias seculares e mesmo a tendência à servidão voluntária.

A construção de muros parece ser uma exigência ditada pela necessidade humana de se sentir seguro. Talvez isto explique porque, 20 anos após a derrubada do muro de Berlim, haja tantos muros, físicos e simbólicos, a nos separar. O processo de segregação continua, o apartheid social ergue-se como um gigantesco muro a dividir povos e nações e o nacionalismo xenófobo oferece a sua contribuição. Ainda há muitos muros a derrubar!

Antonio Ozaí da Silva (http://antonio-ozai.blogspot.com/)  

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