| Voz, palavra e imagem: a poética de Arnaldo Antunes |
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Em Textos Escolhidos dessa edição, a poesia visual e midiática de Arnaldo Antunes. ( Leia completo)Índice Pág. 01 - Poemas ( Parte 1) Pág. 02 - A Letra múltipla de Arnaldo Antunes , o pedagogo da estranheza. Por André Gardel. Pág. 03 - Poemas ( Parte 2) Pág. 04 - Cronologia 1) O Buraco do Espelho o buraco do espelho está fechado agora eu tenho que ficar aqui com um olho aberto, outro acordado no lado de lá onde eu caí pro lado de cá não tem acesso mesmo que me chamem pelo nome mesmo que admitam meu regresso toda vez que eu vou a porta some a janela some na parede a palavra de água se dissolve na palavra sede, a boca cede antes de falar, e não se ouve já tentei dormir a noite inteira quatro, cinco, seis da madrugada vou ficar ali nessa cadeira uma orelha alerta, outra ligada o buraco do espelho está fechado agora eu tenho que ficar agora fui pelo abandono abandonado aqui dentro do lado de fora (in o carioca - revista de arte e cultura nº 2/ julho e agosto 1996) 2) as coisas As coisas têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor, posição, textura, duração, densidade, cheiro, valor, consistência, profundidade, contorno, temperatura, função, aparência, preço, destino, idade, sentido. As coisas não têm paz. (Arnaldo Antunes in "as coisas" Ed. Iluminuras 1993) 3) O que (se) foi é (s)ido (Arnaldo Antunes in "as coisas" Ed. Iluminuras 1993) 4) Cultura O girino é o peixinho do sapo. O silêncio é o começo do papo. O bigode é a antena do gato. O cavalo é o pasto do carrapato. O cabrito é o cordeiro da cabra. O pescoço é a barriga da cobra. O leitão é um porquinho mais novo. A galinha é um pouquinho do ovo. O desejo é o começo do corpo. Engordar é tarefa do porco. A cegonha é a girafa do ganso. O cachorro é um lobo mais manso. O escuro é a metade da zebra. As raízes são as veias da seiva. O camelo é um cavalo sem sede. Tartaruga por dentro é parede. O potrinho é o bezerro da égua. A batalha é o começo da trégua. Papagaio é um dragão miniatura. Bactéria num meio é cultura. (Arnaldo Antunes in "Nome" São Paulo.BMG Ariola Discos,1993) 5) Estamos Sob o Mesmo Teto Arnaldo Antunes O Globo: 25/07/2009 estamos sob o mesmo teto secreto onde o sol indesejável é barrado eu e você sob o mesmo nós dois, sóis sob o mesmo pôr (o enigma do amor) do sol onde todo contorno finda estamos sob a mesma pálpebra agora já e ainda intactos de aurora. 6) Cego Estou cego a todas as músicas, Não ouvi mais o cantar da musa. A dúvida cobriu a minha vida Como o peito que me cobre a blusa. Já a mim nenhuma cena soa Nem o céu se me desabotoa. A dúvida cobriu a minha vida Como a língua cobre de saliva Cada dente que sai da gengiva. A dúvida cobriu a minha vida Como o sangue cobre a carne crua, Como a pele cobre a carne viva, Como a roupa cobre a pele nua. Estou cego a todas as músicas. E se eu canto é como um som que sua. ( In Como é que chama o nome disso) 7) Onde mora? Pego em seu pé — é só um pé. Pego em sua mão — é sua mão. Pego em seus cabelos — são só cabelos. Aqui tudo é aquilo que é. Onde mora o amor? ( In Como é que chama o nome disso) 8) A fera Senhoras e senhores, vão emboras, por favores. A fera não tolera sofredores. 9) Um fio Um fio do seu cabelo está na minha cabeça e não há nada que faça com que isso desaconteça. Um fio do meu cabelo está na sua e não há nada que o substitua. Nem o sol, nem a lua. Nem a luz do pensamento mais intenso que você pense que eu penso. 10) Isso (para Tunga) Jornal da Tarde, 5/11/94 a queda dos dentes de leite, o oco do sino, a sinédoque, o sem nome do que é (o buraco), o botoque na boca, a dor (o adorno), o buraco do lábio onde o botoque cabe, a boca do sino (mais espaço entre a perna e o tecido), o que faz fazer sentido, o osso, o espaço entre o pé e o passo (quanto mais perto do olho menos se vê), as pedras do chocalho, o chacoalho dos transportes terrestres sobre as pedras, o coalhar do leite, a queda dos dentes, o desmame (o desmesmo), a amnésia cotidiana, o oco da caixa craniana, o ovo do sino (o badalo), a sombra do símbolo, a lembrança da silhueta do semblante, o silêncio dos pêndulos, o silêncio de todas as coisas que dependem de tempo, a transparência das pálpebras, a letra agá, o desagá, o lapso entre a gagueira e o eco, a bomba agá, a desagregação das células, o nunca entre uma verdade e a verdade, o nunca entre as idades, o aqui do corpo (o agá da hora), o oco do coco, a engrenagem de uma só peça, a cópula de um só corpo, o oco da cabaça (a água), o aquilo, o cabaço da cabeça, o cérebro do sexo, o excesso do zero, o si do sino, el no, no translation (a mensagem de si para si), a circuncisão, o siso, o apêndice (o que se diz sobre o que se disse), a repetição, o pênis, a repartição dos genes, a extração do minério, o funeral do membro amputado, o apartar depois do amolecimento, a contração do parto, o contra-contrário, a anti-antítese, o duelo dos elos, o des-destino (o oco da sina), o embalo que nina, o soco do sono, a queda dos ossos no leito, o nunca entre o cansaço e a preguiça, o menos do badalo maciço no pouco do sino, o nunca entre os sinônimos, os nomes do anônimo, o furo, o cu do escuro, a cova do vivo, o cu do vácuo, o cadáver futuro (a fartura), o olho da agulha, o espaço entre o olho e a coisa (o tempo preenchido), o corpo prenhe, o ubre cheio, o desmaio do meio, o black out do leite no seio, o cadáver prematuro (a fratura), o agora fora de seu agouro, o oco de fora (o eco do sino), o si fora de si, o ultra-som do raio x, a casca (da casca), a hóstia, a ostra (a crosta da pérola), a última pétala da primavera, a boca banguela, o casco da caravela, a outra margem do mar, (a marca) da marca, o oco do signo, a queda do dente de luto, o novo continente, o velho conteúdo. 11) Fora de si Eu fico louco eu fico fora de si eu fica assim eu fica fora de mim Eu fico um pouco depois eu saio daqui eu vai embora eu fico fora de si Eu fico oco eu fica bem assim eu fico sem ninguém em mim 12) As árvores As árvores são fáceis de achar Ficam plantadas no chão Mamam do céu pelas folhas E pela terra Também bebem água Cantam no vento E recebem a chuva de galhos abertos Há as que dão frutas E as que dão frutos As de copa larga E as que habitam esquilos As que chovem depois da chuva As cabeludas, as mais jovens mudas As árvores ficam paradas Uma a uma enfileiradas Na alameda Crescem pra cima como as pessoas Mas nunca se deitam O céu aceitam Crescem como as pessoas Mas não são soltas nos passos São maiores, mas Ocupam menos espaço Árvore da vida Árvore querida Perdão pelo coração Que eu desenhei em você Com o nome do meu amor. 13) agora Debaixo d'água tudo era mais bonito Mais azul, mais colorido Só faltava respirar Mas tinha que respirar Debaixo d'água se formando como um feto Sereno, confortável, amado, completo Sem chão, sem teto, sem contato com o ar Mas tinha que respirar Todo dia Todo dia, todo dia Todo dia Todo dia, todo dia Debaixo d'água por encanto sem sorriso e sem pranto Sem lamento e sem saber o quanto Esse momento poderia durar Mas tinha que respirar Debaixo d'água ficaria para sempre, ficaria contente Longe de toda gente, para sempre no fundo do mar Mas tinha que respirar Todo dia Todo dia, todo dia todo dia Todo dia, todo dia Debaixo d'água, protegido, salvo, fora de perigo Aliviado, sem perdão e sem pecado Sem fome, sem frio, sem medo, sem vontade de voltar Mas tinha que respirar Debaixo d'água tudo era mais bonito Mais azul, mais colorido Só faltava respirar Mas tinha que respirar Todo dia Agora que agora é nunca Agora posso recuar Agora sinto minha tumba Agora o peito a retumbar Agora a última resposta Agora quartos de hospitais Agora abrem uma porta Agora não se chora mais Agora a chuva evapora Agora ainda não choveu Agora tenho mais memória Agora tenho o que foi meu Agora passa a paisagem Agora não me despedi Agora compro uma passagem Agora ainda estou aqui Agora sinto muita sede Agora já é madrugada Agora diante da parede Agora falta uma palavra Agora o vento no cabelo Agora toda minha roupa Agora volta pro novelo Agora a língua em minha boca Agora meu avô já vive Agora meu filho nasceu Agora o filho que não tive Agora a criança sou eu Agora sinto um gosto doce Agora vejo a cor azul Agora a mão de quem me trouxe Agora é só meu corpo nu Agora eu nasco lá de fora Agora minha mãe é o ar Agora eu vivo na barriga Agora eu brigo pra voltar Agora Agora Agora 14) UM DIA 1) sujar o pé de areia pra depois lavar na água 2) esperar o vagalume piscar outra vez 3) ouvir a onda mais distante por trás da mais 4) não esperar nada acontecer 5) se chover, tomar chuva 6) caminhar 7) sentir o sabor do que comer 8) ser gentil com qualquer pessoa 9) barbear]se no final da tarde 10) ao se deitar para dormir, dormir Arnaldo Antunes. In: Boa companhia: poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 15) Alegria eu vou te dar alegria eu vou parar de chorar eu vou raiar um novo dia eu vou sair do fundo do mar eu vou sair da beira do abismo e dançar e dançar e dançar a tristeza é uma forma de egoísmo eu vou te dar eu vou te dar eu vou hoje tem goiabada hoje tem marmelada hoje tem palhaçada o circo chegou hoje tem batucada hoje tem gargalhada riso e risada do meu amor |
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