| Literatura padece com os álibis da preguiça e da pressa. |
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Nada tenho contra escrever curto, longo ou médio, desde que isto seja feito com talento, convicção e grandeza (e grandeza não tem nada a ver com tamanhos mensuráveis). Mas tenho observado que a profusão de mini-contos e outros textos curtos em livros ou na Internet parece andar de mãos dadas com a franca... por Chico Lopes ( Leia mais)
por Chico Lopes Nada tenho contra escrever curto, longo ou médio, desde que isto seja feito com talento, convicção e grandeza (e grandeza não tem nada a ver com tamanhos mensuráveis). Mas tenho observado que a profusão de mini-contos e outros textos curtos em livros ou na Internet parece andar de mãos dadas com a franca vontade do comercialismo de acabar com a Literatura como fonte de pensamento e de observação do ser humano como complexidade, alma, enigma. Que a indústria cultural conspira contra a complexidade e o pensamento que honestamente não se barateia nem se oferece concludente é fato patente, não precisa ser demonstrado a ninguém que pense um pouquinho mais. Decidiu-se, aparentemente, que o sucesso estará sempre certo e que, sendo ele tudo, o resto – incluindo os esforços no sentido de reforçar a qualidade com coisas mais arriscadas – é coisa de otário vaidoso que publica livros para uma minoria; a “esperteza” mais vulgar e predatória tomou conta e, se não se ganha dinheiro com livros, para quê publicá-los? Esse tipo de cinismo está tão difundido e arraigado que não se pensa mais que o sucesso poderia sim advir da qualidade, do risco, de coisas que não sejam tão óbvias e presas a fórmulas. Dá a impressão de que a equação sucesso/publicação foi pacificamente resolvida: basta que o livro seja medíocre, mas popular, dentro de certas linhas temáticas que estão dando lucro. Assim, vê-se “demais do mesmo” por todas as livrarias – não sei quantos volumes sobre cães simpáticos desde ” Marley e eu ” e variações sobre o tema do vampiro, agora que ” Crepúsculo ” e seus filhotes estão em alta. Alguns desses livros podem estar longe de ser vergonhosos, mas não são nada além de indústria, com o gosto de comidinha gostosa e esquecível que todo “mainstream” tem. A descartabilidade é a alma da coisa. Livros interessantes, claro, entre brasileiros e estrangeiros, continuam a ser lançados, mas ficam invisíveis e os vendedores de livrarias às vezes nem sabem de sua existência. É mais o leitor menos iludido e melhor informado que tem a iniciativa de localizá-los nas prateleiras certas. Por outro lado, os editores têm seu lado de razão ao ficarem irritados com escritores que não se esforçam muito para ser inteligíveis – porque o sucesso parece plebeu demais para certos tipos refinadíssimos, os verdadeiros Axels do livro de Edmund Wilson, aqueles que dizem “viver? deixemos isso para nossos criados”, que escrevem para quatro pessoas e não querem passar daí. Estes não têm jeito – quanto mais fracassarem, mais se sentirão justificados, acreditando que poderão sempre disfarçar seu ressentimento com os narizes eternamente franzidos diante do mau-cheiro da abominada “popularidade”. Mas estão errados, simplesmente – o sucesso pode andar junto com a qualidade, e haveria exemplos disso a fartar na história do sucesso editorial. O grande problema é que a mentalidade do lucro pelo lucro vem tornando a indústria editorial preguiçosa demais, repetitiva demais, excluindo, ela própria, possibilidades outras de publicação que poderiam redundar em vendagens talvez não tão avassaladoras, mas seguras. Quem acha que simplesmente encontrou a fórmula para vender sempre mais e mais livros, estará enganado, lançará muita coisa ruim parecida a sucessos ou variando na mesma pauta “de uma nota só″ na corrida por uma chance de “arrebentar a boca do balão” com mais um cachorro engraçadinho e “quase humano” e variações – pegará migalhas, e migalhas de lucro não compensam o desprestígio. É claro que ninguém sobrevive no mundo capitalista se não tiver instinto de comerciante. O problema não é esse. O problema é não acreditar mais que os comerciantes refinados tenham chance, é inclusive ver ex-refinados se penitenciando por um dia terem sido tão “ingênuos”. É isso que vem minando o jogo, progressivamente. * * * Com o conto, gênero a que os editores parecem ter adquirido uma ojeriza automática, tudo parece ter se reduzido a um álibi – é preciso que ele seja curto, seja cômico, doidão, pornô-chique, espetacular ou que, enfim, tenha impacto certo e rápido. Seu abrigo é as antologias pagas por certo número de autores reunidos sob um tema ou sob uma determinada facção estética, ou os concursos. Mas sempre se pede contos curtos ou curtíssimos – o mini-conto tem sido constante. Parece que se instalou um desafio também circense, na coisa – quem é capaz de, com menos palavras, traçar uma narrativa inteligente e surpreendente, como se pede a artistas de trapézio que, a cada exibição, vençam desafios de tirar mais e mais o fôlego da platéia, a velha sádica que urra comendo pipoca e esperando que alguém se espatife na palha de arroz e o sangue valha o ingresso. Na verdade, poucos autores são capazes de escrever curtíssimo e bem. Chegar ao “haicai” é uma aspiração normal e legítima que se pode ter, mas isso cabe a talentos que se consagraram escrevendo em extensão comum, como Dalton Trevisan. E mesmo seus contos curtíssimos não são assim tão interessantes. Ao fim, nesses casos, o que se parece louvar é uma proeza e não uma arte, coisa de virtuoses do salto mortal e de hábeis trapezistas, não de escritores talentosos. Por todo lado, há muita gente escrevendo. Mas, quando se presta atenção ao que passa por mais avançado, sempre se encontra o vago surrealismo “chocante” e abstruso dos títulos, as histórias de boteco, latrina, alcova, o que seja, exibicionismos de gente que não aprendeu ainda nada da vida exceto deslumbrar-se com seus devaneios de masturbação ou achar que seu umbigo é ouro puro etc. ou diluições também vagamente habilidosas de um autor ou outro. Bukowski por um lado, Borges ou Kafka por outro, e, em meio a isso, tome mediocridade presunçosa, pose de “artista” rebelde e enjoadinho. Como é possível publicar qualquer coisa na rede, naturalmente o esforço, o sacrifício por uma artesania minimamente bem resolvida está totalmente fora de moda – basta que o sujeito seja “ousado” e escreva algo “contundente”. Em geral, um episódio sórdido-engraçadinho-metido a contestador, com alma de grafite em banheiro público. Quem quer que esteja atento ao que se publica por aí, notará isso de imediato. Claro que não é só isso, que há quem procure boa prosa no curto e se esforce bastante por isso, mas os bem-sucedidos são exceções que confirmam a regra. Aquilo que Machado de Assis escreveu, que “o Tempo só respeita o que é escrito com tempo “, foi quase totalmente esquecido. Mesmo os contos curtos exigem tempo, e talvez ainda mais do que os longos. Em Literatura, como em qualquer outra arte, nada substitui o talento, e por isso o próprio Trevisan, ao ser indagado o que recomendaria aos novos autores, respondeu ironicamente: “Tenham talento”. Ora, talento é de enorme ajuda, mas não basta; ele pode favorecer a autocomplacência ao cubo – é preciso trabalhar, retrabalhar a língua, jamais se achar o “ó do borogodó″, realizado, resolvido, superior, genial, repensar os próprios livros publicados, revisá-los, publicar quantas novas edições forem necessárias ou, caso isto seja impossível, tentar não cometer mais besteiras em novas criações, superar-se. E é preciso ter algo a dizer. Não tendo nada a dizer, muita gente adota o álibi de ser telegráfico. Mas a Literatura é impiedosa – não se pode disfarçar algo que não está realmente ali ou fazer de conta que se é tão profundo que só se consegue balbuciar e ser gutural. Só improvisam e são genialmente elípticos os que sabem escrever. Ninguém poderá jamais resumir um livro que não leu. Só que, no presente panorama, ninguém parece ter vontade de se superar ou se corrigir ou aceitar críticas. Reina o narcisismo mais melindroso, fútil e extremado – a chamada ” crítica construtiva ” (que, a despeito do clichê, existe sim) às vezes é aceita com alguns sorrisinhos embaraçados e “obrigados” aqui e ali, mas não é sintomático que alguns desses escritores nunca mais apareçam na vida de quem os criticou? Que se vinguem sonsamente da crítica sensata na primeira oportunidade, achando que tudo é inveja ou que ele sempre estará no caminho certo, porque ele é ele, o resto é o resto etc? A grande verdade é que as vaidades da tribo (de que o delicioso livro ” A louca da casa “, de Rosa Montero, fala com perícia) são incuráveis. E toda crítica, mesmo a mais correta, generosa e acertada, é tomada como ofensa pessoal. Acredito que os mini-contos são um pouco sintomáticos de um quadro mais geral, onde os grandes esforços solitários e prolongados na tentativa de se escrever melhor (esforços que, não raro, podem dar em livros rasgados e postos de lado com toda razão; o verdadeiro escritor é sempre um penitente) são vistos como caretas ou pouco compensadores em termos de público. Eles parecem querer dizer não “Menos é Mais“, mas sim “Façam menos Literatura“, isto é: satisfaçam mais a ânsia apressada de publicação e de ajustes burocráticos aos jurados (se for o caso de concursos) preguiçosos e ocupados demais. Álibis da preguiça por um lado, da pressa por outro, os poucos contos curtíssimos que realmente saem bons estão destinados a um brilho descartável também. Os que não querem levar a Literatura pelo seu lado de parto prolongado e esforço por um aprimoramento na verdade indefinido e sem louros imediatos acham até mesmo uma “estética”, digamos, a favor de sua superficialidade. É o que vem acontecendo. |


Nada tenho contra escrever curto, longo ou médio, desde que isto seja feito com talento, convicção e grandeza (e grandeza não tem nada a ver com tamanhos mensuráveis). Mas tenho observado que a profusão de mini-contos e outros textos curtos em livros ou na Internet parece andar de mãos dadas com a franca... por 










