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10 de Setembro de 2010
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Ringo Starr - Y Not PDF Imprimir E-mail
Image No ano em que completa setenta anos de idade, Ringo Starr comemora por antecipação com disco novo na praça.  O álbum, “Y Not”, está disponível em três formatos: CD, LP e ‘digital download’, que ... ( Leia mais)
No ano em que completa setenta anos de idade, Ringo Starr comemora por antecipação com disco novo na praça.  O álbum, “Y Not”, está disponível em três formatos: CD, LP e ‘digital download’, que tanto pode ser feito faixa a faixa como por inteiro. No mesmo dia do lançamento (12.01) Ringo se entregou entusiasmado a uma maratona de aparições em programas de rádio e televisão para divulgar o novo trabalho na América, exibindo invejável forma física, bom humor, e disposição de iniciante. “Y Not” saiu pelo selo Hip-O Records e é uma deliciosa surpresa do primeiro ao último take. Depois do longo período de parceria com Mark Hudson e The Roundheads, Ringo decidiu fazer as coisas inteiramente a seu modo, e, com efeito, assina sozinho e pela primeira vez a produção de um disco de sua carreira solo. Vale o registro de que ele já tinha sido co-produtor em vários álbuns desde 1970, mas neste há diferenças. E marcantes.

Ao contrário do anterior Liverpool 8, “Y Not” é bem mais coeso. Enquanto naquele a faixa título se destacava das demais, neste há muito mais unidade - que sobressai no detalhe, nas sutilezas das canções e dos arranjos. Também não há altos e baixos. Ringo trabalhou tranqüilo, sem pressa e de forma discreta na montagem deste novo disco, enquanto o mundo só tinha olhos e expectativas para o lançamento digital dos boxes mono e estéreo e da aventura experimental e futurista do game ‘The Beatles Rock Band’. Quando “Y Not” virou notícia já estava pronto, e com todo o planejamento estratégico de divulgação montado.  E qual é o perfil do novo álbum? “Y Not” se destaca logo por ser um disco rápido e de canções curtas como os primeiros dos Beatles. São dez faixas encaixadas num disquinho que dura apenas 36 min.51 seg, ou seja, quase o mesmo tempo de um A Hard Days Night.  Há outras boas surpresas. Gravado com o que existe de melhor em tecnologia digital, o álbum apresenta mixagem propositalmente retrô (e muito bem vinda) onde é possível distinguir instrumentos ‘pendurados’ de um lado e de outro do estéreo como nas velhas produções de George Martin e dos Beatles.

Recentemente debatemos essa questão nos reviews dos boxes mono e estéreo, observando as dificuldades de montagem dos mixes nos anos sessenta com poucos canais disponíveis. Também lamentamos a despreocupação com a inventividade da mixagem nos dias atuais, mesmo com o processo de gravação digital oferecendo infindáveis possibilidades para a ‘mistura’ dos sons. Como hoje a música não é mais tratada como um acontecimento parece não haver muita preocupação em editar. Podia ser diferente se o padrão de mixagem estéreo fosse capaz de lhe fazer ‘sentir’ a canção como no passado. “Y Not” se dá bem nesse aspecto, pois se vale da modernidade para produzir mixes diferentes do usual e que de fato chamarão a atenção dos mais atentos.

Ao que parece Ringo Starr trabalhou muito bem com o ‘pan’ da mesa de som. A audição ao centro do estéreo oferece criativos duelos de guitarras, pianos, órgãos, e a proeminente percussão de um lado e outro das caixas acústicas. O clima obtido se assemelha à coisa do ‘ao vivo no estúdio’, ou no mínimo permite que o ouvinte imagine os músicos tocando. E o melhor de tudo é que Ringo continua fazendo pulsar bem seu kit Ludwig.  Outro destaque a meu ver é a voz.  Se nunca foi um vocalista com o peso de John Lennon, Paul McCartney ou George Harrison, o timbre do baterista permanece como no tempo dos Beatles. A voz é aquela mesma, inconfundível e nem a passagem do tempo a deteriorou significativamente. Outro aspecto digno de nota em “Y Not” é a inusitada participação da jovem (e bela) Joss Stone num take arrebatador em que o ‘dono’ do disco passa a condição de coadjuvante nos backing vocals enquanto ela brilha como ídolo da nova geração. Com um pouco de ousadia essa música renderia um vídeo clipe que por certo levaria Ringo para a MTV e similares.  

O novo CD de Ringo Starr tem concepção simples, e não disponibiliza edição de luxo alternativa com DVD ou faixas bônus. Nas versões a venda na Europa e Estados Unidos o encarte não contém as letras das canções, opção que por certo só será disponibilizada no álbum japonês. Também não apareceu um ‘advanced single’. Por ora a única providência nesse sentido foi a distribuição às rádios na América e Europa de um disquinho (CD-R) com a ‘faixa de trabalho’, Walk With You.  A versão em LP também não apresenta requintes e a capa é simples. Itens promocionais de “Y Not”?  Dois apenas. Uma camiseta vendida com exclusividade pelo site www.ringostarr.com e um inusitado imã de geladeira!  Na embalagem do CD chama atenção uma ‘tarja’ promocional onde é anunciado: “10 excitantes novas colaborações com Ringo – incluindo Walk With  You e Peace Dream com Paul McCartney e Fill in the Blanks e The Other Side of Liverpool com Joe Walsh”. Curiosamente não há menção a participação de Joss Stone.
“Y Not” é uma corruptela de Why Not, e - porque não - um homem que já fez de tudo, não podia atuar como produtor de seu próprio disco? O resultado foi o melhor possível. E 2.010 promete outras emoções já que com o novo lançamento, Ringo Starr ‘tomou gosto’ e anunciou a volta da All-Starr Band em uma turnê de verão que percorrerá os Estados Unidos de costa a costa. Os shows começam no final de junho, e até a festa de comemoração de seus setenta anos se dará ‘na estrada’, no dia sete de julho. Será em pleno palco do Radio City Music Hall, em Nova York, num evento que deve receber muitos convidados e será filmado para possível lançamento. Na mesma ocasião Ringo ganhará uma ‘estrela’ na Calçada da Fama, em Hollywood. “Will you still need me/will you still feed me/when I'm 70?  Why not?

“Y NOT  -  A FAIXA A FAIXA”

Ringo Starr em branco e preto na capa, e preto no branco no conteúdo de “Y Not”, um despretensioso disco de rock and roll gravado em clima de festa e com a ajuda importante de amigos e convidados especiais. Passaram pelos estúdios ou ajudaram na autoria das canções nomes como: Paul McCartney (baixo/vocais), Joe Walsh (guitarra), Dave Stewart (guitarra), Steve Dudas (guitarra), Benmont Tench (teclados), Don Was (baixo), Mike Bradford (baixo), Bruce Sugar (co-produção, engenharia de som e teclados), Joss Stone (vocais), Ben Harper (vocais), Richard Marx (vocais), Ann Marie Calhoun (violino), Tina Sugandh (vocal e tabla), Edgard Winter (metais) e ainda os colaboradores especiais Glen Ballard, Van Dyke Parks, Gary Nicholson, Gary Wright, e Gary Burr.

FILL IN THE BLANKS (3:14)
Composição de Ringo e seu amigo-irmão Joe Walsh, um rock com levada forte e ‘duelos’ das guitarras num e noutro canal de áudio. O mesmo ocorre com a bateria inventivamente mixada.

PIECE DREAM (3:35)
Ringo destila sua filosofia baseada na paz e no amor. Um trecho da letra vale a pena ser citado: "No need for war no more/better things worth fighting for". No trecho para ‘mexer’ com os fãs Ringo canta com suavidade: ..."Just like John Lennon said in Amsterdam from his bed/one day the world will wake up to see......reality". "Can you imagine/if we give peace a chance/the whole world could be living in harmony...one day our dream can be reality".  Há uma linda guitarra ‘pontuando’ num dos canais, enquanto o baixo providenciado por Paul é discreto e eficiente.

THE OTHER SIDE OF LIVERPOOL (3:24)
De certa forma essa composição é uma seqüência de ‘Liverpool 8’ do disco anterior, mas com um direcionamento diferente. A letra é biográfica e em alguns pontos remete à crítica social. Um trecho: 'The other side of Liverpool is cold and damp/only way out there is drums, guitar and amp". Há também uma menção a Rory Storm:  "…and Roy if you're listening/thanks for all you've done". Teria Ringo reagido com esta canção às hostilidades que enfrentou em sua cidade natal por conta de uma declaração equivocada no começo de 2.008?  A bateria ‘viaja’ de um lado e outro do estéreo, assim como os backing vocals.  É seguramente uma das mais fortes composições do álbum, tanto que foi tocada ao vivo durante a divulgação promocional de “Y Not”.

WALK WITH YOU (4:42)
Violas e violinos abrem lindamente esta canção cuja percussão é típica de Ringo. O clima beatle do arranjo e dos vocais está indisfarçável. O encontro com Paul no refrão foi programado para arrepiar os fãs. O arranjo mistura guitarras com violinos e violoncelos. A letra fala do poder da amizade e foi escrita em parceria com Van Dyke Parks.  Atente para a guitarra na parte final desta canção escolhida como primeiro single do álbum.

TIME (3:50)
O destaque nesta composição é o longo fade out que começa quando a faixa chega em 01min51segundos e permite que os músicos se exibam no individual e no coletivo ao mesmo tempo. Guitarra e piano duelam de um lado e outro do estéreo, misturando-se aos pratos da bateria e a outros instrumentos como violinos e sax. Na letra um conselho simples do ‘setentão’ Ringo Starr: "Forget about yesterday/this is the best day of your life".

EVERYONE WINS (3:54)
Originalmente esta música foi lançada em 1992 com o título (errado) ‘Everybody Wins’ como B side de Don’t Go Where the Road Don’t Go. Virou uma pequena raridade porque o single saiu somente na Alemanha. Não são poucos mundo afora que não conseguiram o disquinho original e possuem a composição em cópias piratas.  Porque Ringo a regravou?  É uma boa pergunta. A versão original produzida por Peter Asher era um rock matador com guitarras rascantes. Nesta reedição o arranjo ficou ‘mais manso’, digamos assim, mas o resultado final é muito bom. Ringo também adotou um novo tom para cantá-la. Ainda prefiro a versão do single, mas entendo que ‘Everyone Wins’ foi atualizada para o contexto de “Y Not”, e é um de seus destaques, nem parecendo que se trata na realidade, de uma faixa composta dezoito anos antes.

MYSTERY OF THE NIGHT (4:06)
Talvez a melhor composição do disco seja esta, escrita em parceria  com Richard Marx. É um baladaço arrebatador, e com arranjo dos mais criativos. Guitarras duelam de um lado e de outro do estéreo. Há sons editados nos ‘backings’ que remetem aos efeitos sonoros de Revolver. De surpresa um piano ‘quebra’ o arranjo num dos canais, levando no ato à atmosfera beatle. O solo de guitarra é matador, e Ringo flutua nos vocais. É uma composição que bem poderia se tornar um hit ou um promo vídeo.

CAN’T DO IT WRONG (3:45)
Ringo in blues. Destaque para o inventivo arranjo desta faixa com levada blues, misturando num canal e noutro instrumentos como violão de 12, piano, guitarras e metais. Destaque para os ‘duelos’ de sax e guitarra, e para o bom humor de Ringo ao cantar: "As long as I sing it/I can't sing it wrong".

Y NOT (3:50)
Ringo apresenta uma bateria marcante na faixa-título, que remete um pouco à levada de Back of Boogaloo. A batida é pesada, algo marcial, e o grito de Guerra do refrão, “y not, y not” gruda aos ouvidos. Do meio para o final o arranjo surpreende com uma guinada para sons indianos com direito a tabla, cítara e um vocal feminino de Tina Sugandh (conhecida como Girl Tina Tabla) que assume o lead vocal até o retorno de Ringo com a batida marcial, timbales e a levada rock da primeira parte.

WHO’S YOUR DADDY (2:29)
Esta surpreendente composição é duas coisas ao mesmo tempo. A introdução remete a um rock antigo estilo anos 50. Quando Joss Stone assume os lead vocals o clima passa a ser de puro ‘soul music’. Ringo é coajduvante. Dos backing vocals indaga insistentemente: “who’s your daddy”?  E Joss sem pestanejar replica: "not you!"  Ela também é provocante. Noutro trecho afirma: "you give me chicken wings/I want diamond rings".  Saxofone e guitarras duelam deliciosamente na mixagem.

por  Claudio Teran

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