| Sgt. Pepper´s Especial 40 anos |
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Por Vinicius Tavares Corria o ano de 1967. Os EUA afundavam no Vietnã. O Brasil afundava na ditadura militar. Do outro lado do oceano, mais precisamente nas terras do reino de Sua Majestade, a Rainha Elizabeth II, quatro rapazes, oriundos da classe operária britânica, enfurnados, há meses, em um estúdio de gravação da EMI, trabalhavam e criavam. Não apenas isso. Os Beatles concebiam a obra que iria mudar os rumos da cultura pop em todo o mundo. Algo inimaginável para os fãs e para a imprensa. Esta última, mal informada, já especulava sobre uma possível crise criativa do grupo. Como disse Sir Paul McCartney quase três décadas depois, eles não perderiam por esperar. Na verdade, naquela fértil década de 60, já se podia perceber um movimento consistente na busca de novos rumos para a arte. Pop-arte, filosofias orientais, rejeição à "haute couture", exotismos variados, pacifismo, futurismo, influências dadaístas, experiências com alterações da percepção, enfim, tudo que estivesse à mão era experimentado e transformado em arte. Mas, apenas nas mãos dos verdadeiramente talentosos. Porque muita besteira também foi cometida por gente mais presunçosa do que genial. As maléficas influências destes elementos ainda hoje podem ser vistas em qualquer bienal de arte que se preze. Mas, voltemos ao que interessa. No ano anterior, os Beach Boys haviam lançado o excelente Pet Sounds e os próprios Beatles já tinham indicado o rumo que iriam tomar com Rubber Soul (1965) e Revolver (1966). Nestes três trabalhos já podiam ser notados esforços criativos na busca de novas sonoridades e combinações de estilos aparentemente díspares. Em 17 de fevereiro daquele ano de muita graça, subiu o primeiro balão de ensaio: o compacto de dois lados A Strawberry Fields Forever / Penny Lane. Sucesso total. A torcida iniciou a levantar nas arquibancadas. Algo maior estava por vir. Finalmente, em 01 de junho de 1967, o evangelho veio à luz: Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band caiu na cabeça do mundo. Imediatamente, do repetitivo popzinho norte-americano à recém-nascida Jovem Guarda brasileira, muita coisa despontou para a obsolescência. Ali estava o novo rumo. A grande e até hoje insuperável síntese da cultura pop. A partir da belíssima capa e nas suas treze faixas, o álbum oferece um amálgama do que ia pela sociedade e cultura ocidentais da época: conflito de gerações, revolução sexual, celebração do indivíduo, futilidades cotidianas, desejo de fuga da realidade, libertinagem desbragada, tudo combinado em meio a ousadias harmônicas perpetradas com sopros, cordas, loops, vocais, riffs de guitarra, cítaras, galos e despertadores para compor um trabalho conceitual que redefiniu os parâmetros da produção musical no rock. Era o primeiro disco com capa dupla, o primeiro disco com letras encartadas, o primeiro disco sem interrupção nas faixas. O mundo ficou atônito. Por alguns momentos, pareceu que as incertezas da Guerra Fria e a carnificina do Vietnã seriam sobrepujadas a talhos de música e poesia a embalarem o idealismo e as utopias. É certo que, nestes tempos de individualismo cínico, idealismo e utopia pareçam tão fora de moda quanto a felicidade. Os Beatles já não existem. John e George tombaram pelo caminho. Mas, a arte que legaram à humanidade ainda persistirá a lembrar que "o amor que você recebe é sempre igual àquele que você dá".
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O evangelho do rock










