| Lygia Fagundes Telles - Espelhos da Alma |
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Índice : Pág. 01 – Contos ( Parte 1) / Biruta / A caçada / Venha ver o pôr-do-sol / As formigas / Seminário dos ratos / Presença / A mão no ombro / Um coração ardente Pág. 02 – Contos ( Parte 2) / História de passarinho / Chave na porta / Dia de dizer não / Suicídio na granja / O menino e o velho / Que se chama solidão / O moço do saxofone / Natal na barca Pág. 03 – Ensaio : " O Processo De Criação Em Lygia Fagundes Telles" por Gilda Korff Dieguez Pág. 04 – Vida e obra 1) Biruta
2) A CAÇADA A LOJA de antigüidades tinha o cheiro de uma arca de sacristia com seus panos embolorados e livros comidos de traça. Com as pontas dos dedos, o homem tocou numa pilha de quadros. Uma mariposa levantou vôo e foi chocar-se contra uma imagem de mãos decepadas. - Bonita imagem- disse ele. A velha tirou um grampo do coque e limpou a unha do polegar. - É um São Francisco. Ele então voltou-se lentamente para a tapeçaria que tomava toda a parede no fundo da loja. Aproximou-se mais. A velha aproximou-se também. - Já vi que o senhor se interessa mesmo é por isso...Pena que esteja nesse estado. O homem estendeu a mão até a tapeçaria, mas não chegou a tocá-la. - Parece que hoje está mais nítida... - Nítida?- Repetiu a velha, pondo os óculos. Deslizou a mão pela superfície puída- Nítida, como? - As cores estão mais vivas. A senhora passou alguma coisa nela? A velha encarou-o. E baixou o olhar para a imagem de mãos decepadas.O homem estava tão pálido e perplexo quanto a imagem. - Não passei nada, imagine...Por que o senhor pergunta? - Notei uma diferença. - Não, não passei nada, essa tapeçaria não aguenta a mais leve escova, o senhor não vê? Acho que é a poeira que está sustentando o tecido - acrescentou, tirando novamente o grampo da cabeça. Rodou-se entre os dedos com ar pensativo. Teve um muxoxo: - Foi um desconhecido que trouxe, precisava muito de dinheiro. Eu disse que o pano estava por demais estragado, que era difícil encontrar um comprador, mas ele insistiu tanto...Preguei aí na parede e aí ficou. Mas já faz anos isso. E o tal moço nunca mais me apareceu. - Extraordinário... A velha não sabia agora se o homem se referia à tapeçaria ou ao caso que acabara de lhe contar. Encolheu os ombros. Voltou a limpar as unhas com o grampo. - Eu poderia vendê-la, mas quero ser franca, acho que não vale à pena. Na hora que se despregar, é capaz de cair em pedaços. O homem acendeu um cigarro. Sua mão tremia. Em que tempo, meu Deus! Em que tempo teria assistido a essa mesma cena. E onde?... Era uma caçada. No primeiro plano, estava o caçador de arco retesado, apontado para uma touceira espessa. Num plano mais profundo, o segundo caçador espreitava por entre as árvores do bosque, mas esta era apenas uma vaga silhueta, cujo rosto se reduzira a um esmaecido contorno. Poderoso, absoluto era o primeiro caçador, a barba violenta como um bolo de serpentes, os músculos tensos, à espera de que a caça levantasse para desferir-lhe a seta. O homem respirava com esforço. Vagou o olhar pela tapeçaria que tinha a cor esverdeada de um céu de tempestade. Envenenando o tom verde-musgo do tecido, destacavam-se manchas de um negro-violáceo e que pareciam escorrer da folhagem, deslizar pelas botas do caçador e espalhar-se pelo chão como um líquido maligno. A touceira na qual a caça estava escondida também tinha as mesmas manchas e que tanto podiam fazer parte do desenho como ser simples efeito do tempo devorando o pano. - Parece que hoje tudo está mais próximo- disse o homem em voz baixa. - É como se... Mas não está diferente? A velha firmou mais o olhar. Tirou os óculos e voltou a pô-los. - Não vejo diferença nenhuma. - Ontem não se podia ver se ele tinha ou não disparado a seta... - Que seta? O senhor está vendo alguma seta? - Aquele pontinho ali no arco... A velha suspirou. - Mas esse não é um buraco de traça? Olha aí, a parede já está aparecendo, essas traças dão cabo de tudo- lamentou disfarçando um bocejo. Afastou-se sem ruído, com suas chinelas de lã. Esboçou um gesto distraído: - Fique aí à vontade, vou fazer o meu chá. O homem deixou cair o cigarro. Amassou-o devagarinho na sola do sapato. Apertou os maxilares numa contração dolorosa. Conhecia esse bosque, esse caçador, esse céu- conhecia tudo tão bem, mas tão bem! Quase sentia nas narinas o perfume dos eucaliptos, quase sentia morder-lhe a pele o frio úmido da madrugada, ah, essa madrugada! Quando? Percorrera aquela mesma vereda, aspirara aquele mesmo vapor que baixava denso do céu verde...Ou subia do chão? O caçador de barba encaracolada parecia sorrir perversamente embuçado. Teria sido esse caçador? Ou o companheiro lá adiante, o homem sem cara espiando entre as árvores? Uma personagem de tapeçaria. Mas qual? Fixou a touceira onde a caça estava escondida. Só folhas, só silêncio e folhas empastadas na sombra. Mas, detrás das folhas, através das manchas pressentia o vulto arquejante da caça. Compadeceu-se daquele ser em pânico, à espera de uma oportunidade para prosseguir fugindo. Tão próxima a morte! O mais leve movimento que fizesse, e a seta... A velha não a distinguira, ninguém poderia percebê-la, reduzida como estava a um pontinho carcomido, mais pálido do que um grão de pó em suspensão no arco. Enxugando o suor das mãos, o homem recuou alguns passos. Vinha-lhe agora uma certa paz, agora que sabia Ter feito parte da caçada. Mas essa era uma paz sem vida, impregnada dos mesmos coágulos traoçoeiros da folhagem. Cerrou os olhos. E se tivesse sido o pintor que fez o quadro? Quase todas as antigas tapeçarias eram reproduções de quadros, pois não eram? Pintara o quadro original e por isso podia reproduzir, de olhos fechados, toda a cena nas suas minúcias: o contorno das árvores, o céu sombrio, o caçador de barba esgrouvinhada, só músculos e nervos apontando para a touceira..."Mas se detesto caçadas! Por que tenho que estar aí dentro?" Apertou o lenço contra a boca. A náusea. Ah, se pudesse explicar toda essa familiaridade medonha, se pudesse ao menos...E se fosse um simples espectador casual, desses que olham e passam? Não era uma hipótese? Podia ainda Ter visto o quadro no original, a caçada não passava de uma ficção. "Antes do aproveitamento da tapeçaria..."- murmurou, enxugando os vãos dos dedos no lenço. Atirou a cabeça para trás como se o puxassem pelos cabelos, não, não ficara do lado de fora, mas lá dentro, encravado no cenário! E por que tudo parecia mais nítido do que na véspera, por que as cores estavam mais fortes apesar da penumbra? Por que o fascínio que se desprendia da paisagem vinha agora assim vigoroso, rejuvenescido?... Saiu de cabeça baixa, as mãos cerradas no fundo dos bolsos. Parou meio ofegante na esquina. Sentiu o corpo moído, as pálpebras pesadas. E se fosse dormir? Mas sabia que não poderia dormir, desde já sentia a insônia a segui-lo na mesma marcação da sua sombra. Levantou a gola do paletó. Era real esse frio? Ou a lembrança do frio da tapeçaria? "Que loucura!... E não estou louco", concluiu num sorriso desamparado. Seria uma solução fácil. "Mas não estou louco." Vagou pelas ruas, entrou num cinema, saiu em seguida e, quando deu acordo de si, estava diante da loja de antigüidades, o nariz achatado na vitrina, tentando vislumbrar a tapeçaria lá no fundo. Quando chegou em casa, atirou-se de bruços na cama e ficou de olhos escancarados, fundidos na escuridão. A voz tremida da velha parecia vir de dentro do travesseiro, uma voz sem corpo, metida em chinelas de lã: "Que seta? Não estou vendo nenhuma seta..."Misturando-se à voz, veio vindo o murmurejo das traças em meio das risadinhas. O algodão abafava as risadas que se entrelaçavam numa rede esverdinhada, compacta, apertando-se num tecido com manchas que escorreram até o limite da tarja. Viu-se enredado nos fios e quis fugir, mas a tarja o aprisionou nos seus braços. No fundo, lá no fundo do fosso podia distinguir as serpentes enleadas num nó verde-negro. Apalpou o queixo. "Sou o caçador?" Mas ao invés da barba encontrou a viscossidade do sangue. Acordou com o próprio grito que se estendeu dentro da madrugada. Enxugou o rosto molhado de suor. Ah, aquele calor e aquele frio! Enrolou-se nos lençóis. E se fosse o artesão que trabalhou na tapeçaria? Podia revê-la, tão nítida, Tão próxima que, se estendesse a mão, despertaria a folhagem. Fechou os punhos. Haveria de destruí-la, não era verdade que além daquele trapo detestável havia alguma coisa mais, tudo não passava de um retângulo de pano sustentado pela poeira. Bastava soprá-la, soprá-la! Encontrou a velha na porta da loja. Sorriu irônica: - Hoje o senhor madrugou. - A senhora deve estar estranhando, mas... - Já não estranho mais nada, moço. Pode entrar, o senhor conhece o caminho... "Conheço o caminho"- murmurou, seguindo lívido por entre os móveis. Parou. Dilatou as narinas. E aquele cheiro de folhagem e terra, de onde vinha aquele cheiro? E porque a loja foi ficando embaraçada, lá longe? Imensa, real só a tapeçaria a se alastrar sorrateiramente pelo chão, pelo teto, engolindo tudo com suas manchas esverdinhadas. Quis retroceder, agarrou-se a um armário, cambaleou resistindo ainda e estendeu os braços até a coluna. Seus dedos afundaram por entre galhos e resvalaram pelo tronco de uma árvore, não era uma coluna, era uma árvore! Lançou em volta um olhar esgazeado: penetrara na tapeçaria, estava dentro do bosque, os pés pesados de lama, os cabelos empastados de carvalho. Em redor, tudo parado.Estático. No silêncio da madrugada, nem o piar de um pássaro, nem o farfalhar de uma folha. Inclinou-se arquejante. Era o caçador? Ou a caça? Não importava, não importava, sabia apenas que tinha que prosseguir correndo sem parar por entre as árvores, caçando ou sendo caçado. Ou sendo caçado?...Comprimiu as palmas das mãos contra cara esbraseada, enxugou no punho da camisa o suor que lhe escorria pelo pescoço. Vertia sangue o lábio gretado. Abriu a boca. E lembrou-se. Gritou e mergulhou numa touceira. Ouviu o assobio da seta varando a folhagem, a dor! "Não..."- gemeu, de joelhos. Tentou ainda agarrar-se à tapeçaria. E rolou encolhido, as mãos apertando o coração.
3) VENHA VER O PÔR DO SOL
Ela subiu sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde. Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinham um jeito jovial de estudante. - Minha querida Raquel. Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos. - Vejam que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do taxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima. Ele sorriu entre malicioso e ingênuo. - Jamais, não é? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância me aparece nessa elegância...Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete-léguas, lembra? - Foi para falar sobre isso que você me fez subir até aqui?- perguntou ela, guardando as luvas na bolsa. Tirou um cigarro.- Hem?! - Ah, Raquel...- e ele tomou-a pelo braço rindo. - Você está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado...Juro que eu tinha que ver uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então fiz mal? - Podia Ter escolhido um outro lugar, não? – Abrandara a voz – E que é isso aí? Um cemitério? Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem. - Cemitério abandonado, meu anjo. Vivo e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo – acrescentou, lançando um olhar às crianças rodando na sua ciranda. Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro. Sorriu. - Ricardo e suas idéias. E agora? Qual é o programa? Brandamente ele a tomou pela cintura. - Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr do sol mais lindo do mundo. Perplexa, ela encarou-o um instante. E vergou a cabeça para trás numa risada. - Ver o pôr do sol!...Ah, meu Deus...Fabuloso, fabuloso!...Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr do sol num cemitério... Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta. - Raquel minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura... - E você acha que eu iria? - Quer dizer que o programa... E não podíamos tomar alguma coisa num bar? Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava. - Foi um risco enorme Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero ver se alguma das suas fabulosas idéias vai me consertar a vida. - Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado – prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. – Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui. - É um risco enorme, já disse . Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros. - É imenso, hem? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, é deprimente – exclamou ela atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada.- Vamos embora, Ricardo, chega. - Ah, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da tarde, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambigüidade. Estou lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa. - Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre. Delicadamente ele beijou-lhe a mão. - Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo. Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorrisso reapareceu e as rugazinhas sumiram. - Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra? Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo. - Sabe Ricardo, acho que você é mesmo tantã...Mas, apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele! Palavra que, quando penso, não entendo até hoje como agüentei tanto, imagine um ano Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido. Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou. - Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim – Deu-lhe um rápido beijo na face.- Chega Ricardo, quero ir embora. Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombro do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba. Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha. - Que triste é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui? Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu melancólico. - Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo? Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semi-obscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento. - E lá embaixo? Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se mais para ver melhor. - Todas estas gavetas estão cheias? - Cheias?...- Sorriu.- Só as que tem o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe- prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado, embutido no centro da gaveta. Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz. - Vamos, Ricardo, vamos. Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado: - A priminha Maria Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato. Foi umas duas semanas antes de morrer... Prendeu os cabelos com uma fita azul e vejo se exibir, estou bonita? Estou bonita?...- Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente.- Não, não é que fosse bonita, mas os olhos...Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus. Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada. - Que frio que faz aqui. E que escuro, não estou enxergando... Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira. - Pegue, dá para ver muito bem...- Afastou-se para o lado.- Repare nos olhos. Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás. - Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! – ordenou, torcendo o trinco.- Detesto esse tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida! Ela sacudia a portinhola. - Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente!- Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso.- Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra... - Boa noite, Raquel. - Chega, Ricardo! Você vai me pagar!...- gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá-lo.- Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos!- exigiu, examinando a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando. - Não, não... Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando as duas folhas escancaradas. - Boa noite, meu anjo. Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida. Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano: Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.
4) As formigas
Quando minha prima e eu descemos do táxi, já era quase noite. Ficamos imóveis diante do velho sobrado de janelas ovaladas, iguais a dois olhos tristes, um deles vazado por uma pedrada. Descansei a mala no chão e apertei o braço da prima. -- É sinistro. Ela me impeliu na direção da porta. Tínhamos outra escolha? Nenhuma pensão nas redondezas oferecia um preço melhor a duas pobres estudantes com liberdade de usar o fogareiro no quarto, a dona nos avisara por telefone que podíamos fazer refeições ligeiras com a condição de não provocar incêndio. Subimos a escada velhíssima, cheirando a creolina. -- Pelo menos não vi sinal de barata -- disse minha prima. A dona era uma velha balofa, de peruca mais negra do que a asa da graúna. Vestia um desbotado pijama de seda japonesa e tinha as unhas aduncas recobertas por uma crosta de esmalte vermelho-escuro, descascado nas pontas encardidas. Acendeu um charutinho. -- É você que estuda medicina? -- perguntou soprando a fumaça na minha direção. -- Estudo direito. Medicina é ela. A mulher nos examinou com indiferença. Devia estar pensando em outra coisa quando soltou uma baforada tão densa que precisei desviar a cara. A saleta era escura, atulhada de móveis velhos, desparelhados. No sofá de palhinha furada no assento, duas almofadas que pareciam ter sido feitas com os restos de um antigo vestido, os bordados salpicados de vidrilho. Vou mostrar o quarto, fica no sótão -- disse ela em meio a um acesso de tosse. Fez um sinal para que a seguíssemos. -- O inquilino antes de vocês também estudava medicina, tinha um caixotinho de ossos que esqueceu aqui, estava sempre mexendo neles. Minha prima voltou-se: -- Um caixote de ossos? A mulher não respondeu, concentrada no esforço de subir a estreita escada de caracol que ia dar no quarto. Acendeu a luz. O quarto não podia ser menor, com o teto em declive tão acentuado que nesse trecho teríamos que entrar de gatinhas. Duas camas, dois armários e uma cadeira de palhinha pintada de dourado. No ângulo onde o teto quase se encontrava com o assoalho, estava um caixotinho coberto com um pedaço de plástico. Minha prima largou a mala e, pondo-se de joelhos, puxou o caixotinho pela alça de corda. Levantou o plástico. Parecia fascinada. -- Mas que ossos tão miudinhos! São de criança? -- Ele disse que eram de adulto. De um anão. -- De um anão? é mesmo, a gente vê que já estão formados... Mas que maravilha, é raro a beça esqueleto de anão. E tão limpo, olha aí -- admirou-se ela. Trouxe na ponta dos dedos um pequeno crânio de uma brancura de cal. -- Tão perfeito, todos os dentinhos! -- Eu ia jogar tudo no lixo, mas se você se interessa pode ficar com ele. O banheiro é aqui ao lado, só vocês é que vão usar, tenho o meu lá embaixo. Banho quente extra. Telefone também. Café das sete às nove, deixo a mesa posta na cozinha com a garrafa térmica, fechem bem a garrafa recomendou coçando a cabeça. A peruca se deslocou ligeiramente. Soltou uma baforada final: -- Não deixem a porta aberta senão meu gato foge. Ficamos nos olhando e rindo enquanto ouvíamos o barulho dos seus chinelos de salto na escada. E a tosse encatarrada. Esvaziei a mala, dependurei a blusa amarrotada num cabide que enfiei num vão da veneziana, prendi na parede, com durex, uma gravura de Grassman e sentei meu urso de pelúcia em cima do travesseiro. Fiquei vendo minha prima subir na cadeira, desatarraxar a lâmpada fraquíssima que pendia de um fio solitário no meio do teto e no lugar atarraxar uma lâmpada de duzentas velas que tirou da sacola. O quarto ficou mais alegre. Em compensação, agora a gente podia ver que a roupa de cama não era tão alva assim, alva era a pequena tíbia que ela tirou de dentro do caixotinho. Examinou- a. Tirou uma vértebra e olhou pelo buraco tão reduzido como o aro de um anel. Guardou-as com a delicadeza com que se amontoam ovos numa caixa. -- Um anão. Raríssimo, entende? E acho que não falta nenhum ossinho, vou trazer as ligaduras, quero ver se no fim da semana começo a montar ele. Abrimos uma lata de sardinha que comemos com pão, minha prima tinha sempre alguma lata escondida, costumava estudar até de madrugada e depois fazia sua ceia. Quando acabou o pão, abriu um pacote de bolacha Maria. -- De onde vem esse cheiro? -- perguntei farejando. Fui até o caixotinho, voltei, cheirei o assoalho. -- Você não está sentindo um cheiro meio ardido? -- É de bolor. A casa inteira cheira assim -- ela disse. E puxou o caixotinho para debaixo da cama. No sonho, um anão louro de colete xadrez e cabelo repartido no meio entrou no quarto fumando charuto. Sentou-se na cama da minha prima, cruzou as perninhas e ali ficou muito sério, vendo-a dormir. Eu quis gritar, tem um anão no quarto! mas acordei antes. A luz estava acesa. Ajoelhada no chão, ainda vestida, minha prima olhava fixamente algum ponto do assoalho. -- Que é que você está fazendo aí? -- perguntei. -- Essas formigas. Apareceram de repente, já enturmadas. Tão decididas, está vendo? Levantei e dei com as formigas pequenas e ruivas que entravam em trilha espessa pela fresta debaixo da porta, atravessavam o quarto, subiam pela parede do caixotinho de ossos e desembocavam lá dentro, disciplinadas como um exército em marcha exemplar. -- São milhares, nunca vi tanta formiga assim. E não tem trilha de volta, só de ida -- estranhei. -- Só de ida. Contei-lhe meu pesadelo com o anão sentado em sua cama. -- Está debaixo dela -- disse minha prima e puxou para fora o caixotinho. Levantou o plástico. -- Preto de formiga. Me dá o vidro de álcool. -- Deve ter sobrado alguma coisa aí nesses ossos e elas descobriram, formiga descobre tudo. Se eu fosse você, levava isso lá pra fora. -- Mas os ossos estão completamente limpos, eu já disse. Não ficou nem um fiapo de cartilagem, limpíssimos. Queria saber o que essas bandidas vem fuçar aqui. Respingou fartamente o álcool em todo o caixote. Em seguida, calçou os sapatos e como uma equilibrista andando no fio de arame, foi pisando firme, um pé diante do outro na trilha de formigas. Foi e voltou duas vezes. Apagou o cigarro. Puxou a cadeira. E ficou olhando dentro do caixotinho. -- Esquisito. Muito esquisito. -- O quê? -- Me lembro que botei o crânio em cima da pilha, me lembro que até calcei ele com as omoplatas para não rolar. E agora ele está aí no chão do caixote, com uma omoplata de cada lado. Por acaso você mexeu aqui? -- Deus me livre, tenho nojo de osso. Ainda mais de anão. Ela cobriu o caixotinho com o plástico, empurrou-o com o pé e levou o fogareiro para a mesa, era a hora do seu chá. No chão, a trilha de formigas mortas era agora uma fita escura que encolheu. Uma formiguinha que escapou da matança passou perto do meu pé, já ia esmagá-la quando vi que levava as mãos a cabeça, como uma pessoa desesperada. Deixei-a sumir numa fresta do assoalho. Voltei a sonhar aflitivamente mas dessa vez foi o antigo pesadelo em torno dos exames, o professor fazendo uma pergunta atrás da outra e eu muda diante do único ponto que não tinha estudado. Às seis horas o despertador disparou veementemente. Travei a campainha. Minha prima dormia com a cabeça coberta. No banheiro, olhei com atenção para as paredes, para o chão de cimento, a procura delas. Não vi nenhuma. Voltei pisando na ponta dos pés e então entreabri as folhas da veneziana. O cheiro suspeito da noite tinha desaparecido. Olhei para o chão: desaparecera também a trilha do exército massacrado. Espiei debaixo da cama e não vi o menor movimento de formigas no caixotinho coberto. Quando cheguei por volta das sete da noite, minha prima já estava no quarto. Achei-a tão abatida que carreguei no sal da omelete, tinha a pressão baixa. Comemos num silêncio voraz. Então me lembrei: -- E as formigas? -- Até agora, nenhuma. -- Você varreu as mortas? Ela ficou me olhando. -- Não varri nada, estava exausta. Não foi você que varreu? -- Eu?! Quando acordei, não tinha nem sinal de formiga nesse chão, estava certa que antes de deitar você juntou tudo... Mas então quem?! Ela apertou os olhos estrábicos, ficava estrábica quando se preocupava. -- Muito esquisito mesmo. Esquisitíssimo. Fui buscar o tablete de chocolate e perto da porta senti de novo o cheiro, mas seria bolor? Não me parecia um cheiro assim inocente, quis chamar a atenção da minha prima para esse aspecto mas estava tão deprimida que achei melhor ficar quieta. Espargi água-de-colônia flor de maçã por todo o quarto (e se ele cheirasse como um pomar?) e fui deitar cedo. Tive o segundo tipo de sonho que competia nas repetições com o sonho da prova oral: nele, eu marcava encontro com dois namorados ao mesmo tempo. E no mesmo lugar. Chegava o primeiro e minha aflição era levá-lo embora dali antes que chegasse o segundo. O segundo, desta vez, era o anão. Quando só restou o oco de silêncio e sombra, a voz da minha prima me fisgou e me trouxe para a superfície. Abri os olhos com esforço. Ela estava sentada na beira da minha cama, de pijama e completamente estrábica. -- Elas voltaram. -- Quem? -- As formigas. Só atacam de noite, antes da madrugada. Estão todas aí de novo. A trilha da véspera, intensa, fechada, seguia o antigo percurso da porta até o caixotinho de ossos por onde subia na mesma formação até desformigar lá dentro. Sem caminho de volta. -- E os ossos? Ela se enrolou no cobertor, estava tremendo. Aí é que está o mistério. Aconteceu uma coisa, não entendo mais nada! Acordei pra fazer pipi, devia ser umas três horas. Na volta senti que no quarto tinha algo mais, está me entendendo? Olhei pro chão e vi a fila dura de formiga, você lembra? não tinha nenhuma quando chegamos. Fui ver o caixotinho, todas trançando lá dentro, lógico, mas não foi isso o que quase me fez cair pra trás, tem uma coisa mais grave: é que os ossos estão mesmo mudando de posição, eu já desconfiava mas agora estou certa, pouco a pouco eles estão... estão se organizando. -- Como, organizando? Ela ficou pensativa. Comecei a tremer de frio, peguei uma ponta do seu cobertor. Cobri meu urso com o lençol. -- Você lembra, o crânio entre as omoplatas, não deixei ele assim. Agora é a coluna vertebral que já está quase formada, uma vértebra atrás da outra, cada ossinho tomando seu lugar, alguém do ramo está montando o esqueleto, mais um pouco e... Venha ver! -- Credo, não quero ver nada. Estão colando o anão, é isso? Ficamos olhando a trilha rapidíssima, tão apertada que nela não caberia sequer um grão de poeira. Pulei-a com o maior cuidado quando fui esquentar o chá. Uma formiguinha desgarrada (a mesma daquela noite?) sacudia a cabeça entre as mãos. Comecei a rir e tanto que se o chão não estivesse ocupado, rolaria por ali de tanto rir. Dormimos juntas na minha cama. Ela dormia ainda quando saí para a primeira aula. No chão, nem sombra de formiga, mortas e vivas, desapareciam com a luz do dia. Voltei tarde essa noite, um colega tinha se casado e teve festa. Vim animada, com vontade de cantar, passei da conta. Só na escada é que me lembrei: o anão. Minha prima arrastara a mesa para a porta e estudava com o bule fumegando no fogareiro. -- Hoje não vou dormir, quero ficar de vigia -- ela avisou. O assoalho ainda estava limpo. Me abracei ao urso. -- Estou com medo. Ela foi buscar uma pílula para atenuar minha ressaca, me fez engolir a pílula com um gole de chá e ajudou a me despir. -- Fico vigiando, pode dormir sossegada. Por enquanto não apareceu nenhuma, não está na hora delas, é daqui a pouco que começa. Examinei com a lupa debaixo da porta, sabe que não consigo descobrir de onde brotam? Tombei na cama, acho que nem respondi. No topo da escada o anão me agarrou pelos pulsos e rodopiou comigo até o quarto, acorda, acorda! Demorei para reconhecer minha prima que me segurava pelos cotovelos. Estava lívida. E vesga. -- Voltaram -- ela disse. Apertei entre as mãos a cabeça dolorida. -- Estão aí? Ela falava num tom miúdo como se uma formiguinha falasse com sua voz. -- Acabei dormindo em cima da mesa, estava exausta. Quando acordei, a trilha já estava em plena. Então fui ver o caixotinho, aconteceu o que eu esperava... -- Que foi? Fala depressa, o que foi? Ela firmou o olhar oblíquo no caixotinho debaixo da cama. -- Estão mesmo montando ele. E rapidamente, entende? O esqueleto está inteiro, só falta o fêmur. E os ossinhos da mão esquerda, fazem isso num instante. Vamos embora daqui. -- Você está falando sério? -- Vamos embora, já arrumei as malas. A mesa estava limpa e vazios os armários escancarados. -- Mas sair assim, de madrugada? Podemos sair assim? -- Imediatamente, melhor não esperar que a bruxa acorde. Vamos, levanta. -- E para onde a gente vai? -- Não interessa, depois a gente vê. Vamos, vista isto, temos que sair antes que o anão fique pronto. Olhei de longe a trilha: nunca elas me pareceram tão rápidas. Calcei os sapatos, descolei a gravura da parede, enfiei o urso no bolso da japona e fomos arrastando as malas pelas escadas, mais intenso o cheiro que vinha do quarto, deixamos a porta aberta. Foi o gato que miou comprido ou foi um grito? No céu, as últimas estrelas já empalideciam. Quando encarei a casa, só a janela vazada nos via, o outro olho era penumbra. 5) Seminário dos ratos "Que século, meu Deus! -- exclamaram os ratos e começaram a roer o edifício." Carlos Drummond de Andrade O Chefe das Relações Públicas, um jovem de baixa estatura, atarracado, sorriso e olhos extremamente brilhantes, ajeitou o nó da gravata vermelha e bateu de leve na porta do Secretário do Bem-Estar Público e Privado: Excelência? O Secretário do Bem-Estar Público e Privado pousou o copo de leite na mesa e fez girar a poltrona de couro. Suspirou. Era um homem descorado e flácido, de calva úmida e mãos acetinadas. Lançou um olhar comprido para os próprios pés, o direito calçado, o esquerdo metido num grosso chinelo de lã com debrum de pelúcia. Pode entrar -- disse ao Chefe das Relações Públicas que já espiava pela fresta da porta. Entrelaçou as mãos na altura do peito: -- Então? Correu bem o coquetel? Tinha voz branda, com um leve acento lamurioso. O jovem empertigou-se. Um ligeiro rubor cobriu-lhe o rosto bem escanhoado: -- Tudo perfeito, Excelência. Perfeito. Foi no Salão Azul, que é menor, Vossa Excelência sabe. Poucas pessoas, só a cúpula, ficou uma reunião assim aconchegante, íntima mas muito agradável. Fiz as apresentações, bebericou-se e -- consultou o relógio -- veja, Excelência, nem seis horas e já se dispersaram. O Assessor da Presidência da RATESP está instalado na ala norte, vizinho do Diretor das Classes Conservadoras Desarmadas e Armadas que está ocupando a suíte cinzenta. Já a Delegação Americana achei conveniente instalar na ala sul. Por sinal, deixei-os há pouco na piscina, o crepúsculo está deslumbrante, Excelência, deslumbrante! -- O senhor disse que o Diretor das Classes Conservadoras Desarmadas e Armadas está ocupando a suíte cinzenta. Por que cinzenta? O jovem pediu licença para se sentar. Puxou a cadeira mas conservou uma prudente distância da almofada onde o secretário pousara o pé metido no chinelo. Pigarreou: -- Bueno, escolhi as cores pensando nas pessoas -- começou com certa hesitação. Animou-se: -- A suíte do Delegado Americano, por exemplo, é rosa-forte, eles gostam das cores vivas. Para o de Vossa Excelência escolhi este azul-pastel, mais de uma vez vi Vossa Excelência de gravata azul... já para a suíte norte me ocorreu o cinzento, Vossa Excelência não gosta da cor cinzenta? O Secretário moveu com dificuldade o pé estendido na almofada. Levantou a mão. Ficou olhando a mão: -- É a cor deles. Rattus Alexandrius. -- Dos conservadores? -- Não, dos ratos. Mas enfim, não tem importância prossiga, por favor. O senhor dizia que os americanos estão na piscina, por que os? Veio mais de um? -- Pois com o Delegado de Massachusetts veio também a secretária, uma jovem. E veio ainda um ruivo de terno xadrez, tipo um pouco de boxer, meio calado, está sempre ao lado dos dois. Suponho que é um guarda-costas mas é simples suposição, Excelência, o cavalheiro em questão é uma incógnita. Só falam inglês. Aproveitei para conversar com eles, completei há pouco meu curso de inglês para executivos, se os debates forem em inglês, conforme já foi aventado, darei minha colaboração. Já o castelhano eu domino perfeitamente, enfim, Vossa Excelência sabe, Santiago, Buenos Aires... -- Fui contra a indicação. Desse americano -- atalhou o Secretário num tom suave mas infeliz. -- Os ratos são nossos, as soluções têm que ser nossas. Por que botar todo mundo a par das nossas mazelas? Das nossas deficiências? Devíamos só mostrar o lado positivo não apenas da sociedade mas da nossa família. De nós mesmos -- acrescentou apontando para o pé em cima da almofada: -- Por que não apareci ainda, por quê? Porque simplesmente não quero que me vejam indisposto , de pé inchado, mancando. Amanhã calço o sapato para a instalação, de bom grado faço esse sacrifício. O senhor que é candidato em potencial desde cedo precisa ir aprendendo essas coisas, moço. Mostrar só o lado positivo, só o que pode nos enaltecer. Esconder nossos chinelos. -- Mas Vossa Excelência me permite, esse americano é um técnico em ratos, nos Estados Unidos também tem muito, ele poderá nos trazer sugestões preciosas. Aliás, estive sabendo que é um expert em jornalismo eletrônico. -- Pior ainda. Vai sair buzinando por aí -- suspirou o Secretário tentando mudar a posição do pé. -- Enfim, não tem importância. Prossiga, prossiga, queria que me informasse sobre a repercussão. Na imprensa, é óbvio. O Chefe das Relações Públicas pigarreou discretamente, murmurou um "bueno" e apalpou os bolsos. Pediu licença para fumar. -- Bueno, é do conhecimento de Vossa Excelência que causou espécie o fato de termos escolhido este local: por que instalar o VII Seminário dos Roedores numa casa de campo, completamente isolada? Essa a primeira indagação geral. A segunda, é que gastamos demais para tornar esta mansão habitável, um desperdício quando podíamos dispor de outros locais já prontos. O noticiarista de um vespertino, marquei bem a cara dele, Excelência, esse chegou a ser insolente quando rosnou que tem tanto edifício em disponibilidade, que as implosões até já se multiplicam para corrigir o excesso. E nós gastando milhões para restaurar esta ruína... O secretário passou o lenço na calva e procurou se sentar mais confortavelmente. Começou um gesto que não se completou. Gastando milhões? Bilhões estão consumindo esses demônios, por acaso ele ignora as estatísticas? Estou apostando como é da esquerda, estou apostando. Ou então amigo dos ratos. Enfim, não tem importância, prossiga, por favor. -- Mas são essas as críticas mais severas, Excelência. Bisonhices. Ah, e aquela eterna tecla que não cansam de bater, que já estamos no VII Seminário e até agora, nada de objetivo, que a população ratal já se multiplicou sete mil vezes depois do primeiro Seminário, que temos agora cem ratos para cada habitante, que nas favelas não são as Marias mas as ratazanas que andam de lata d'água na cabeça --acrescentou contendo uma risadinha. -- O de sempre... Não se conformam é de nos reunirmos em local retirado, que devíamos estar lá no centro, dentro do problema. Nosso Assessor de Imprensa já esclareceu o óbvio, que este Seminário é o QuartelGeneral de uma verdadeira batalha! E que traçar as coordenadas de uma ação conjunta deste porte exige meditação. Lucidez. Onde poderiam os senhores trabalhar senão aqui, respirando um ar que só o campo pode oferecer? Nesta bendita solidão, em contato íntimo com a natureza... O Delegado de Massachusetts achou genial essa idéia do encontro em pleno campo. Um moço muito gentil, tão simples. Achou excelente nossa piscina térmica, Vossa Excelência sabia? ele foi campeão de nado de peito, está lá se divertindo, adorou nossa água de coco! Contoume uma coisa curiosa, que os ratos do Pólo Norte têm pêlos deste tamanho para agüentar o frio de trinta abaixo de zero, se guarnecem de peliças, os marotos. Podiam viver em Marte, uma saúde de ferro! O Secretário parecia pensar em outra coisa quando murmurou evasivamente um "enfim". Levantou o dedo pedindo silêncio. Olhou com desconfiança para o tapete. Para o teto: -- Que barulho é esse? -- Barulho? -- Um barulho esquisito, não está ouvindo? O Chefe das Relações Públicas voltou a cabeça, concentrado. -- Não estou ouvindo nada... --Já está diminuindo -- disse o Secretário abaixando o dedo almofadado. -- Agora parou. Mas o senhor não ouviu? Um barulho tão esquisito, como se viesse do fundo da terra, subiu depois para o teto... Não ouviu mesmo? O jovem arregalou os olhos de um azul inocente. -- Absolutamente nada, Excelência. Mas foi aqui no quarto? -- Ou lá fora, não sei. como se alguém -- Tirou o lenço, limpou a boca e suspirou profundamente. -- Não me espantaria nada se cismassem de instalar aqui algum gravador. O senhor se lembra? esse Delegado americano... -- Mas Excelência, ele é convidado do Diretor das Classes Desarmadas e Armadas! -- Não confio em ninguém. Em quase ninguém -- corrigiu o Secretário num sussurro. Fixou o olhar suspeitoso na mesa. Nos baldaquins azuis da cama. -- Onde essa gente está, tem sempre essa praga de gravador. Enfim, não tem importância, prossiga, por favor. E o Assessor de Imprensa? -- Bueno, ontem à noite ele sofreu um pequeno acidente, Vossa Excelência sabe como anda o nosso trânsito! Teve que engessar um braço, só pode chegar amanhã, já providenciei o gatinho -- acrescentou o jovem com energia. -- Na retaguarda fica toda uma equipe armada para a cobertura. Nosso Assessor vai pingando o noticiário por telefone, criando suspense até o encerramento, quando virão todos em jato especial, fotógrafos, canais de televisão, correspondentes estrangeiros, uma apoteose. Finis coronat opus, o fim coroa a obra! -- Só sei que ele já deveria estar aqui, começa mal -- lamentou o Secretário inclinando-se para o copo de leite. Tomou um gole e teve uma expressão desaprovadora: -- Enfim, o que me preocupa muito é ficarmos incomunicáveis. Não sei mesmo se essa idéia do Assessor da Presidência da RATESP vai funcionar, isso de deixarmos os jornalistas longe. Tenho minhas dúvidas. -- Vossa Excelência vai me perdoar, mas penso que a cúpula se valoriza ficando assim inacessível. Aliás, é sabido que uma certa distância, um certo mistério excita mais do que o contato diário com os meios de comunicação. Nossa única ponte vai soltando notícias discretas, influindo sem alarde até o encerramento, quando abriremos as baterias! Não é uma boa tática? Com dedos tamborilantes o Secretário percorreu vagamente os botões do colete. Entrelaçou as mãos e ficou olhando as unhas polidas. -- Boa tática, meu jovem, é influenciar no começo e no fim todos os meios de comunicação do país. Esse é o objetivo. Que já está prejudicado com esse assessor de perna quebrada. -- Braço, Excelência. O antebraço, mais precisamente. O Secretário moveu penosamente o corpo, para a direita e para a esquerda. Enxugou a testa. Os dedos. Ficou olhando para o pé em cima da almofada. -- Hoje mesmo o senhor poderia lhe telefonar para dizer que estrategicamente os ratos já se encontram sob controle. Sem detalhes, enfatize apenas isto, que os ratos já estão sob inteiro controle. A ligação é demorada? -- Bueno, cerca de meia hora. Peço já, Excelência? O Secretário foi levantando o dedo. Abriu a boca. Girou a cadeira em direção da janela. Com o mesmo gesto lento, foi se voltando para a lareira. -- Está ouvindo? Está ouvindo? O barulho, ficou mais forte agora! O jovem levou a mão à concha da orelha. A testa ruborizou- se no esforço da concentração. Levantou- se e andou na ponta dos pés: -- Vem daqui, Excelência? Não consigo perceber nada! -- Aumenta e diminui, olha aí, em ondas, como um mar... Agora parece um vulcão respirando, aqui perto e ao mesmo tempo tão longe! está fugindo, olha aí... -- Tombou para o espaldar da poltrona, exausto. Enxugou o queixo úmido. -- Quer dizer que o senhor não ouviu nada? O Chefe das Relações Públicas arqueou as sobrancelhas perplexas. Espiou dentro da lareira. Atrás da poltrona. Levantou a cortina da janela e olhou para o jardim: -- Tem dois empregados lá no gramado, motoristas, creio... Ei! vocês aí!... -- chamou, estendendo o braço para fora. Fechou a janela. -- Sumiram. Pareciam agitados, talvez discutissem mas suponho que nada tenham a ver com o barulho. Não ouvi coisa alguma, Excelência, escuto tão mal deste ouvido! -- Pois eu escuto demais, devo ter um ouvido suplementar. Tão fino. Quando fiz a revolução, em 32 e depois em 64, era sempre o primeiro do grupo a pressentir qualquer anormalidade. O primeiro! Lembro que uma noite avisei meus companheiros, o inimigo está aqui com a gente e eles riram, bobagem, você bebeu demais, tínhamos tomado no jantar um vinho delicioso. Pois quando saímos para dormir, estávamos cercados. O Chefe das Relações Públicas teve um olhar de suspeita para a estatueta de bronze em cima da lareira, uma opulenta mulher de olhos vendados, empunhando a espada e a balança. Estendeu a mão até a balança. Passou o dedo num dos pratos empoeirados. Olhou o dedo e limpou-o com um gesto furtivo no espaldar da poltrona. -- Vossa Excelência quer que eu vá fazer uma sondagem? O Secretário estendeu doloridamente a perna. Suspirou: -- Enfim, não tem importância. Nestas minhas crises sou capaz de ouvir alguém riscando um fósforo na sala. Entre consternado e tímido, o jovem apontou para o pé enfermo: -- É algo... grave? -- A gota. E dói, Excelência? -- Muito. -- Pode ser a gota d'água! Pode ser a gota d'água! -- cantarolou ele ampliando o sorriso que logo esmoreceu no silêncio taciturno que se seguiu à sua intervenção musical. Pigarreou. Ajustou o nó da gravata: -- Bueno, é uma canção que o povo canta por aí. -- O povo, o povo disse o Secretário do Bem Estar Público entrelaçando as mãos. A voz ficou um brando queixume: -- Só se fala em povo e no entanto o povo não passa de uma abstração. -- Abstração, Excelência? -- Que se transforma em realidade quando os ratos começam a expulsar os favelados de suas casas. Ou roer os pés das crianças da periferia, então sim, o povo passa a existir nas manchetes da imprensa de esquerda. Da imprensa marrom, enfim, pura demagogia. Aliada às bombas dos subversivos, não esquecer esses bastardos que parecem ratos -- suspirou o Secretário percorrendo languidamente os botões do colete. Desabotoou o último: -- No Egito Antigo resolveram esse problema aumentando o número de gatos. Não sei por que aqui não se exige mais da iniciativa privada, se cada família tivesse em casa um ou dois gatos esfaimados... Mas Excelência, não sobrou nenhum gato na cidade, já faz tempo que a população comeu tudo. Ouvi dizer que dava um ótimo cozido! Enfim -- sussurrou o Secretário esboçando um gesto que não completou: -- Está escurecendo, não? O jovem levantou-se para acender as luzes. Seus olhos sorriam intensamente: -- E a noite, todos os gatos são pardos! -- Depois, sério: -- Quase sete horas, Excelência. O jantar será servido às oito, a mesa decorada só com orquídeas e frutas, a mais fina cor local, encomendei do norte abacaxis belíssimos! E as lagostas, então? O Cozinheiro-Chefe ficou entusiasmado, nunca viu lagostas tão grandes. Bueno, eu tinha pensado num vinho nacional que anda de primeiríssima qualidade, diga-se de passagem, mas me veio um certo receio: e se der alguma dor de cabeça? Por um desses azares, Vossa Excelência já imaginou? Então achei prudente encomendar vinho chileno. -- De que safra? -- De Pinochet, naturalmente. O Secretário do Bem-Estar Público e Privado baixou o olhar ressentido para o próprio pé. Para mim um caldo sem sal, uma canjinha rala. Mais tarde talvez um... -- Emudeceu. A cara pasmada foi-se voltando para o jovem: está ouvindo agora? está mais forte, ouviu isso? Fortíssimo! O Chefe das Relações Públicas levantou-se de um salto. Apertou entre as mãos a cara ruborizada: -- Mas claro, Excelência, está repercutindo aqui no assoalho, o assoalho está tremendo! Mas o que é isso?! -- Eu não disse, eu não disse? -- perguntou o Secretário. Parecia satisfeito: -- Nunca me enganei, nunca! Já faz horas que estou ouvindo coisas mas não queria dizer nada, podiam pensar que fosse delírio, olha aí agora! Parece até que estamos em zona vulcânica, como se um vulcão fosse irromper aqui embaixo... -- Vulcão? -- Ou uma bomba, tem bombas que antes de explodir dão avisos! -- Meu Deus -- exclamou o jovem. Correu para a porta. -- Vou verificar imediatamente, Excelência, não se preocupe, não há de ser nada, com licença, volto logo. Meu Deus, zona vulcânica?!... Quando fechou a porta atrás de si, abriu-se a porta em frente e pela abertura introduziu-se uma carinha louramente risonha. Os cabelos estavam presos no alto por um laçarote de bolinhas amarelas. -- What is that? -- Perhaps nothing... perhaps something... -- respondeu ele abrindo o sorriso automático. Acenou-lhe com um frêmito de dedos imitando asas. -- Supper at eight, Miss Gloria! Apressou o passo quando viu o Diretor das Classes Conservadoras Desarmadas e Armadas que vinha com seu chambre de veludo verde. Encolheu-se para lhe dar passagem, fez uma mesura, "Excelência"... e quis prosseguir mas teve a passagem barrada pela montanha veludosa: -- Que barulho é esse? -- Bueno, também não sei dizer, Excelência, é o que vou verificar, volto num instante, não é mesmo estranho? Tão forte! O Diretor das Classes Conservadoras Desarmadas e Armadas farejou o ar: -- E esse cheiro? O barulho diminuiu mas não está sentindo um cheiro? -- Franziu a cara: -- Uma maçada! Cheiros, barulhos... E o telefone que não funciona, por que o telefone não está funcionando? Preciso me comunicar com a Presidência e não consigo, o telefone está mudo! -- Mudo! Mas fiz dezenas de ligações hoje cedo... Vossa Excelência já experimentou o do Salão Azul? -- Venho de lá, também está mudo, uma maçada! Procure meu motorista, veja se o telefone do meu carro está funcionando, tenho que fazer essa ligação urgente. -- Fique tranqüilo, Excelência. Vou tomar providências e volto em seguida, com licença, sim? -- fez o jovem, esgueirando-se numa mesura rápida. Enveredou pela escada. Parou no primeiro lance: -- Mas o que significa isso? Pode me dizer o que significa isso? Esbaforido, sem o gorro e com o avental rasgado, o Cozinheiro-Chefe veio correndo pelo saguão. O jovem fez um gesto enérgico e precipitou-se ao seu encontro: -- Como é que o senhor entra aqui neste estado? O homem limpou no peito as mãos sujas de suco de tomate: -- Aconteceu uma coisa horrível, doutor! Uma coisa horrível! -- Não grita, o senhor está gritando, calma -- e o jovem tomou o Cozinheiro-Chefe pelo braço, arrastou-o a um canto: -- Controle-se, mas o que foi? Sem gritar, não quero histerismo, vamos, calma, o que foi? -- As lagostas, as galinhas, as batatas, eles comeram tudo! Tudo! Não sobrou nem um grão de arroz na panela, comeram tudo e o que não tiveram tempo de comer, levaram embora! -- Mas quem comeu tudo? Quem? -- Os ratos, doutor, os ratos! -- Ratos?... Que ratos? O Cozinheiro-Chefe tirou o avental, embolou-o nas mãos: -- Vou-me embora, não fico aqui nem mais um minuto, acho que a gente está no mundo deles, pela alma da minha mãe, quase morri de susto quando entrou aquela nuvem pela porta, pela janela, pelo teto, só faltou me levar e mais a Euclídea! Até os panos de prato eles comeram, só respeitaram a geladeira que estava fechada, mas a cozinha ficou limpa, limpa! -- Ainda estão la? -- Não, assim como entrou, saiu tudo guinchando feito doido, eu já estava ouvindo fazia um tempinho aquele barulho, me representou um veio d'água correndo forte debaixo do chão, depois martelou, assobiou, a Euclídea que estava batendo maionese pensou que fosse um fantasma quando começou aquela tremedeira e na mesma hora entrou aquilo tudo pela janela, pela porta, não teve lugar que a gente olhasse que não desse com o monte deles, guinchando! E cada ratão, viu? Deste tamanho! A Euclídea pulou em cima do fogão, eu pulei em cima da mesa, ainda quis arrancar uma galinha que um deles ia levando assim no meu nariz, taquei o vidro de suco de tomate com toda força e ele botou a galinha de lado, ficou de pé na pata traseira e me enfrentou feito um homem, pela alma da minha mãe, doutor, me representou um homem vestido de rato! -- Meu Deus, que loucura... E o jantar?! -- Jantar? O senhor disse jantar? Não ficou nem uma cebola! Uma trempe deles virou o caldeirão de lagostas e a lagostada se espalhou no chão, foi aquela festa, não sei como não se queimaram na água fervendo, cruz-credo, vou-me embora e é já! -- Espera, calma! E os empregados? Ficaram sabendo? Empregados, doutor? Empregados? Todo mundo já foi embora, ninguém é louco e se eu fosse vocês também me mandava, viu? Não fico aqui nem que me matem! -- Um momento, espera! O importante é não perder a cabeça, está me compreendendo? O senhor volta lá, abre as latas que as latas ainda ficaram, não ficaram? A geladeira não estava fechada? Então, deve ter alguma coisa, prepare um jantar com o que puder, evidente! -- Não, não! Não fico nem que me matem! -- Espera, eu estou falando: o senhor vai voltar e cumprir sua obrigação, o importante é que os convidados não fiquem sabendo de nada, disso me incumbo eu, está me compreendendo? Vou já até a cidade, trago um estoque de alimentos e uma escolta de homens armados até os dentes, quero ver se vai entrar um mísero camundongo nesta casa, quero ver! -- Mas o senhor vai como? Só se for a pé, doutor. O Chefe das Relações Públicas empertigou-se. A cara se tingiu de cólera. Apertou os olhinhos e fechou os punhos para soquear a parede mas interrompeu o gesto quando ouviu vozes no andar superior. Falou quase entredentes: Covardes, miseráveis! Quer dizer que os empregados levaram todos os carros? Foi isso, levaram os carros? -- Levaram nada, fugiram a pé mesmo, nenhum carro está funcionando, o José experimentou um por um, viu? Os fios foram comidos, comeram também os fios. Vocês fiquem aí que eu vou pegar a estrada e é ja! O jovem encostou-se na parede, a cara agora estava lívida. "Quer dizer que o telefone..." -- murmurou e cravou o olhar estatelado no avental que o Cozinheiro-Chefe largou no chão. As vozes no andar superior começaram a se cruzar. Uma porta bateu com força. Encolheu-se mais no canto quando ouviu seu nome: era chamado aos gritos. Com olhar silencioso foi acompanhando um chinelo de debrum de pelúcia que passou a alguns passos do avental embolado no tapete: o chinelo deslizava, a sola voltada para cima, rápido como se tivesse rodinhas ou fosse puxado por algum fio invisível. Foi a ultima coisa que viu porque nesse instante a casa foi sacudida nos seus alicerces. As luzes se apagaram. Então deu-se a invasão, jorrando espessa como se um saco de pedras borrachosas tivesse sido despejado em cima do telhado e agora saltasse por todos os lados na treva dura de músculos, guinchos e centelhas de olhos luzindo negríssimos. Quando a primeira dentada lhe arrancou um pedaço da calça, ele correu sobre o chão enovelado, entrou na cozinha com os ratos despencando na sua cabeça e abriu a geladeira. Arrancou as prateleiras que foi encontrando na escuridão, jogou as latarias para o ar, esgrimou com uma garrafa contra dois olhinhos que já corriam no vasilhame de verduras, expulsou-os e num salto, pulou lá dentro. Fechou a porta mas deixou o dedo na fresta, que a porta não batesse. Quando sentiu a primeira agulhada na ponta do dedo que ficou de fora, substituiu o dedo pela gravata. No rigoroso inquérito que se processou para se apurar os acontecimentos daquela noite, o Chefe das Relações Públicas jamais pôde precisar quanto tempo teria ficado dentro da geladeira, enrodilhado como um feto, a água gelada pingando na cabeça, as mãos endurecidas de câimbra, a boca aberta no mínimo vão da porta que de vez em quando algum focinho tentava forcejar. Lembrava-se, isso sim, de um súbito silêncio que se fez no casarão: nenhum som, nenhum movimento. Nada. Abriu a porta da geladeira, espiou. Um tênue raio de luar era a única presença na cozinha esvaziada. Foi andando pela casa completamente oca, nem móveis, nem cortinas, nem tapetes. Só as paredes. E a escuridão. Começou então um murmurejo secreto, rascante, que parecia vir da Sala de Debates e teve a intuição de que estavam todos reunidos ali, de portas fechadas. Não se lembrava sequer como conseguiu chegar até o campo, não poderia jamais reconstituir a corrida, correu quilômetros. Quando olhou para trás, o casarão estava todo iluminado.
6) Presença Para Leo Gilson Ribeiro Quando entrou pela alameda de pedregulhos e parou o carro defronte do hotel, o casal de velhos que passeava pelo gramado afastou-se rapidamente e ficou espiando de longe. O velho porteiro que o atendeu no balcão de recepção também teve um movimento de recuo. Ele pousou a mala no chão e pediu um apartamento. Por quanto tempo? Não estava bem certo, talvez uns vinte dias. Ou mais. O velho examinou-o da cabeça aos pés. Forçou o sorriso paternal, disfarçando o espanto com uma cordialidade exagerada, mas o jovem queria um apartamento? Ali, naquele hotel?! Mas era um hotel só de velhos, quase todos moradores fixos antiquíssimos, que graça um hotel desses podia ter para um jovem? Depois das nove da noite, silêncio absoluto porque todos dormiam cedíssimo. E a comida tão insípida, sem gordura, sem sal, com pratos sem nenhuma imaginação dentro de dietas rigorosas - pois não eram velhos? E velhos têm problemas de saúde, tantas doenças reais e imaginárias, artritismo, bronquite crônica, asma, pressão alta, flebite, efisema pulmonar... Sem falar nas doenças mais dramáticas, ocioso enumerar tudo. A própria velhice já era uma doença. Um jovem assim saudável passar suas férias num hotel tão frio quanto um hospital? Nos hospitais ao menos havia uma esperança, os pacientes saírem curados, mas a doença da velhice era sem cura e com a agravante de piorar com o tempo. Injusto oferecer-lhe esse quadro de decadência que apesar de mascarada (os hóspedes pertenciam à burguesia) era por demais deprimente. O prazer com que a juventude se vê refletida num espelho! mas a velhice ali concentrada chegava a ser tão cruel que os espelhos acabaram por ser afastados. Na última reforma, foram removidos os que apresentavam sinais mais acentuados de decomposição nas manchas porosas e bordas amarelecidas, contraídas sob o cristal como um fino papel queimando brandamente. Com esses, foram levados também os espelhos maiores da sala de refeições e que ainda estavam em bom estado. A substituição nunca foi providenciada e nem se voltou a falar no assunto, mas seria preciso? Era evidente o alivio dos hóspedes livres daquelas testemunhas geladas, captando-os em todos os ângulos: mais do que suficientes os espelhos menores dos banheiros, apenas o essencial para uma barba, um penteado. Um irrisório carmim. E a quantidade de espelhos na inauguração do hotel! (Estaria o jovem com disposição para ouvir mais?) Bem, tinha sido há cinqüenta anos. Nessa época, não passava de um rapazola que ajudava a carregar a bagagem. As famílias chegavam com os carros pejados de malas, caixas, pajens, crianças, bicicletas. Nas longas temporadas de verão, a piscina (que ainda se conservava apesar dos rachões) ficava fervilhante. As danças até de madrugada. O jogo. E as competições na quadra de tênis, as cavalgadas pelo campo, o hotel dispunha de ótimos cavalos. Charretes. Mas aos poucos os hóspedes mais velhos foram dominando à medida que os mais jovem começaram a rarear, não sabia explicar o motivo, o fato é que a transformação - embora lenta - fora definitiva. Um museu-mausoléu. Que jovem podia se sentir bem num hotel assim? Se ele prosseguisse pela mesma estrada por onde viera, alguns quilômetros adiante encontraria um hotel excelente, tinha várias setas indicando o caminho, ficava num bosque bastante aprazível. E pelo que ouvira contar, o ambiente era alegre. Jovial. Ele tirou os documentos do bolso da jaqueta de couro e colocou-os no mármore do balcão: queria um apartamento nesse hotel e só não insistiria se o regula-mento tivesse uma cláusula que proibisse um jovem de vinte e cinco anos de hospedar-se ali. O velho porteiro passou as pontas dos dedos vacilantes na gola puída do uniforme pardo. Já não sorria quando examinou os documentos do recém-chegado. Devolveu-os. Os olhos de um azul-pálido estavam frios. Talvez não tivesse sido suficientemente claro, talvez, mas o fato é que se ele não se importava com a presença dos velhos, era bem provável que os velhos se importassem (e quanto) com a sua presença. Tão fácil de entender, como um jovem assim sagaz não entendia? Os velhos formavam uma comunidade com seus usos, seus costumes. Uniram-se e a antiga fragilidade, tão agredida além daqueles portões, foi se transformando numa força. Num sistema. Eram seres obstinados. Na secreta luta para garantir a sobrevivência, perderam a memória do mundo que os rejeitara e se não eram felizes, pelo menos conseguiram isso, a segurança. O direito de morrer em paz. No segundo andar do hotel, por exemplo, vivia uma atriz de revista que fora muito famosa. Muito amada. Reduzida agora a um simples destroço, fechara-se na sua concha, apavorada com a curiosidade do público, com o realismo da imprensa ávida por fotografá-la na sua solidão, mas o que vocês querem de mim? ela gritou ao repórter que conseguiu apanhá-la numa cilada e publicar a foto com a manchete que a fez chorar dois dias. Quando o elevador quebrou, só ela, que ainda andava com certa agilidade, continuou no segundo andar, os outros foram transferidos para o primeiro por causa da escada. Nesse andar morava um antigo ídolo de atletismo que chegara a duas olimpíadas. Vivia num cadeira de rodas. E como não lia jornais nem ligava a televisão (quem quisesse, tinha seu televisor particular) conseguira esquecer que a corrida com a tocha acesa prosseguia gloriosa sem ele. Esqueceu, assim como foi esquecido. As medalhas e troféus que nos primeiros tempos de invalidez não podia nem ver estavam agora expostos na estante do seu quarto; às vezes os olhava mas sem a antiga emoção, integrados na sua senilidade como o saco de água quente ou a cadeira. O vizinho era um comerciante esclerosado que em poucos anos regredira à juventude, depois à adolescência e agora estava ficando criança de novo. Mas uma criança que era protegida até pelo mais neurastênico dos hóspedes, um homossexual que morava com um gato velhíssimo. Tivera na mocidade uma experiência trágica: quando o amigo tentou matá-lo, todos ficaram sabendo o que desesperadamente procurara esconder, ambos tinham família e eram conhecidíssimos. Hoje, é claro, ninguém se impor-tava com isso mas naquele tempo foi só rejeição. Sofrimento. Reencontrara um certo equilíbrio naquele hotel, vendo as gêmeas da paciência abrir o leque do baralho no taciturno exercício do silêncio. Ouvindo a gorda solteirona do bandolim tocar pontualmente aos sábados. Re-lendo na pequena biblioteca (escassos volumes já gastos) Os Três Mosqueteiros. Ou O Conde de Monte Cristo. Uma tênue cinza baixara sobre suas cabeças. Sobre seus guardados. Agora chegara um jovem para ficar. Para lembrar (e com que veemência) o que todos já tinham perdido, beleza, amor. Um jovem com dentes, músculos e sexo - perfeito como um deus, não, não precisava rir, antiga medida de todas as coisas. Essa medida eles esqueceram. Com sua simples presença, iria revolver tudo: a revolução da memória. E passara o tempo das revoluções, ninguém queria renovar mas conservar. Assegurar essa sobrevida, o que já significava um verdadeiro heroísmo, os mais fracos tinham morrido todos. Restaram esses, empenhados numa luta terrível porque dissimulada, eram dissimulados - será que estava sendo claro? Não eram bons. Ele acendeu o cigarro e ofereceu outro ao porteiro que agradeceu, não podia fumar. Olhou o lustre com longos pingentes de cristal em formato de lágrimas pesadas de poeira. Sorriu enquanto apontava na direção do pequeno elevador dourado e redondo, "mas é lindo, parece uma gaiola!" Abriu o zíper da jaqueta de couro, fazia calor. O porteiro inclinou-se sobre o grosso caderno de registro, molhou a caneta no tinteiro mas ficou com a mão parada no ar. Arqueou as sobrancelhas fatigadas: será que o amigo não percebia que ia ser um importuno? Um intruso? Representava o direito do avesso. Ou o avesso desse direito? O problema é que ele, um simples porteiro, não podia sequer defendê-lo se a comunidade decidisse sutilmente pela sua exclusão. Por mais tolos que esses velhos pudessem parecer, guardavam o segredo de uma sabedoria que se afiava na pedra da morte. Era preciso lembrar que usariam de todos os recursos para que as regras do jogo fossem cumpridas: até onde poderia chegar o ódio por aquele que viera humilhá-los, irônico, provocativo, tumultuando a partida? O jovem se animara com a idéia da piscina. Mas se nessa mesma piscina coalhada de folhas aparecesse uma manhã seu belo corpo boiando, tão desligado quanto as folhas? Eles fechariam depressa a porta devido à correnteza de vento, os velhos não gostam de vento. E voltariam satisfeitos aos seus assuntos. Ao seu joguinho dos domingos, aquele loto tão alegre, os cartões sendo cobertos com grãos de milho enquanto o anunciador (nenhum estranho por perto?) vai cantando os números com as brincadeiras de costume, sempre as mesmas porque eles se divertem com as repetições, como as crianças: número vinte e dois, dois patinhos na lagoa? Quarenta e quatro, bico de pato! Número três, gato escocês! Tão brincalhões esses velhinhos... O jovem riu, tirou os óculos escuros e sua fisionomia se acendeu, tinha palhetas douradas no fundo das pupilas. Por acaso o porteiro lia romance policial? Os romances da velhinha inglesa, não? Ah, preferia palavras cruzadas. Apanhou a mala. Se possível, um apartamento no segundo andar. O jantar era às sete, não? Ótimo, tinha tempo para dar umas boas braçadas, a tarde estava uma delícia. Nenhuma importância se a piscina estava abandonada, a água não era corrente? Pediria apenas que lhe levassem um pouco de gelo, gostava de bebericar na piscina. Não, não precisava de uísque, trouxera sua marca. Uma velhinha de gargantilha lilás cruzou o saguão na sua cadeira de rodas empurrada por uma calma enfer-meira de touca: ia gesticulando, brava, deixando escapar resmungos por entre as gengivas duras enquanto a outra seguia atrás, voltando-se para os lados e sorrindo, poor, poor darling! Hoje está meio irritada mas também, com oitenta e nove anos!... Poor, poor darling! O recém-chegado fez uma profunda reverência na direção de ambas e voltou-se para o porteiro que mostrava num sorriso constrangido a dentadura opaca. Quer dizer que insistia mesmo em ficar? Bem, tinha um apartamento bastante ensolarado no segundo andar, dando para a piscina. "Espero que o senhor fique satisfeito", acrescentou enquanto fazia sinal para um velho de avental até os joelhos, por favor, podia conduzir o novo hóspede? Em largas passadas o jovem galgou os degraus de veludo vermelho e foi esperar o empregado lá em cima, segurando a mala que em vão o velho tentou levar. Quando entrou no apartamento seguido pelo empregado com seu molho de chaves, aspirou com uma expressão de prazer o esmaecido perfume que parecia vir dos móveis antiquados, lavanda? E perguntou enquanto abria a mala se por ali não havia fantasmas, sempre sonhara com um hotel de fantasmas. Os fantasmas somos nós, respondeu-lhe o velho e ele riu alto. Tirou a garrafa de uísque. Ligou o toca-discos. Quando subiu no trampolim, notou um vulto que espiava através da cortina rendada de uma das janelas. Baixou o olhar divertido para a água de um verde profundo, onde as folhas boiavam num ondulado calmo. Abriu os braços. Saltou. Enquanto nadava de costas, entreviu uma cabeça branca na fresta de uma janela do primeiro andar. Logo apareceu outra cabeça (de um homem?) que ficou um pouco atrás, na sombra. Chegou-lhe vagamente o fiapo triturado de uma discussão antes que a janela se fechasse com força. Ele deitou-se no banco de pedra e ali ficou de braços pendentes, a tanga vermelha escorrendo água, os olhos cerrados. Passou cariciosamente as pontas dos dedos no peito onde os pêlos dourados de sol já começavam a secar. Riu silenciosamente enquanto apanhava o copo que deixara no chão: seus movimentos se fragmentavam em câmara lenta, calculados. No jantar, antes mesmo de provar a comida, despejou o sal, o molho inglês, a pimenta e bateu palmas vigorosas para os três velhos músicos - um pianista, um violinista e o careca do rabecão - que tocaram antigas peças que alguns hóspedes (poucos desceram para o jantar) ouviram imperturbáveis. Achou um certo amargor na goiabada com queijo. Ao se deitar, depois de ter tomado o chá-de-estrada servido às vinte e uma hora, ele já não se sentia bem. 1977 Extraído de "Mistérios" de Lígia Fagundes Telles, Nova Fronteira, 4ª Edição, 1981.
7) A mão no ombro
O homem estranhou aquele céu verde com a lua de cera coroada por um fino galho de árvore, as folhas se desenhando nas minúcias sobre o fundo opaco. Era uma lua ou um sol apagado? Difícil saber se estava anoitecendo ou se já era manhã no jardim que tinha a luminosidade fosca de uma antiga moeda de cobre. Estranhou o úmido perfume de ervas. E o silêncio cristalizado como num quadro, com um homem (ele próprio) fazendo parte do cenário. Foi andando pela alameda atapetada de folhas cor de brasa mas não era outono. Nem primavera porque faltava às flores o hálito doce avisando as borboletas, não viu borboletas. Nem pássaros. Abriu a mão no tronco da figueira viva mas fria: um tronco sem formigas e sem resina, não sabia por que motivo esperava encontrar a resina vidrada nas gretas, não era verão. Nem inverno, embora a frialdade limosa das pedras o fizesse pensar no sobretudo que deixou no cabide do escritório. Um jardim fora do tempo mas dentro do meu tempo, pensou. O húmus que subia do chão o impregnava do mesmo torpor da paisagem. Sentiu-se oco, a sensação de leveza se misturando ao sentimento inquietante de um ser sem raízes: se abrisse as veias não sairia nenhuma gota de sangue, não sairia nada. Apanhou uma folha. Mas que jardim era esse? Nunca estivera ali nem sabia como o encontrara. Mas sabia - e com que força - que a rotina fora quebrada porque alguma coisa ia acontecer, o quê?! Sentiu o coração disparar. Habituara-se tanto ao quotidiano sem imprevistos, sem mistérios. E agora, a loucura desse jardim atravessado em seu caminho. E com estátuas, aquilo não era uma estátua? Aproximou-se da mocinha de mármore arregaçando graciosamente o vestido para não molhar nem a saia nem os pés descalços. Uma mocinha medrosamente fútil no centro do tanque seco, pisando com cuidado, escolhendo as pedras amontoadas em redor. Mas os pés delicados tinham os vãos dos dedos corroídos por uma época em que a água chegava até eles. Uma estria negra lhe descia do alto da cabeça, deslizava pela face e se perdia ondulante no rego dos seios meio descobertos pelo corpete desatado. Notou que a estria marcara mais profundamente a face, devorando-lhe a asa esquerda do nariz, mas por que a chuva se concentrara só naquele percurso numa obstinação de goteira? Ficou olhando a cabeça encaracolada, os anéis se despencando na nuca que pedia carícia. Me dá sua mão que eu ajudo, ele disse e recuou: um inseto penugento, num enrodilhamento de aranha, foi saindo de dentro da pequenina orelha. Deixou cair a folha seca, enfurnou as mãos nos bolsos e seguiu pisando com a mesma prudência da estátua. Contornou o tufo de begônias, vacilou entre os dois ciprestes (mas o que significava essa estátua?) e enveredou por uma alameda que lhe pareceu menos sombria. Um jardim inocente. E inquietante como o jogo de quebra-cabeça que o pai gostava de jogar com ele: no caprichoso desenho de um bosque estava o caçador escondido, tinha que achá-lo depressa para não perder a partida, vamos, filho, procura nas nuvens, na árvore, não está ele enfolhado naquele ramo? No chão, veja no chão, não forma um boné a curva ali do regato? Está na escada, ele respondeu. Esse caçador familiarmente singular que viria por detrás, na direção do banco de pedra onde ia se sentar, logo ali adiante tinha um banco. Para não me surpreender desprevenido (detestava surpresas) discretamente ele dará algum sinal antes de pousar a mão no meu ombro. Então eu me viro para ver. Estacou. A revelação o fez cambalear numa vertigem, agora sabia. Fechou os olhos e se encolheu quase tocando os joelhos no chão. Seria como uma folha tombando em seu ombro mas se olhasse para trás, se atendesse o chamado. Foi endireitando o corpo. Passou as mãos nos cabelos. Sentia-se observado pelo jardim, julgado até pela roseira de rosas miúdas numa expressão reticente logo adiante. Envergonhou-se. Meu Deus, murmurou num tom de quem pede desculpas por ter entrado em pânico assim com essa facilidade, meu Deus, que papel miserável, e se for um amigo? Simplesmente um amigo? Começou a assobiar e as primeiras notas da melodia o transportaram ao menino antigo com sua roupa de Senhor dos Passos na procissão de Sexta- Feira Santa. O Cristo cresceu no esquife de vidro, oscilando suspenso sobre as cabeças, me levanta, mãe, quero ver! Mas continuava alto demais tanto na procissão como depois, lá na igreja, deposto no estrado de panos roxos, fora do esquife para o beija-mão. O remorso velando as caras. O medo atrofiando a marcha dos pés tímidos atrás do Filho de Deus., o que nos espera se até Ele?!... A vontade de que o pesadelo acabasse logo e amanhecesse sábado, ressuscitar no sábado! Mas a hora ainda era a da banda de batas pretas. Das tochas. Dos turíbulos atirados para os lados, vupt! vupt! até o extremo das correntes. Falta muito, mãe? A vontade de evasão de tudo quanto era grave e profundo certamente vinha dessa noite: os planos de fuga na primeira esquina, desvencilhar- se da coroa de falsos espinhos, da capa vermelha, fugir do morto tão divino, mas morto! A procissão seguiu por ruas determinadas, era fácil se desviar dela, descobriu mais tarde. O que continuava difícil era fugir de si mesmo. No fundo secreto, fonte de ansiedade, era sempre noite - os espinhos verdadeiros lhe espetando a carne, ô! por que não amanhece? quero amanhecer! Sentou-se no banco verde de musgo, tudo em redor mais quieto e mais úmido agora que chegara ao âmago do jardim. Correu as pontas dos dedos no musgo e achou-o sensível como se lhe brotasse da própria boca. Examinou as unhas. E abaixou-se para tirar a teia de aranha que se colara despedaçada à bainha da calça: o trapezista de malha branca (foi na estréia do circo?) despencou do trapézio lá em cima, varou a rede e se estatelou no picadeiro. A tia tapou-lhe depressa os olhos, não olhe, querido! mas por entre os dedos enluvados viu o corpo se debater sob a rede que foi arrastada na queda. As contorções se espaçaram até a imobilidade; só a perna de inseto vibrando ainda. guando a tia o carregou para fora do circo, o pé em ponta escapava pela rede estraçalhada num último estremecimento. Olhou para o próprio pé adormecido, tentou movê-lo. Mas a dormência já subia até o joelho. Solidário, o braço esquerdo adormeceu em seguida, um pobre braço de chumbo, pensou enternecido com a lembrança de quando aprendera que alquimia era transformar metais vis em ouro, o chumbo era vil? Com a mão direita, recolheu o braço que pendia, avulso. Bondosamente colocou-o sobre os joelhos: já não podia fugir. E fugir para onde se tudo naquele jardim parecia dar na escada? Por ela viria o caçador de boné, eterno habitante de um jardim eterno, só ele mortal. A exceção. E se cheguei até aqui é porque vou morrer. Já? horrorizou-se olhando para os lados mas evitando olhar para trás. A vertigem o fez fechar de novo os olhos. Equilibrou-se tentando se agarrar ao banco, não quero! gritou. Agora não, meu Deus, espera um pouco, ainda não estou preparado! Calou-se, ouvindo os passos que desciam tranqüilamente a escada. Mais tênue que a brisa um sopro pareceu reavivar a alameda. Agora está nas minhas costas, ele pensou e sentiu o braço se estender na direção do seu ombro. Ouviu a mão ir baixando numa crispação de quem (familiar e contudo cerimonioso) dá um sinal, sou eu. O toque manso. Preciso acordar, ordenou se contraindo inteiro; isso é apenas um sonho! Preciso acordar!. acordar. Acordar, ficou repetindo e abriu os olhos. Demorou um pouco para reconhecer o travesseiro que apertava contra o peito. Limpou a baba morna que lhe escorria pelo queixo e puxou o cobertor até os ombros. Que sonho! murmurou abrindo e fechando a mão esquerda, formigante, pesada. Estendeu a perna e quando a mulher abriu a janela e perguntou se tinha dormido bem, quis contar-lhe o sonho do jardim com a morte vindo por detrás: sonhei que ia morrer. Mas ela podia gracejar, a novidade não seria sonhar o contrário? Virou-se para a parede. Não queria nenhum tipo de resposta do gênero bem-humorado, como era irritante quando ela exibia seu bom humor. Gostava de se divertir à custa dos outros mas se encrespava quando se divertiam à sua custa. Massageou o braço dolorido e deu uma vaga resposta quando ela lhe perguntou que gravata queria usar, estava um dia lindo. Era dia ou noite no jardim? Tantas vezes pensara na morte dos outros, entrara mesmo na intimidade de algumas dessas mortes e jamais imaginou que pudesse lhe acontecer o mesmo, jamais. Um dia, quem sabe? Um dia lá longe, mas tão longe que a vista não alcançava essa lonjura, ele próprio se perdendo na poeira de uma velhice remota, diluído no esquecimento. No nada. E agora, nem cinqüenta anos. Examinou o braço, os dedos. Levantou-se molemente, vestiu o chambre, não era estranho? Isso de não ter pensado em fugir do jardim. Voltou-se para a janela e estendeu a mão para o sol. Pensei, é claro, mas a perna desatarraxada e o braço advertindo que não podia escapar porque todos os caminhos iam dar na escada, que não havia nada a fazer senão ficar ali no banco, esperando o chamado que viria por detrás, de uma delicadeza implacável. E então? perguntou-lhe a mulher. Assustou-se. Então o quê?! Ela passava creme na cara, fiscalizando-o através do espelho, mas ele não ia fazer sua ginástica? Hoje não, disse massageando de leve a nuca, chega de ginástica. Chega também de banho? ela perguntou enquanto dava tapinhas no queixo. Ele calçou os chinelos: se não estivesse tão cansado, poderia odiá-la. E como desafina! (agora ela cantarolava), nunca teve bom ouvido, a voz até que é agradável mas se não tem bom ouvido... Parou no meio do quarto: o inseto saindo do ouvido da estátua não seria um sinal? Só o inseto se movimentando no jardim parado. O inseto e a morte. Apanhou o maço de cigarro mas deixou-o, hoje fumaria menos. Abriu os braços: esse dolorimento na gaiola do peito era real ou memória do sonho? Tive um sonho, ele disse passando por detrás da mulher e tocando-lhe o ombro. Ela afetou curiosidade no leve arquear das sobrancelhas, um sonho? E recomeçou a espalhar o creme em torno dos olhos, preocupada demais com a própria beleza para pensar em qualquer coisa que não tivesse relação com essa própria beleza. Que já está perdendo o viço, ele resmungou ao entrar no banheiro. Examinou-se no espelho: estava mais magro ou essa imagem era apenas um eco multiplicador do jardim? Cumpriu a rotina da manhã com uma curiosidade comovida, atento aos menores gestos que sempre repetiu automaticamente e que agora analisava, fragmentando-os em câmara lenta, como se fosse a primeira vez que abria uma torneira. Podia também ser a última. Fechou-a, mas que sentimento era esse? Despedia-se e estava chegando. Ligou o aparelho de barbear, examinou-o através do espelho e num movimento caricioso aproximou-o da face: não sabia que amava assim a vida. Essa vida da qual falava com tamanho sarcasmo, com tamanho desprezo. Acho que ainda não estou preparado, foi o que tentei dizer, não estou preparado. Seria uma morte repentina, coisa do coração - mas não é o que eu detesto? O imprevisto, a mudança dos planos. Enxugou-se com indulgente ironia: era exatamente isso o que todos diziam. Os que iam morrer. E nunca pensaram sequer em se preparar, até o avô velhíssimo, quase cem anos e alarmado com a chegada do padre, mas está na hora? Já? Tomou o café em goles miúdos, como era gostoso o primeiro café. A manteiga se derretendo no pão aquecido. O perfume das maçãs de mistura com outro perfume, vindo de onde? Jasmins? Os pequeninos prazeres. Baixou o olhar para a mesa posta: os pequeninos objetos. Ao entregar-lhe o jornal, a mulher lembrou que tinham dois compromissos para a noite, um coquetel e um jantar, e se emendássemos? ela sugeriu. Sim, emendar, ele disse. Mas não era o que faziam ano após ano, sem interrupção? O brilhante fio mundano era desenrolado infinitamente, sim, emendaremos, repetiu. E afastou o jornal: mais importante do que todos os jornais do mundo era agora o raio de sol trespassando as uvas do prato. Colheu um bago cor de mel e pensou que se houvesse uma abelha no jardim do sonho, ao menos uma abelha, podia ter esperança. Olhou para a mulher que passava geléia de laranja na torrada, uma gota amarelo-ouro escorrendo-lhe pelo dedo e ela rindo e lambendo o dedo, há quanto tempo tinha acabado o amor? Ficara esse jogo. Essa acomodada representação já em decadência por desfastio, preguiça. Estendeu a mão para acariciar-lhe a cabeça, que pena, disse. Ela voltou-se, pena por quê? Ele demorou o olhar em seus cabelos encaracolados, como os da estátua: uma pena aquele inseto, disse. E a perna ficar metálica na metamorfose final, não se importe, estou delirando. Serviu-se de mais café. Mas estremeceu quando ela lhe perguntou se por acaso não estava atrasado. Hoje entraria mais tarde, queria fumar um último - cigarro, teria dito último? Beijou o filho de uniforme azul, entretido em arrumar a pasta do colégio, exatamente como fizera na véspera. Como se não soubesse que naquela manhã (ou noite?) o pai quase olhara a morte nos olhos. Mais um pouco e dou de cara com ela, segredou ao menino que não ouviu, conversava com o copeiro. Se não acordo antes, disse num tom forte e a mulher se debruçou na janela para avisar ao motorista que tirasse o carro. Vestiu o paletó: podia dizer o que quisesse, ninguém se interessava. E por acaso eu me interesso pelo que dizem ou fazem? Afagou o cachorro que veio saudá-lo com uma alegria tão cheia de saudade que se comoveu, não era extraordinário? A mulher, o filho, os empregados - todos continuavam impermeáveis, só o cachorro sentia o perigo com seu faro visionário. Acendeu o cigarro, atento à chama do palito queimando até o fim. Vagamente, de algum cômodo da casa, veio a voz do locutor de rádio na previsão do tempo. Quando se levantou, a mulher e o filho já tinham saído. Ficou olhando o café esfriando no fundo da xícara. O beijo que lhe deram foi tão automático que nem sequer se lembrava de ter sido beijado. Telefone para o senhor, o copeiro veio avisar. Encarou-o: há mais de três anos aquele homem trabalhava ali ao lado e quase nada sabia sobre ele. Baixou a cabeça e fez um gesto de quem se recusa e se desculpa. Tanta pressa nas relações dentro de casa. Lá fora, um empresário de sucesso casado com uma mulher na moda. A outra fora igualmente ambiciosa mas não tinha charme e era preciso charme para investir nas festas, nas roupas. Investir no corpo, a gente tem que se preparar como se todos os dias tivesse um encontro de amor, ela repetiu mais de uma vez, olha aí, não me distraio, nenhum sinal de barriga! A distração era de outro gênero. O doce distraimento de quem tem a vida pela frente, mas não tenho? Deixou cair o cigarro dentro da xícara: agora, não mais. O sonho interrompera o fluxo da sua vida no corte do jardim. O incrível sonho fluindo tão natural apesar da escada com seus degraus esburacados de tão gastos. Apesar dos passos do caçador embutido, pisando na areia da malícia fina até o toque no ombro. Entrou no carro, ligou o contato. O pé esquerdo resvalou para o lado, recusando-se a obedecer. Repetiu o comando com mais energia e o pé resistindo. Tentou mais vezes. Não perder a calma, não se afobar, foi repetindo enquanto desligava a chave. Fechou o vidro. O silêncio. A quietude. De onde vinha esse perfume de ervas úmidas? Descansou no assento as mãos desinteressadas. A paisagem foi se aproximando numa aura de cobre velho, estava clareando ou escurecia? Levantou a cabeça para o céu esverdinhado, com a lua de calva exposta, coroada de folhas. Vacilou na alameda bordejada pela folhagem escura, mas o que é isso, estou no jardim? De novo? E agora, acordado, espantou-se, examinando a gravata que ela escolhera para esse dia. Tocou na figueira, sim, outra vez a figueira. Enveredou pela alameda: um pouco mais e chegaria ao tanque seco. A moça dos pés cariados ainda estava em suspenso, sem se decidir, com medo de molhar os pés. Como ele mesmo, tanto cuidado em não se comprometer nunca, em não assumir a não ser as superfícies. Uma vela para Deus, outra para o Diabo. Sorriu das próprias mãos abertas, se - oferecendo. Passei a vida assim, pensou, mergulhando-as nos bolsos num desesperado impulso de aprofundamento. Afastou-se antes que o inseto fofo irrompesse de dentro da pequenina orelha, não era absurdo? Isso da realidade imitar o sonho num jogo onde a memória se sujeitava ao planificado. Planificado por quem? Assobiou e o Cristo da procissão foi se esboçando no esquife indevassável, tão alto. A mãe enrolou-o depressa não xale, a roupa do Senhor dos Passos era leve e tinha esfriado, está com frio, filho? Tudo se passava mais rápido ou era apenas impressão? A marcha funeral se precipitou em meio das tochas e correntes soprando fumaça e brasa. E se eu tivesse mais uma chance? gritou. Tarde, porque o Cristo já ia longe. O banco no centro do jardim. Afastou a teia despedaçada e entre os dedos musgosos como o banco, vislumbrou o corpo do antigo trapezista enredado nos fios da rede, só a perna viva. Fez-lhe um afago e a perna não reagiu. Sentiu o braço tombar, metálico, como era a alquimia? Se não fosse o chumbo derretido que lhe atingia o peito, sairia rodopiando pela alameda, descobri! Descobri. A alegria era quase insuportável: da primeira vez, escapei acordando. Agora vou escapar dormindo. Não era simples? Recostou a cabeça no espaldar do banco, mas não era sutil? Enganar assim a morte saindo pela porta do sono. Preciso dormir, murmurou fechando os olhos. Por entre a sonolência verde-cinza viu que retomava o sonho do ponto exato em que fora interrompido. A escada. Os passos. Sentiu o ombro tocado de leve. Voltou-se. 1977 (Conto extraído do livro "Mistérios" de Lygia Fagundes Telles, Editora Nova Fronteira, 4a Edição)
8) Um Coração ardente
O velho voltou-se para a janela aberta, que enquadrava um pedaço do céu estrelado. Tinha uma bela voz: "... Mas eu dizia que na minha primeira juventude fui escritor. Pois é, escritor. Aliás, enveredei por todos os gêneros: poesia, romance, crônica , teatro... Fiz de tudo. E mais gêneros houvesse... Meti-me também na política, cheguei a escrever uma doutrina inteira para o meu partido. Mergulhei ainda na filosofia, ô Kant, ó Bergson!... Achava importantíssimo meu distintivo de filósofo, com uma corujinha encolhida em cima de um livro." Calou-se. Havia agora no seu olhar uma expressão de afetuosa ironia. Zombava de si próprio, mas sem amargor. "Eu não sabia que não tinha vocação nem para político, nem para filósofo, nem para advogado, não tinha a menor vocação para nenhuma daquelas carreiras que me fascinavam, essa é a verdade. Tinha apenas um coração ardente, isto sim. Apenas um coração ardente, mais nada." "Meu filho Atos herdou o mesmo coração. Devo dizer-lhe que um coração assim é um bem. Não há dúvida que é um bem, mas um bem perigoso, está me compreendendo? Tão perigoso... Principalmente na adolescência, logo no começo da vida, no tão difícil começo. Meu pobre filho que o diga..." Calou-se apertando fortemente os lábios. Eu quis então romper o silêncio porque sabia do que aquele silêncio se carregava, mas não tive forças para dizer coisa alguma. O olhar do velho já denunciava as tristes lembranças que o assaltavam: qualquer tentativa para afastá-las resultaria agora inútil. E seria mesmo cruel. "Ele era inteiro um coração", prosseguiu o velho. "E foi por saber tão bem disto que corri como um louco para casa quando me disseram que Leonor tinha morrido. Não, não fui nem pensei sequer em ir ao hospital porque adivinhei que ele não estava mais lá, devia ter ficado com a noiva até o último momento. Em seguida, devia ter voltado para casa." "Saí correndo pela rua afora, acenando para os carros que passavam já ocupados. Chovia, chovia horrivelmente. E eu acenava em vão para os carros, tentei mesmo agarrar-me a um deles, 'depressa, depressa, que meu filho vai se matar!' Corri tanto que quando cheguei, encharcado e exausto, atirei- me quase desfalecido nos degraus da escada. E ali fiquei de bruços, a olhar estupidamente uma formiguinha que se infiltrara numa fenda do degrau de pedra. A casa estava quieta. Quieta demais, pensei, erguendo-me de um salto. E precipitei-me aos gritos pela casa adentro, embora soubesse muito bem que ele não podia mais me ouvir, 'filho, não!'" O velho fez uma pausa. Acendi um cigarro. Que ao menos o ruído do fósforo riscado rompesse o silêncio que se abateu na sala. Fixei o olhar numa rosa do tapete puído. E só quando o velho recomeçou a falar é que tive coragem de encará-lo novamente. A imagem do filho, com o peito varado por uma bala, já passara para um plano remoto. "Atos herdou de mim esse tipo de coração. Gente assim ri mais, chora mais, odeia mais, ama mais... Ama mais, principalmente isto. Ama muito mais. E uma espécie de gente inflamável, que está sempre se queimando e se renovando sem parar. De onde nascem chamas tão altas? Muitas vezes não há nenhuma acha de lenha para alimentar o fogo, de onde vem tamanho impulso? Mistério. As pessoas param, fascinadas, em torno desse calor tão espontâneo e inocente, não? Tão inocente. No entanto, tão perigoso, meu Deus. Tão perigoso." O velho soprou a brasa mortiça do cigarro de palha. Seu largo rosto bronzeado pareceu-me extraordinariamente rejuvenescido. "Como eu entendia bem aquele filho, eu que lhe transmitira o tal coração flamejante! Como se parecia comigo! Faltava-lhe, apenas, o meu senso de humor, ele matou-se com vinte anos." "Com vinte anos, eu já terminara três romances, duas peças, um livro de novelas e uma enorme epopéia da qual tirei a tal doutrina para o meu partido. Lia Bergson, Nietzsche, Shakespeare... Citava-os enfaticamente, com ou sem cabimento. E cada livro que lia, achava que era a obra máxima, meu guia; meu irmão, meu tudo. Isto até ler outro livro. Então punha de lado o anterior e imediatamente adotava o novo, "achei o que queria, achei!..." Tão desordenada avalanche de leituras me confundiu a tal ponto, que acabei por me perder e não conseguia mais me encontrar. Os heróis de meus livros me marcavam tanto, que de cada um ficava um pouco em mim: sorria como Fausto, investia como D. Quixote, sonhava como Romeu... Tive crises de angústia, fiquei completamente atordoado, infeliz. Como é que eu era afinal? Senti-me de repente vazio e perplexo, um personagem em absoluta disponibilidade diante do autor. E que autor era esse? Deus? Mas eu acreditava Nele? Não acreditava? A vida me dava náuseas. Mas não era ainda maior do que a náusea o pavor que eu tinha da morte? Que é que eu quero? Que é que eu faço?! - ficava a perguntar a mim mesmo até altas horas, a andar de um lado para outro no meu quarto enquanto meu irmão protestava no quarto vizinho, 'quer ter a bondade de ao menos tirar os sapatos?' As perguntas batiam em mim e voltavam e rebatiam como bolas de pingue-pongue numa partida infernal. Assaltava-me, às vezes, o desejo de poder, prestígio e ao mesmo tempo tudo me parecia de uma inutilidade atroz, 'para quê? por quê?' Meus amigos, tão descabelados quanto eu, vinham somar às minhas suas desesperadas dúvidas. E em debates que não acabavam nunca, varávamos a noite até a madrugada. Deitava-me com a garganta seca, exausto e deprimido, ainda mais perturbado do que antes. Um caos. "E eis que, aos poucos, foi-me dominando um desejo feroz de solidão. Senti-me o próprio lobo da estepe, incompreendido e só num mundo que já não falava a mesma língua que a minha. Abandonei o partido. 'Não é a doutrina que me decepcionou, mas os homens...', justifiquei no meu discurso de despedida, que por sinal achei uma obra-prima. Não acreditava mais nos meus companheiros de partido, naqueles homens que falavam o dia inteiro no bem coletivo, na felicidade do povo, no amor ao próximo. Tão idealistas, tão puros! E na prática, não conseguiam dar o mais miserável grãozinho de alegria à própria esposa, ao filho, ao cachorro... Diziam-se independentes, desapegados das vaidades mundanas. Mas quando eram postos à prova... Não era preciso mais do que um convite para uma festa importante, mais do que um aceno para a glória, não era preciso mais nada para transformá-los em reles bajuladores. E sua servidão era bem do estilo deles: fleumática, orgulhosamente dissimulada e por isso mil vezes pior do que a bajulação desmascarada. Tomei um nojo quase físico do gênero humano. Por que as palavras não coincidiam nunca com os pensamentos? Por que os pensamentos não coincidiam nunca com as ações? "Que farsa, pensei repugnado. Arranquei minhas malas de cima do guarda-roupa. Viajar, ir embora, sumir de qualquer jeito, para qualquer lugar! Não seria esta a solução? Minha mãe trouxe-me um bolo com vinte e uma velinhas, eu fazia vinte e um anos. Apaguei as velas de um sopro. E fui falar com meu pai: "- Vou abandonar os estudos, pai. Vou-me embora e não voltarei tão cedo. "Meu irmão, que era muito parecido com minha mãe, encarou-me friamente: "- Deixe de ser histérico, menino. "Meu pai ordenou-lhe que se calasse. E ouviu-me com a maior gravidade. "- A gente sempre volta, filho. Espere um pouco, não tome por enquanto nenhuma resolução. "Concordei em esperar. E olhei para minhas mãos vazias. Se ao menos pudesse agir! Cansara-me dos planos inúteis, das palavras inúteis, dos gestos inúteis... Fazer alguma coisa de útil, de nobre, alguma coisa que justificasse minha vida e que até aquele instante não tinha para mim o menor sentido. Mas fazer o quê? "'Amar ao próximo como a si mesmo', fiquei repetindo estupidamente, sem a menor convicção. Ah, sim, porque era fácil dizer, por exemplo, que eu não tinha nenhum preconceito de cor, que era completamente liberal nesse assunto, mas na hora de formar a rodinha dos amigos íntimos, daqueles que poderiam vir a se casar com minhas irmãs, nessa hora chamei por acaso algum negro para participar dela? Era fácil ainda encher a boca de piedade para com os assassinos e as prostitutas, mas o fato de não atirar-lhes pedras significava, por acaso, que um dia chegaria a tratá-los como irmãos? Como se fossem eu mesmo? Não passo de um egoísta, concluí. Um refinado hipócrita e egoísta. Sou capaz de me casar com uma priminha que apresenta todas as características de uma rameira mas jamais me casarei com uma rameira que seja uma santa em potencial. Hipócrita e egoísta! Burguesinho egoísta! - berrei dando um soco na vidraça da janela do meu quarto, enquanto minha mãe batia aflita na porta, certa de que eu me pegava ali dentro com alguém." Sorri silenciosamente. O velho sorriu também. Seus olhinhos azuis pareciam agora maiores e mais brilhantes. Pôs-se a preparar novo cigarro. Era agradável o som da lâmina do canivete alisando a palha. "Tomei-me de tamanha irritação por mim mesmo que deixei de fazer a barba só para não topar mais com minha cara no espelho. Foi quando senti uma necessidade urgente de amar, de dedicar-me inteiramente a alguém, mas a alguém que precisasse de ajuda, de compreensão, de amor. Oferecer-me como bóia de salvação ao primeiro que me acenasse. No caso, não foi primeiro, foi primeira. E a bem da verdade devo dizer que ela não fez nenhum aceno: eu é que fui bater na sua porta para oferecer-lhe socorro. Seria um amor amargo, cheio de sacrifícios e renúncias, mas não era assim o amor que eu procurava? Acho que já disse que meu irmão era muito parecido com minha mãe. Eu saí parecido com meu pai que era um homem dos grandes impulsos, dos grandes gestos, das grandes paixões. Meu infortúnio parecia-me, até aquele momento, demasiado medíocre: ansiava agora por ser grandemente desgraçado, isto é, amar e ainda por cima escolher mal o objeto do meu amor. "Por uma dessas banais ironias, o prostíbulo situava-se no alto da Ladeira da Glória. Ladeira da Glória, doze. Lembro- me bem de que era um casarão pardo e velho, cheio de ratos que corriam sem nenhuma cerimônia pelos corredores e de mulheres que trançavam seminuas, com menor cerimônia ainda. "Encontrei-a fazendo as unhas. Na maioria das vezes em que a visitei encontrei-a lidando com seus petrechos de unhas ou então bordando miçangas em alguma roupa, tinha mania com miçangas. Se pudesse, creio que até nas cobertas da cama pregaria as tais continhas. E tinha mania com as unhas que eram realmente perfeitas. A cabeleira podia estar em desordem, a pintura do rosto, desfeita, mas as unhas ah, essas deviam estar sempre corretíssimas! Tinha a pele muito branca, com ligeiros vestígios de sardas e cabelos ruivos, muito curtos e encaracolados. Parecia uma cenourinha. Não era bonita, mas quando sorria... Havia tamanha ternura no seu sorriso, uma ternura assim tão espontânea, tão inocente, que chegava a me comover, 'como pode ser, meu Deus?! Como pode ser?!...' Ela voltava para mim os olhinhos redondos como bolinhas de vidro verde: 'Como pode ser o quê?' Então era eu quem sorria. 'Nada. Nada.' "Chamava-se Sandra, mas quando eu soube que seu nome verdadeiro era Alexandra, Alexandra Ivanova, emocionei-me. Descendia de russos. Vi nela uma personagem de romance e eu mesmo me vi na pele suave d'o Idiota, tão cheio de pureza e de sabedoria, 'que faz você sob este céu azul, provavelmente azul?' Atendendo o telefone, a dona da pensão não permitiu, no entanto, que eu encaixasse ali minha citação quando informou-me que Sandra não podia vir falar comigo porque estava muito ocupada. Desliguei atirando o fone no gancho: - E ainda chama a isso de ocupação!... "Meu irmão, que estava ali ao lado, bateu-me tranqüilamente no ombro: - Você me dá a impressão de estar o dia todo com a espada desembainhada. Não é cansativo? "Saí sem dar resposta. Mais tarde, bem mais tarde acabamos sendo ótimos amigos. Mas naquela época era impossível haver qualquer entendimento entre nós. "Alexandra tinha vinte e cinco anos e era completamente analfabeta. Mas eu queria uma criatura assim primitiva e xucra, atirada numa pensão de última classe. Seria preciso ir buscá-la no fundo, bem lá no fundo e trazê-la aos poucos para a luz, devagarinho, sem nenhuma precipitação. Era um jogo que exigia paciência, sim, e eu não tinha nada de paciente. Mas a experiência era fascinante. "Três vezes por semana eu ia vê-la, sempre no fim da tarde, quando o mulherio e os ratos pareciam mais tranqüilos em suas tocas. Costumava levar-lhe um presentinho, pequeninas coisas de acordo com minha discretíssima mesada: pacotinhos de bombons, lenços, enfeites de toucador... Assim que eu chegava ela olhava ansiosamente para minhas mãos, como criança em dia de aniversário. E recebia, radiante, as insignificâncias. 'Alexandra. A-le-xan-dra...' eu gostava de repetir lentamente, destacando bem as sílabas. Nos instantes mais graves da minha doutrinação, chamava-a dramaticamente pelo nome todo: Alexandra Ivanova. Ela então desatava a rir. "A princípio, tive um certo trabalho para explicar-lhe que nossa amizade tinha que ser uma coisa de irmão para irmã. Ofendeu-se um pouco: "- Quer dizer que você não quer nada comigo? "- Quero, Alexandra. Quero tudo com você. Mas antes, precisamos conversar muito. "Ela sorria. Quando sorria, chegava a ficar bonita. "- Você é complicado. "- Não, Alexandra, não é isso, mas o caso e que há coisas mais importantes na frente, precisamos antes nos entender, nos amar para então... Você precisa se preparar para ser minha. Minha para sempre, ouviu bem? "- Ouvi. Mas você é complicado, sim. "Mais facilmente do que eu esperava ela acomodou-se logo àquele novo tipo de relacionamento. Era de natureza mansa, indolente. Recebia-me com seu sorriso afável, desfazia o pacotinho, interessava-se alguns instantes pela novidade do presente e em seguida punha-se a lidar com suas eternas miçangas. Bordava miçangas verdes numa blusa preta. Antes que eu me fosse, acendia a espiriteira, preparava o chá e me oferecia uma xícara com umas bolachas que tirava de uma lata com uma borboleta de purpurina na tampa. "- Acho que você é padre - disse-me certa vez. "Achei graça e respondi-lhe que estava muito longe de ser isso. Não obstante, ela ainda me olhava com um sorrisinho interior: "- Acho que você é padre, sim. "Mostrei-lhe então o absurdo daquela suspeita mas até hoje desconfio que Alexandra não se convenceu nada com a minha negativa. E se não voltou a tocar no assunto, foi porque sua natural indolência a impedia de pensar mais de dois minutos sobre qualquer problema. Dissimulava ceder logo aos primeiros argumentos por simples preguiça de discutir. "- Você fala tão bem - ela me dizia de vez em quando, para me animar. - Fale mais. "Com a dolorosa impressão de que minhas palavras borboleteavam em redor de sua cabeça e se iam em seguida pela janela afora, redobrava meus esforços, tentando seduzi- la com temas nos quais ela parecia se interessar mais: Deus, amor, morte... Ela fazia pequenos sinais afirmativos com a cabeça enquanto ia bordando seu labirinto de contas. Quando eu me calava, pedia: "- Fale mais. "E daí por diante só abria a boca para cortar nos dentes o fio de linha da agulha. "Às vezes, eu tentava me convencer de que havia naquele silêncio de Alexandra profundidades insondáveis, mistérios, sei lá!... Sempre achara um encanto especialíssimo nas mulheres silenciosas. Agora tinha na minha frente uma que quase não falava. E então? Não era isso que eu queria? Não era mesmo um amor difícil aquele que eu buscara? Há vinte e cinco anos, praticamente há vinte e cinco anos ela estava naquela vida. A bem dizer, nascera ali. Vinte e cinco anos de mentiras, vícios, depravações. Não seria mesmo com meia dúzia de palavras que eu iria remover toda aquela tradição de horror. "Pedia-lhe o fim das suas tardes, nada mais do que o fim das suas tardes, à espera sempre de que espontaneamente ela fosse abrindo mão também de suas noites de comércio infernal. Mas não. Alexandra me ouvia muito atenta, retocava o esmalte de alguma unha, lidava com suas miçangas, oferecia- me chá com bolachas e assim que eu saía, recomeçava com naturalidade sua vida de sempre. Minha exasperação chegou ao máximo quando descobri que ela estava longe de se considerar infeliz. "- Mas Alexandra, será possível que você está contente aqui? - perguntei-lhe certa tarde. - Estou contente, sim. Por quê? "Emudeci. Eu tinha justamente acabado de lhe falar sobre um pensionato de moças transviadas, para onde pretendia levá- la. Diante do seu desinteresse pelo meu plano, fiz-lhe a pergunta cuja resposta me deixou perplexo. "- Alexandra Ivanova, você está vivendo no inferno! Não vê que você está vivendo no inferno?! "Ela lançou em redor um olhar assustado: "- Mas que inferno? "Olhei também em torno: o usino de feltro azul, sentado no meio das almofadas em cima da cama, a mesa de toalete cheia de potes de creme e de pequeninos bibelôs, o guarda-roupa com malas e caixas cuidadosamente empilhadas no topo, o coelho felpudo em cima da cadeira, a mesinha coberta com uma toalha que devia ter 4 sido a saia de um vestido ramado... Num canto da mesa, duas xícaras, um bule, a lata de bolachas e o açucareiro com rocinhas douradas, presente meu. Todo o quarto tinha o mesmo ar indolente da sua dona. "- Para que um lugar seja o inferno, está claro que não é preciso a presença do fogo - comecei fracamente. Toquei-lhe no ombro. - O inferno pode estar aí. "Ela riu. Em seguida, ajoelhou-se, pôs a cabeça no meu colo e ali ficou como um bichinho humilde e terno. Tomei-a entre os braços. Beijei-a. E descobri de repente que a amava como um louco, 'Alexandra, Alexandra, eu te adoro! Te adoro!... "Naquela tarde, quando a deixei fui como um tonto pela rua afora, a cabeça estalando, os olhos cheios de lágrimas, 'Alexandra, eu te amo...' Crispei desesperadamente as mãos ao me lembrar de que dentro em pouco, de que naquele instante mesmo talvez um outro... 'Vou me casar com ela', resolvi ao entrar em casa. Minha família tinha que aceitar, todos tinham que aceitar aquele amor capaz de mover sol e estrelas, '1'amor che muove il sole e l'altre stelle'... Mas nem Dante nem eu sabíamos que era mais fácil mover a Via- Láctea do que mover minha pequena Alexandra da Ladeira da Glória para o Pensionato Bom Caminho. "Uma tarde, nossa última tarde, encontrei-a arredia, preocupada. Hesitou um pouco, mas acabou me dizendo que a dona da pensão não queria mais saber das minhas visitas. Perguntei-lhe o motivo. "- Ela acha que você quer me tirar daqui para me explorar noutro lugar. "Fiquei sem poder falar durante alguns minutos, tamanha cólera se apossou de mim. "- Mas Alexandra... - comecei, completamente trêmulo. Dei um murro na mesa. - Chega! Amanhã mesmo você vai para o pensionato, está me entendendo? Já arranjei tudo, você ficará lá durante algum tempo, aprendendo a ler, a rezar, a ter boas maneiras... "Alexandra arrumava sua caixinha de miçangas. Sem levantar a cabeça, interrompeu-me com certa impaciência: "- Mas eu já disse que não quero sair daqui. "- O quê?! "- Eu já disse que não quero sair daqui, logo no começo eu disse isso, lembra? Sair daqui, não. "Respirei profundamente para readquirir a calma, como aprendera num método de respiração iogue. "- Será possível, Alexandra Ivanova, será possível que você também está pensando que... - comecei num fio de voz e nem tive forças para terminar. "- Pois se eu soubesse que você está querendo me agenciar, iria até de muito bom grado, o que não quero é essa história de pensionato. Pensionato, não. "Escancarei a janela que dava para o quintal da casa. Lembro- me de que havia ali uma mulher loura com uma toalha nos ombros, secando os cabelos ao sol. Acendi um cigarro. Minha mão tremia tanto que mal consegui levar o cigarro à boca. "- Alexandra, você precisa ficar algum tempo num lugar direito, decente, antes de... de nos casarmos. Já conversamos tanto sobre tudo isso, ficou assentado que você iria, já conversamos tanto a esse respeito! Será possível?... "Ela pousou em mim os olhos redondos. E falou. Foi a primeira e a última vez que a ouvi falar tanto assim. "- Não conversamos nada. Foi só você que abriu a boca, eu escutava, escutava, mas não disse que queria ir, disse? Disse por acaso que queria mudar de vida? Pois então. Gosto daqui, pronto. Mania que vocês têm de querer me baldear, foi a mesma coisa com aquelas três velhas da Comissão Pró não- sei-mais-o-quê. Ficaram uma hora inteira falando. Depois escreveram meu nome numa ficha e ficaram de voltar na manhã seguinte. Graças a Deus não apareceram nunca mais. Agora vem você... Por que é que você complica tanto as coisas? Primeiro, aquela história de ficarmos que nem dois irmãos, agora que tudo ia tão bem, tinha que me inventar essa bobagem do pensionato. Por que é que você complica tudo? "Fiquei aturdido. "- Quer dizer que você não me ama. "- Amo, sim. Amo - repetiu brandamente. - Mas estamos tão bem assim, não estamos? Além do mais, você pode amanhã mudar de idéia, me deixar. E meu futuro está aqui. "Aproximei-me dela. Comecei por arrancar-lhe das mãos os pacotinhos de miçangas e atirei-os longe. Em seguida, agarrei-a pelos cabelos e esmurrei-a tanto, mas tanto, que quase quebrei minha mão. Ela pôs-se a gritar e só se calou no instante em que a joguei com um safanão sobre a cama. Disse-lhe então as coisas mais duras, mais cruéis. Ela enrolou-se nas cobertas, como um bichinho apavorado, escondendo o rosto que sangrava. E não me respondeu. "Um arrependimento brutal apertou meu coração. Tive vontade de me golpear na cara. E suplicar-lhe, de joelhos, que me perdoasse. Mas continuei inflexível: "- Devia era te matar. "Ela ergueu a cabeça. E como percebesse que eu não cogitava mais de agredi-la e muito menos de matá-la, levantou-se, lavou o rosto na bacia e choramingando, choramingando, pôs- se a catar as miçangas que eu espalhara pelo chão. Parecia mais preocupada com as miçangas do que com o próprio rosto que já começava a inchar. Em nenhum momento me insultou, como seria natural que fizesse. No fundo, tinha por mim um extraordinário respeito, o que me leva até hoje a crer que jamais ela tirou da cabeça aquela suspeita de ser eu um padre disfarçado. "Apanhei a capa e o Código Civil que caíra do meu bolso Tinha vontade de morrer. "- Você vem amanhã? perguntou-me ainda de cócoras, as mãos cheias de continhas vermelhas. "Confesso que até hoje não sei bem que resposta ela queria ouvir. Desci a escada. E só então compreendi o motivo pelo qual ninguém ouvira os gritos de Alexandra: o rebuliço na casa era total. O mulherio gesticulava, falava, chorava, trançando de um lado para outro como um punhado de baratas em chapa quente de fogão. Vi que o tumulto se irradiava de um quarto no fundo do corredor. As portas do quarto estavam escancaradas. "Entrei. Estendida na cama, coberta com um lençol, estava uma moça morta. Na mesinha ao lado, uma garrafa de guaraná e a lata aberta de formicida. No chão, os cacos de um copo. "Desviei da morta o olhar indiferente. Suicídio. E daí? Podia haver fecho mais digno para aquela vida enxovalhada? "Sentada na cama, uma mulher chorava sentidamente, assoando- se na toalha que tinha nos ombros: era a mesma mulher que eu vira no quintal, secando os cabelos. Três outras mulheres revolviam estabanadamente as gavetas da cômoda. "Fiquei a olhar a cena com a maior indiferença. Era essa mesma a vida e a morte que ela escolhera, não era? E então? Por que a surpresa? O escândalo?... "Acendi um cigarro e encostei-me ao batente da porta. Tamanho desinteresse acabou por irritar a mulher da toalha nos ombros e que parecia a mais ligada à morta. Voltou-se para mim: "E você aí, com essa cara... Está se divertindo, está? Vocês, homens, são todos uns cachorros, uns grandessíssimos cachorros, isso é o que vocês são! Por causa de vocês é que a pobrezinha se matou. Só dezoito anos, uma criança ainda! "- Criança que gostava deste brinquedo, hem? - perguntei lançando um olhar em redor. E tive que me abaixar em seguida para fugir do sapato que ela me atirou. "- Seu sujo! Ainda fala assim, o sujo! Saiba que Dedê era muito direitinha, uma menina muito direitinha. Todos os dias vinha se queixar para mim, que não agüentava mais, que tinha horror disto, que não via a hora de ir embora, 'quero minha mãe, quero minha mãe!' ela me pediu chorando tanto que não agüentei e chorei junto com ela também. - A mulher fez uma pausa para assoar-se furiosamente na toalha. - Quantas vezes ela me disse que queria viver uma vida igual à de qualquer moça por aí, com sua casa, seu marido, seus filhos... Caiu aqui, mas ficou esperando que algum dia viesse um homem bom que a levasse... Mas vocês são todos uns bandidos. Quem pensou em dar a mão para ela? Quem? "Pela primeira vez olhei realmente a morta. Tinha no rosto fino uma beleza frágil. Deixei cair o cigarro. "- Ela esperou então que alguém viesse? "- Esperou, esperou. Mas de repente perdeu as forças, foi isso... Bem que ela me disse ainda ontem que não ia agüentar mais, bem que ela disse! Mas a gente diz tanta coisa, eu não acreditei... "Afastei-me para deixar passar os homens da policia. Inclinaram-se sobre a suicida. Agora eu só podia ver o delicado contorno dos seus pés sob o lençol. "Fui saindo do quarto. Mas então? Então... Toquei na maçaneta negra da porta: era ali que eu devia ter batido, era ali, tudo não passara de um pequeno equívoco. Um simples equívoco de porta. Alguns metros menos e... "A tarde estava luminosa e calma. Cruzei os braços. Mas não era mesmo incrível? Coisa mais desconcertante, mais estúpida... "Sentei-me na calçada, com os pés na sarjeta. E de repente comecei a rir. E ri tanto, mas tanto, que um homem que passava, ao me ver rindo tão gostosamente, nu-se também. Ah vida louca, completamente louca, mas de uma loucura lúcida, cheia de nexo nos seus encontros e desencontros, nos seus acasos e imprevistos! Falsa demente, tão ingenuazinha e tão astuta na sua falta de lógica, cheia de misterioso sentido na sua confusão tão calculada, tão traiçoeiramente calculada. Uma beleza a vida! "Baixei o olhar para a sarjeta: entre duas pedras tortuosas, uma pequenina flor apontava sua cabecinha vermelha. Parecia- se com Alexandra. Toquei-lhe na corola tenra. E senti os olhos úmidos. - Minha florzinha tonta - disse-lhe num sussurro - você é tão mais importante do que todos os livros, tão mais importante... Você está viva, minha querida. E que extraordinária experiência é viver! "Ergui-me de cara voltada para o sol. Aproximei-me de uma árvore. Abracei-a. E quando encostei a face no seu tronco rugoso, foi com se tivesse encostado a face na face de Deus." 1958 Extraído de "Mistérios" de Lígia Fagundes Telles, Nova Fronteira, 4ª Edição, 1981. Rio de Janeiro, 02 de junho de 1998 |
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Solidão, inquietude, perplexidade. Em Textos Escolhidos dessa edição, a prosa de Lygia Fagundes Telles, uma das mais influentes escritoras brasileiras. Aqui, vida, obra e ensaios críticos. (Leia completo)










