| O Guardião de livros |
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ENTREVISTA JOSÉ MINDLIN
"Viver entre livros é habitar um mundo estranho. Eles parecem pertencer ao reino dos objetos inanimados, mas essa é só uma falsa impressão. Os livros contam histórias e declamam poesia, amam e odeiam, educam, alegram e também traem. Embora possam ficar abandonados por anos a fio são seres quimicamente vivos, matéria em movimento. Exposto à luz natural, o papel torna-se ácido e áspero, as letras perdem o viço e a cor. Manuseado sem o devido respeito, a estrutura arrebenta, a encadernação se fratura. Quando a capa é de couro, deve ser polida com cera - o remédio mais seguro contra a poluição das cidades e a gordura da cozinha. As páginas devem ser limpas, uma a uma, com um pincel bem macio, ao menos uma vez por ano." Esta longa avaliação mesclada com recomendações é do bibliófilo e empresário José Mindlin, um homem de 93 anos de idade – lúcido e ativo. Vive entre livros, especialmente livros raros, desde os 13. Numa idade em que garotos colecionavam moedas antigas, ele entrou num sebo de São Paulo e comprou o Discurso Sobre a História Universal, escrito em 1.740, pelo bispo francês Jacob Bossuet, um grande prosador de idéias bíblicas. Oitenta anos depois da compra do primeiro exemplar somaram-se mais 30.000, que formam um conjunto belo e primoroso, naquela que é a mais completa biblioteca privada do país, com cacife para competir, no campo das raridades, até com a gigantesca Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Advogado diplomado, Mindlin fundou e dirigiu a Metal Leve, uma das gigantes do setor de autopeças por quatro décadas, vendida para uma multinacional. Livre do mundo empresarial virou bibliófilo em tempo integral e não pára de atuar numa atividade que é ao mesmo tempo hobby, vício, e impagável contribuição à cultura. Entre os dias 24 e 26 de outubro passado ele esteve em Fortaleza, participando do III Encontro Nacional de Bibliófilos, e aproveitou a ocasião para revelar que é portador de um manuscrito com a primeira versão – inédita - do romance O Quinze, de Rachel de Queiroz. Pregando a "inoculação do vírus do amor à leitura", o senhor Mindlin concedeu a seguinte entrevista ao Letras & Livros... LL : QUANDO O SENHOR COMEÇOU A MONTAR SUA BIBLIOTECA? JM : Eu comecei a montar a biblioteca sem que ela fosse planejada em 1927. Ela completa hoje 80 anos de formação. Eu quando comecei tinha 13 anos de idade. O tempo passou e minha paixão pela literatura só cresceu. Hoje estou com 93 e continuo interessado em livros. LL : EM MÉDIA OS BRASILEIROS LEEM MENOS DE DOIS LIVROS POR ANO. O QUE O SENHOR ACHA DISSO? JM : É muito pouco. E como toda média estatística não se pode ter certeza que corresponda a verdade. Há os dois extremos. O mínimo e o máximo. O brasileiro que lê está no meio, mas não sabemos com precisão qual seria o verdadeiro grau de leitura do nosso povo. De qualquer maneira, avaliando-se esses números, é muito pouco. Também é preciso ponderar que grande parte da nossa população não tem suporte financeiro para comprar livros. O Brasil deveria ter mais e melhores bibliotecas públicas. Nos Estados Unidos, por exemplo, não há uma cidadezinha que não tenha uma unidade pública de leitura de acesso fácil. LL : E O SENHOR QUANTOS LIVROS LÊ POR ANO? JM : Eu pessoalmente, durante décadas li uma média de cem a cento e vinte livros por ano. LL : O QUE O SENHOR ESTÁ LENDO ATUALMENTE? JM : Estou lendo um livro de José Murilo de Carvalho sobre a vida de D. Pedro II. LL : FALTA ALGUM LIVRO EM SUA BIBLIOTECA? JM : Não existe biblioteca completa. Há muitos livros que consegui e outros tantos que não ainda não. E é atrás desses que sempre estou. LL : QUAL É O FUTURO QUE O SENHOR PLANEJOU PARA ESSE ACERVO? JM : Boa parte (do acervo) devo doar à Universidade de São Paulo. A outra ficará de herança para meus descendentes, filhos, netos e por aí vai. Isso tudo me permite um misto de emoção e pena por conta da separação. Ao mesmo tempo, deixa claro, para mim, que estou fazendo a coisa certa, entregando às gerações futuras a oportunidade de conhecer obras que, por muitas vezes, foram consideradas inexistentes. LL : SE O SENHOR FOSSE DAR UMA DICA A ALGUÉM QUE QUER APRENDER A GOSTAR DE LER, O QUE RECOMENDARIA? JM : Penso que uma boa sugestão é começar a freqüentar livrarias, sebos. É nesses últimos que encontramos muita coisa esgotada. LL : EM RELAÇÃO A ESSE EXEMPLAR DESCONHECIDO DE ‘O QUINZE’, QUAL É A ORIGEM DO MANUNSCRITO? JM : É um manuscrito inédito, anterior ao original do próprio texto que foi publicado na primeira edição. Eu comprei isso a muitos anos de uma pessoa que tinha recebido de presente. O marido dessa senhora recebeu o manuscrito como um presente das mãos da própria Rachel de Queiroz. LL : HOUVE ALGUM TIPO DE EXIGÊNCIA DA EX-PROPRIETÁRIA PARA LHE REPASSAR O MANUNSCRITO? JM : Houve sim. Esta senhora que me repassou o manuscrito só o fez com uma condição: pediu que não mostrasse nem falasse desse documento enquanto a autora estivesse viva, o que naturalmente eu respeitei. LL : RACHEL SABIA QUE O SENHOR ERA PROPRIETÁRIO DESTE DOCUMENTO HISTÓRICO? JM : Não. Eu soube muito tempo mais tarde, que certa vez perguntaram a Rachel de Queiroz se ela tinha notícia do paradeiro desses manuscritos e ela afirmou que não sabia onde se encontravam. Então agora que ela não está mais entre nós – o que é um motivo triste – tornou-se importante revelar a existência desse documento que é parte da história da literatura brasileira. LL : A ESCOLHA DE FORTALEZA PARA ESSA REVELAÇÃO ACABOU SENDO UMA CONSEQUÊNCIA... JM : Foi premeditada (risos) já que há muito tempo não visitava a capital do Ceará. Achei que a ocasião seria propícia para fazer a revelação, durante a reunião da Associação de Bibliófilos. LL : EXISTEM DIFERENÇAS EM RELAÇÃO À VERSÃO DE ‘O QUINZE’ QUE TODOS CONHECEM, E ESSE MANUNSCRITO INÉDITO? JM : Há diferenças grandes, tanto que ela acabou não utilizando esse manuscrito para a publicação do livro. LL : VALE À PENA TER ESTA VERSÃO PUBLICADA? JM : Naturalmente há um grande interesse literário de ver a evolução do processo de criação que levou a esta grande obra. LL : O SENHOR TERIA CONDIÇÕES DE REVELAR ALGO DO CONTEÚDO DO MANUNSCRITO? ALGUMA DIFERENÇA SIGNIFICATIVA EM RELAÇÃO AO ORIGINAL? JM : Isso é difícil de dizer nesse momento. O que posso garantir é que se trata de outro texto. E Rachel preferiu fazer um segundo texto praticamente reescrevendo tudo, o que não quer dizer que a primeira versão não tenha seu valor. Ela é que considerou que não era provavelmente satisfatório, e aí refez. LL : COMO SE APRESENTA ESSE MATERIAL? JM : Em boas condições. São dois manuscritos preciosos integralmente escritos de próprio punho, na letra dela. LL : COMO O SENHOR AVALIA O BRASIL HOJE EM RELAÇÃO AO CUIDADO QUE O PAÍS TEM COM SUA HISTÓRIA ATRAVÉS DA LITERATURA? JM : Está havendo um progresso no interesse pela conservação do patrimônio histórico. Acho que hoje nós estamos numa posição satisfatória. LL : O SENHOR TEM UMA VISÃO DA PRESERVAÇÃO DE NOSSA LITERATURA EM RELAÇÃO AOS ESTADOS, OU SEJA, A PRESERVAÇÃO DA HISTÓRIA LOCAL? JM : Não, eu não teria condições de avaliar isso. Mas observo nas principais capitais que eu tenho visitado uma preocupação em preservar. E encontro coisas muito bem conservadas. LL : FALA-SE MUITO NO FIM DO LIVRO. A ERA MODERNA COM O ADVENTO DA INTERNET E DO DOWNLOAD TERIA POTENCIAL PARA ACABAR COM O LIVRO EM FUTURO PRÓXIMO? JM : Eu não acredito nisso. Isso é um falso dilema. A informática realiza verdadeiros milagres em termos de comunicação e de obtenção de informações, mas depois, para assimilar o que foi alcançado em matéria de informação tem-se que voltar para o livro. E isso certamente irá continuar. LL : POR QUÊ? O livro tem 550 anos. Não há nada que possa substituir o prazer de folheá-lo, sentir aquele cheirinho de coisa nova, igualmente agradável quando se trata de obra antiga, manusear volumes e texturas diferentes etc. É irresistível. E sempre será...
( Entrevista concedida ao jornalista Cláudio Teran em outubro de 2007) Em 2004, o site da revista Veja publicou uma lista de 100 livros recomendados por José Mindlin. Veja abaixo as obras : ( Fonte : http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/250804/livros_recomendados.html)
Lista de 100 livros recomendados por José Mindlin e onde podem ser lidos na internet Clique no nome do livro para fazer o download. Os títulos em vermelho não estão disponíveis em versão digital.
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Com a morte do bibliófilo 










