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10 de Setembro de 2010
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Image Com a morte do bibliófilo José Midlin o Brasil perde um de seus mais respeitados intelectuais. O LetraseLivros republica em sua homenagem, entrevista exclusiva concedida ao site em 2007.     Veja na íntegra.

ENTREVISTA JOSÉ MINDLIN

 

 

"Viver entre livros é habitar um mundo estranho. Eles parecem pertencer ao reino dos objetos inanimados, mas essa é só uma falsa impressão. Os livros contam histórias e declamam poesia, amam e odeiam, educam, alegram e também traem. Embora possam ficar abandonados por anos a fio são seres quimicamente vivos, matéria em movimento. Exposto à luz natural, o papel torna-se ácido e áspero, as letras perdem o viço e a cor. Manuseado sem o devido respeito, a estrutura arrebenta, a encadernação se fratura. Quando a capa é de couro, deve ser polida com cera - o remédio mais seguro contra a poluição das cidades e a gordura da cozinha. As páginas devem ser limpas, uma a uma, com um pincel bem macio, ao menos uma vez por ano."

Esta longa avaliação mesclada com recomendações é do bibliófilo e empresário José Mindlin, um homem de 93 anos de idade – lúcido e ativo. Vive entre livros, especialmente livros raros, desde os 13. Numa idade em que garotos colecionavam moedas antigas, ele entrou num sebo de São Paulo e comprou o Discurso Sobre a História Universal, escrito em 1.740, pelo bispo francês Jacob Bossuet, um grande prosador de idéias bíblicas. Oitenta anos depois da compra do primeiro exemplar somaram-se mais 30.000, que formam um conjunto belo e primoroso, naquela que é a mais completa biblioteca privada do país, com cacife para competir, no campo das raridades, até com a gigantesca Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.

Advogado diplomado, Mindlin fundou e dirigiu a Metal Leve, uma das gigantes do setor de autopeças por quatro décadas, vendida para uma multinacional. Livre do mundo empresarial virou bibliófilo em tempo integral e não pára de atuar numa atividade que é ao mesmo tempo hobby, vício, e impagável contribuição à cultura. Entre os dias 24 e 26 de outubro passado ele esteve em Fortaleza, participando do III Encontro Nacional de Bibliófilos, e aproveitou a ocasião para revelar que é portador de um manuscrito com a primeira versão – inédita - do romance O Quinze, de Rachel de Queiroz. Pregando a "inoculação do vírus do amor à leitura", o senhor Mindlin concedeu a seguinte entrevista ao Letras & Livros...

LL : QUANDO O SENHOR COMEÇOU A MONTAR SUA BIBLIOTECA?

JM : Eu comecei a montar a biblioteca sem que ela fosse planejada em 1927. Ela completa hoje 80 anos de formação. Eu quando comecei tinha 13 anos de idade. O tempo passou e minha paixão pela literatura só cresceu. Hoje estou com 93 e continuo interessado em livros.

LL : EM MÉDIA OS BRASILEIROS LEEM MENOS DE DOIS LIVROS POR ANO. O QUE O SENHOR ACHA DISSO?

JM : É muito pouco. E como toda média estatística não se pode ter certeza que corresponda a verdade. Há os dois extremos. O mínimo e o máximo. O brasileiro que lê está no meio, mas não sabemos com precisão qual seria o verdadeiro grau de leitura do nosso povo. De qualquer maneira, avaliando-se esses números, é muito pouco. Também é preciso ponderar que grande parte da nossa população não tem suporte financeiro para comprar livros. O Brasil deveria ter mais e melhores bibliotecas públicas. Nos Estados Unidos, por exemplo, não há uma cidadezinha que não tenha uma unidade pública de leitura de acesso fácil.

LL : E O SENHOR QUANTOS LIVROS LÊ POR ANO?

JM : Eu pessoalmente, durante décadas li uma média de cem a cento e vinte livros por ano.

LL : O QUE O SENHOR ESTÁ LENDO ATUALMENTE?

JM : Estou lendo um livro de José Murilo de Carvalho sobre a vida de D. Pedro II.

LL : FALTA ALGUM LIVRO EM SUA BIBLIOTECA?

JM : Não existe biblioteca completa. Há muitos livros que consegui e outros tantos que não ainda não. E é atrás desses que sempre estou.

LL : QUAL É O FUTURO QUE O SENHOR PLANEJOU PARA ESSE ACERVO?

JM : Boa parte (do acervo) devo doar à Universidade de São Paulo. A outra ficará de herança para meus descendentes, filhos, netos e por aí vai. Isso tudo me permite um misto de emoção e pena por conta da separação. Ao mesmo tempo, deixa claro, para mim, que estou fazendo a coisa certa, entregando às gerações futuras a oportunidade de conhecer obras que, por muitas vezes, foram consideradas inexistentes.

LL : SE O SENHOR FOSSE DAR UMA DICA A ALGUÉM QUE QUER APRENDER A GOSTAR DE LER, O QUE RECOMENDARIA?

JM : Penso que uma boa sugestão é começar a freqüentar livrarias, sebos. É nesses últimos que encontramos muita coisa esgotada.

LL : EM RELAÇÃO A ESSE EXEMPLAR DESCONHECIDO DE ‘O QUINZE’, QUAL É A ORIGEM DO MANUNSCRITO?

JM : É um manuscrito inédito, anterior ao original do próprio texto que foi publicado na primeira edição. Eu comprei isso a muitos anos de uma pessoa que tinha recebido de presente. O marido dessa senhora recebeu o manuscrito como um presente das mãos da própria Rachel de Queiroz.

LL : HOUVE ALGUM TIPO DE EXIGÊNCIA DA EX-PROPRIETÁRIA PARA LHE REPASSAR O MANUNSCRITO?

JM : Houve sim. Esta senhora que me repassou o manuscrito só o fez com uma condição: pediu que não mostrasse nem falasse desse documento enquanto a autora estivesse viva, o que naturalmente eu respeitei.

LL : RACHEL SABIA QUE O SENHOR ERA PROPRIETÁRIO DESTE DOCUMENTO HISTÓRICO?

JM : Não. Eu soube muito tempo mais tarde, que certa vez perguntaram a Rachel de Queiroz se ela tinha notícia do paradeiro desses manuscritos e ela afirmou que não sabia onde se encontravam. Então agora que ela não está mais entre nós – o que é um motivo triste – tornou-se importante revelar a existência desse documento que é parte da história da literatura brasileira.

LL : A ESCOLHA DE FORTALEZA PARA ESSA REVELAÇÃO ACABOU SENDO UMA CONSEQUÊNCIA...

JM : Foi premeditada (risos) já que há muito tempo não visitava a capital do Ceará. Achei que a ocasião seria propícia para fazer a revelação, durante a reunião da Associação de Bibliófilos.

LL : EXISTEM DIFERENÇAS EM RELAÇÃO À VERSÃO DE ‘O QUINZE’ QUE TODOS CONHECEM, E ESSE MANUNSCRITO INÉDITO?

JM : Há diferenças grandes, tanto que ela acabou não utilizando esse manuscrito para a publicação do livro.

LL : VALE À PENA TER ESTA VERSÃO PUBLICADA?

JM : Naturalmente há um grande interesse literário de ver a evolução do processo de criação que levou a esta grande obra.

LL : O SENHOR TERIA CONDIÇÕES DE REVELAR ALGO DO CONTEÚDO DO MANUNSCRITO? ALGUMA DIFERENÇA SIGNIFICATIVA EM RELAÇÃO AO ORIGINAL?

JM : Isso é difícil de dizer nesse momento. O que posso garantir é que se trata de outro texto. E Rachel preferiu fazer um segundo texto praticamente reescrevendo tudo, o que não quer dizer que a primeira versão não tenha seu valor. Ela é que considerou que não era provavelmente satisfatório, e aí refez.

LL : COMO SE APRESENTA ESSE MATERIAL?

JM : Em boas condições. São dois manuscritos preciosos integralmente escritos de próprio punho, na letra dela.

LL : COMO O SENHOR AVALIA O BRASIL HOJE EM RELAÇÃO AO CUIDADO QUE O PAÍS TEM COM SUA HISTÓRIA ATRAVÉS DA LITERATURA?

JM : Está havendo um progresso no interesse pela conservação do patrimônio histórico. Acho que hoje nós estamos numa posição satisfatória.

LL : O SENHOR TEM UMA VISÃO DA PRESERVAÇÃO DE NOSSA LITERATURA EM RELAÇÃO AOS ESTADOS, OU SEJA, A PRESERVAÇÃO DA HISTÓRIA LOCAL?

JM : Não, eu não teria condições de avaliar isso. Mas observo nas principais capitais que eu tenho visitado uma preocupação em preservar. E encontro coisas muito bem conservadas.

LL : FALA-SE MUITO NO FIM DO LIVRO. A ERA MODERNA COM O ADVENTO DA INTERNET E DO DOWNLOAD TERIA POTENCIAL PARA ACABAR COM O LIVRO EM FUTURO PRÓXIMO?

JM : Eu não acredito nisso. Isso é um falso dilema. A informática realiza verdadeiros milagres em termos de comunicação e de obtenção de informações, mas depois, para assimilar o que foi alcançado em matéria de informação tem-se que voltar para o livro. E isso certamente irá continuar.

LL : POR QUÊ?

O livro tem 550 anos. Não há nada que possa substituir o prazer de folheá-lo, sentir aquele cheirinho de coisa nova, igualmente agradável quando se trata de obra antiga, manusear volumes e texturas diferentes etc. É irresistível. E sempre será...

 

( Entrevista concedida ao jornalista Cláudio Teran em outubro de 2007)

Em 2004, o site da revista Veja publicou uma lista de 100 livros recomendados por José Mindlin. Veja abaixo as obras :

( Fonte : http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/250804/livros_recomendados.html)

 

Lista de 100 livros recomendados por José Mindlin e onde podem ser lidos na internet

Clique no nome do livro para fazer o download. Os títulos em vermelho não estão disponíveis em versão digital.

Obra

Autor

Pago

Língua

As mil e uma noites

-

x

 

Bagagem 

Adélia Prado

 

 

Le Grand Meaulnes

Alain-Fournier

 

francês

A peste

Albert Camus

 

inglês

Os três mosqueteiros

Alexandre Dumas

 

francês

A ilha dos pingüins

Anatole France

 

inglês

Formação da Literatura Brasileira

Antonio Cândido

 

 

Sermões

Antonio Vieira

 

 

A Torre do Orgulho

Barbara Tuchman

 

 

A Flor do Mal

Baudelaire

 

francês

Teatro

Beaumarchais

x

francês

Adolfo

Benjamin Constant

 

francês

Teatro

Bernard Shaw

 

inglês

Decameron

Boccacio

 

inglês

Poesia

Carlos Drummond de Andrade

 

 

Poesias

Castro Alves

 

 

Poesias

Cecília Meirelles

 

 

Memórias

Cgiacomo Casanova

 

 

Grandes Esperanças

Charles Dickens

 

inglês

Romances e contos

Chekov

 

 

O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos

 

 

Robinson Crusoe

Daniel Defoe

 

inglês

Jacques, o fatalista

Diderot

 

francês

Crime e Castigo

Dostoiewski

 

 

Os Maias

Eça de Queiróz

 

 

Poesia

Elizabeth Barrett Browning

 

inglês

Poesia

Emili Dickinson

 

inglês

O Morro dos Ventos Uivantes

Emily Bronte

 

inglês

O Tempo e o Vento 

Érico Veríssimo

 

 

Teatro

Eschyle

 

francês

Teatro 

Eurípedes

 

 

Poesia

Fernando Pessoa

 

 

Tom Jones

Fielding

x

inglês

O Processo

Franz Kafka

 

 

Cem anos de Solidão

Gabriel García Marquez

 

 

Casa Grande e Senzala

Gilberto Freyre

 

 

Romances

Gogol

 

 

Poesia Completa

Gonçalves Dias

 

 

Vidas Secas

Graciliano Ramos

 

 

Poemas

Gregório de Mattos

 

 

Grande Sertão Veredas

Guimarães Rosa

 

 

Educacion Sentimetal

Gustave Flaubert

 

francês

Contos

Guy de Maupassant

 

francês

Minha Vida de Menina

Helena Morley

 

 

O Lobo da Estepe

Herman Hesse

 

 

Odisséa/Ilíada

Homero

 

 

Comédia Humana

Honoré de Balzac

 

 

Orgulho e Preconceito

Jane Austen

x

inglês

Confissões-Origem da Desigualdade

Jean Jacques Rousseau

 

 

Poesia

João Cabral de Mello Neto

 

 

A Morte e a Morte de Quincas Berro D´agua

Jorge Amado

 

 

A Biblioteca de Babel

Jorge Luis Borges

 

 

O Guarani

Jose de Alencar

 

 

Menino de Engenho

Jose Lins do Rego

 

 

Lord Jim

Joseph Conrad

 

 

Rayuela

Julio Cortazar

 

 

Contos e Novelas

La Fontaine

 

francês

Triste Fim de Policarpo Quaresma

Lima Barreto

 

 

Os Lusíadas

Luís de Camões

 

 

Memórias Póstumas de Braz Cubas

Machado de Assis

 

 

Memórias de Um Sargento de Milícias

Manoel Antonio de Almeida

 

 

Gramática Expositiva do Chão

Manoel de Barros

 

 

Poesia

Manuel Bandeira

 

 

Em Busca do Tempo Perdido

Marcel Proust

 

inglês

Macunaíma

Mario de Andrade

 

 

Teatro

Marivaux

 

francês

Dom Quixote

Miguel de Cervantes

 

 

Teatro

Moliere

 

francês

Ensaios

Montaigne

 

 

Cartas Persas

Montesquieu

 

francês

A Carta Escarlate

Nathaniel Howthorne

 

 

Poesia

Olavo Bilac

 

 

Serafim Ponte Grande

Oswal de Andrade

 

 

Poesias

Paul Eluar

 

 

Poemas

Paul Verlaine

 

francês

Retrato do Brasil

Paulo Prado

 

 

As Memórias

Pedro Nava

 

 

Diálogos

Platão

 

 

O Quinze

Rachel de Queiroz

 

 

O Ateneu

Raul Pompéia

 

 

Poesia

Rimbaud

 

 

Raízes do Brasil

Sergio Buarque de Hollanda

 

 

Teatro

Sófocles

x

espanhol

O vermelho e o negro

Stendhal

 

francês

Tristram Shandy

Sterne

 

 

Gulliver

Swift

 

inglês

A Montanha Mágica

Thomas Mann

x

inglês

Guerra e Paz

Tolstoi

 

espanhol

Romances

Turguenev

 

espanhol

Conversa na Catedral

Vargas Llosa

 

 

Poemas

Vicente de Carvalho

 

 

Os Miseráveis

Victor Hugo

 

 

Poesia

Vinicius de Moraes

 

 

Eneida

Virgílio

 

 

Orlando

Virginia Woolf

x

inglês

Romances

Voltaire

 

francês

Teatro

William Shakespeare

x

inglês

 

Jukebox

DVD Especial

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