| O proselitismo do desamor |
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O proselitismo do desamor Vinicius Tavares Todos sabemos que, numa sociedade que se pretende democrática, a liberdade religiosa e, até mesmo, a liberdade de não crer em nada são invioláveis e inalienáveis. São fundamentos básicos do estado de direito. No entanto, a coisa, para funcionar bem, tem que valer, também, no sentido contrário. Ou seja, crenças religiosas e seus adeptos não devem e não têm o direito de solapar os mesmos fundamentos que, entre outras coisas, garantem a própria liberdade de crença. Daí a extrema necessidade do laicismo incrustado nas constituições do estados modernos. Ocorre que, nesses medíocres tempos pós-modernos, o fundamentalismo religioso, repetidamente, tenta avançar sobre boa parte dos valores libertários penosamente conquistados nos últimos três séculos, ameaçando, dessa forma, tudo aquilo que garante a liberdade e a criatividade nas sociedades democráticas. Seus prosélitos buscam enquadrar a sociedade nos seus limitadíssimos dogmas, os quais não passam de preconceitos religiosos. Alguns podem não gostar, mas, eu considero este estado de coisas como parte da onda de imbecilidades que infestam o mundo neste início de terceiro milênio. Sim, leitores, (porque não dizê-lo?) religiões, em maior ou menor grau, têm algo de imbecil no modo simplista de lidar com as diferentes manifestações do pensamento, das necessidades e das ações humanas. Estas últimas abrangem uma complexidade muito grande para o caminhãozinho dogmático de qualquer denominação religiosa. Felizmente, parodiando um dito notório, o carro da história, inexoravelmente, avança apesar dos latidos dos padres, pastores e aiatolás. De todos os ramos da atividade humana, tem sido a ciência a que mais se confrontou com o preconceito religioso. Para a felicidade da nossa espécie, a tão humana ciência sempre acaba por predominar sobre o obscurantismo. E sabem por quê? Simplesmente porque o fundamento da atividade científica séria (excluo toda a pseudociência) encontra-se firmemente assentado no racionalismo. Ou seja, para uma tese ser considerada científica, ou o sujeito explica porque é ou explica porque não é, ao mesmo tempo em que implora para ser desmentido. Em ciência, ao contrário do que tentam fazer parecer os desonestos que se opõem a ela, a verdade nunca é absoluta. Nada mais racional. Nada melhor para garantir à ciência a necessária e vital flexibilidade para sua contínua renovação. É isso que assegura o seu progresso. Tudo ao contrário da religião. A esta não interessam as contestações, mesmo que cristalinas, mesmo que ensurdecedoras. Nela a verdade é absoluta. Para os adeptos da verdade absoluta, as contradições evidentes são simplesmente..... ignoradas! Fazer o quê? Que fiquem com o absolutismo das suas verdades erguidas na areia da praia desde que não tentem impô-las ao resto da sociedade que não comunga com as suas crenças ordinárias. Mas, para não ser injusto, eu me obrigo a reconhecer que, em uma única e escassa oportunidade, num único lampejo registrado na história do H. sapiens sapiens, o segmento cristão das religiões contribuiu de forma brilhante e poderosa para o aprimoramento humano. Não foi lá uma idéia original visto que, inicialmente, influenciada pelas filosofias orientais canalizadas pelo arrastão macedônio de Alexandre. No entanto, o mérito cristão está na forma eficiente com que disseminou esta idéia pela sociedade greco-romana, a única do mundo antigo suficientemente permeável e apta a catapultar o pensamento humano que, a duras penas, chegaria ao iluminismo. Uma idéia revolucionária: "amai-vos uns aos outros...". Até mesmo a ciência foi obrigada a absorvê-la. Não se faz ciência sem amor ao próximo. O assunto é muito amplo e sujeito a discussões, mas, tudo o que é científico, basicamente, deve se assentar em três princípios: deve explicar coerentemente um fenômeno observado, deve ter capacidade de fazer previsões sobre futuras observações e deve ser passível de refutação (falseabilidade). Que não se animem os fundamentalistas pois até a refutação tem que ser científica. Modestamente, eu acrescentaria o amor como quarto e sub-reptício princípio. Daí a necessidade da ética em toda pesquisa científica. Do contrário, até mesmo a produção científica nazista poderia reclamar o direito à legitimidade, já que, em alguns casos, obedecia formalmente aos três princípios anteriores. O cristianismo fez do amor ao próximo o seu mais vistoso estandarte, embora, na maior parte da sua história, apenas da boca para fora. Mesmo assim, não podemos negar-lhe a contribuição apesar do inegável paradoxo. Mas, como a boca é maior do que aquilo que, necessariamente, deveria emanar da alma para dirigir as ações, os fundamentalistas cristãos não se intimidam de usar estratagemas desonestos para atravancar o indispensável progresso científico que não cabe na vala dos seus preconceitos dogmáticos. Recentemente, o ministro Carlos Ayres Britto, relator da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) que contesta as pesquisas com células-tronco de embriões humanos avisou que colocará o assunto em pauta, para votação pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no início de dezembro. Para tanto, ele deverá concluir o seu voto em breve. Pois muito bem. Confrontados com a iminência da solução jurídica para este imbróglio, os apologistas do juízo final, entre ranger de dentes, já andam a espalhar uma falsa relação entre pesquisa com células-tronco e aborto. Tudo para confundir a opinião pública e pressionar o Supremo a curvar-se perante a sua tacanhez. As pesquisas, no Brasil, estão embargadas por causa desta ação que deverá ser decidida no mês vindouro. Para a porta-voz da Academia Brasileira de Ciências, Mayana Zatz, só há uma forma de enfrentar a situação: pela informação. Ou seja, a doutora quer deixar claro, para o senso comum, que pesquisa com células-tronco e aborto não têm, rigorosamente, nada a ver. Aborto é morte embrionária intra-útero. Os defensores da ciência preconizam o uso de embriões congelados que, de outra forma, serão jogados no lixo pelo desinteresse dos pais em implantá-los. Ao invés de descartá-los, estes embriões, com a autorização dos pais, seriam utilizados para as pesquisas. Assim, os embriões teriam um destino útil, ético e solidário com as pessoas que sofrem e, em muitos casos, destinadas à morte, por serem portadoras de doenças degenerativas ou seqüelas de traumas raquimedulares. Tudo em nome do amor. No entanto, para os ignorantes e os imbecis, o amor só é adequado como instrumento para o proselitismo do fanatismo. Para eles, às favas com a solidariedade. Consideram que o sofrimento destes pacientes fazem parte dos desígnios do deus que eles dizem acreditar. Aos que sofrem, a desumana condenação da resignação. Na soberbia do seu egoísmo e do seu desamor, não se dão conta que estão a crucificar todos os que padecem e, juntamente com cada um deles, o "adorado" Cristo que falhou em ensiná-los. Sinceramente, se Deus existe, tem que ter mesmo um saco onipotente para agüentá-los. Vinicius Tavares é médico e mantém o blog cultural http://olatego.zip.net/ |


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