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10 de Setembro de 2010
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The Beatles - As caixas mono e estéreo PDF Imprimir E-mail
Índice de Artigos
The Beatles - As caixas mono e estéreo
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Image   Índice
Pág. 01 – Os Beatles na cápsula do tempo
Pág. 02 – Mono & Estéreo: o que é isso?
Pág. 03 – Breve faixa a faixa dos álbuns em estéreo
Pág. 04 - Entrevista Allan Rouse
Pág. 05 - "THE BEATLES MONO BOX" A Cereja do Bolo



Image OS BEATLES NA CAPSULA DO TEMPO Boxes Mono & Estéreo Digital

Demorou, mas vivemos para ouvir e ver. 2009 ficará marcado como o ano do ingresso dos Beatles na era digital. Um ingresso em grande estilo, como tudo que envolve a história do grupo há mais de quarenta anos, sempre na vanguarda, ditando regras, modas, tendências e o que virá. A maçã em forma de pen drive abrigando toda a coleção em estéreo e o fantástico game Rock Band são provas cabais de tudo isso. Não se pode dizer, entretanto, que os Fab Four foram pioneiros em tudo, pelo contrário. Entraram consideravelmente atrasados no moderno processo de 'remasterização' digital, atraso que acabou sendo benéfico se levarmos em conta que a digitalização caprichada do catálogo chega ao público na hora e no tempo certo. Para deleite geral.   Uma nova era começa com os novos boxes. O presente momento sepulta o passado analógico de forma praticamente definitiva. Tudo o que reclamávamos e apontávamos como erros, equívocos, anomalias as duas caixas corrigiram - ou melhoraram.

O esmero envolve primordialmente a sonoridade, o que já seria por si um acontecimento e tanto, mas o material dos Beatles relançado seduz também aos olhos pelas espetaculares embalagens absolutamente repaginadas dos discos no Box estéreo, e meticulosamente tratadas nas reproduções 'vintage' do Box mono. É chegada a hora de aposentar todas aquelas coleções alternativas (sempre piratas) tipo MFSL, Dr. Ebbett's e outras que tinham o propósito de tentar recuperar a partir do áudio de velhos vinis, uma sonoridade mais aproximada daquilo que gostaríamos de obter do som dos Beatles no formato digital.

Também podemos esquecer o apressado pacote lançado em 1987 - um erro histórico na transição para a nova era quando a agulha foi substituída pelo feixe de laser.   Não é fácil falar do catálogo dos Beatles se formos nos deter nas minúcias dos lançamentos e relançamentos feitos nesses quarenta anos. Não são poucas as diferenças de mixagem entre países. São incontáveis os erros de edição das gravações ao redor do globo, inclusive em solo inglês. As limitações da mídia vinil em parte são responsáveis por isso. A precariedade técnica também. No Brasil os erros contidos na discografia analógica se tornaram famosos no mundo inteiro. Sem falar nas confusões clássicas dos engenheiros tupiniquins, empurrando ora mixes em falso mono ora em falso estéreo, e até inventando edições!
Quem ouve Beatles desde a era dos long plays (LPs) passou a conviver com os 'defeitos' contidos nos discos como se fossem 'efeitos', e para ficarmos em três casos basta lembrar a versão de Revolution 1 com rotação adulterada tipo pitch doido e oscilante do primeiro Álbum Branco brasileiro. Mesma coisa com o mix de Penny Lane do disco Beatles Forever com aquela incrível falha, um 'pulo' de agulha 'prensado' oficialmente. E a caída de áudio em I'm Looking Through You do nosso Rubber Soul? Em graus maiores ou menores, os fãs se acostumaram com essas peculiaridades. Erros, defeitos e anomalias contidas nos mixes dos compactos de vinil também chamaram atenção ao longo das últimas quatro décadas. E o que dizer da coleção norte-americana da Capitol Records e sua máxima criação, o Full Dimensional Stereo, nome pomposo para justificar a excrescência de se jogar graves para um lado, agudos para o outro, e muito eco no meio, uma inaceitável adulteração dos originais que a Capitol recebia prontos da EMI inglesa.   São fatos de um passado que não se apaga. Os dois boxes que ora se apresentam a curiosidade do mundo estão longe de serem encarados ou minimizados como 'mais do mesmo'. E não precisa ser 'audiófilo' para constatar que os relançamentos têm sim um claro objetivo, levar o mundo a (re) ouvir Beatles daqui para frente como nunca se ouviu antes, agradando os neófitos e os mais calejados.

A Apple/EMI não assume isso publicamente, mas a idéia foi em linhas gerais essa mesma. Unificar a forma de ouvir Beatles em todo o planeta. “O que fazia parte da execução ficou. Tudo o que consideramos problema técnico como cliques sibilos, estalos, má edição, quedas no volume tentamos melhorar, ou se possível remover ou consertar”, revela Allan Rouse, o cara que comandou a força-tarefa de engenheiros e técnicos que trabalhou arduamente para restituir a glória de se ouvir Beatles.   A digitalização, segundo a EMI, aconteceu música a música, num processo que dedicou cuidados especiais como nunca antes se fez ao resultado final. Assim, um sujeito como eu com 47 anos de idade e ouvidos treinados - com experiência de ouvir Beatles em compactos simples, duplos, fitas cassete, fitas de rolo, LPs e CDs oficiais e piratas - pode dizer que os remasters são tudo e mais alguma coisa. Não temos mais aquele falso estéreo com um canal predominantemente abafado num dos lados. O volume geral das canções não distorce. Pelo contrário. Experimente sozinho com seu equipamento, aumentar o som prá valer e você perceberá a diferença.

Outra questão que entra pelos ouvidos é a nitidez. Mesmo nos dois primeiros discos gravados em apenas dois canais de áudio, o resultado é excelente.   Nesse aspecto vale sempre repisar uma verdade. Os Beatles gravavam muito bem. George Martin sempre será lembrado como o quinto beatle verdadeiramente porque foi ele o cara que teve a sensibilidade exata para capturar em fitas aquilo que aconteceu ao longo de oito anos de história nos estúdios Abbey Road. Se John, Paul, George & Ringo tinham o poder de gerar uma química única na hora de produzir músicas, eles tinham em Martin o homem por trás do mito. Um bom (e polêmico) grau de comparação pode ser feito com os Rolling Stones. Quantas remasterizações do trabalho dos 'rivais' dos Beatles foram feitas? Experimente escutar com atenção a técnica de gravação de álbuns das duas bandas lançados em 1965 e ficará bem simples perceber que os Stones não conseguiram registrar bem o som da bateria, do baixo e das guitarras de um clássico como Let's Spend the Night Together. Compare com You're Going to Lose That Girl, onde Ringo Starr registrou uma bateria espetacular, bem definida e com direito a overdubs de bongôs. Em que pesem todas as dificuldades daquela época para a captura do áudio da percussão. Então essas sutis diferenças também têm um papel na cápsula do tempo. Bem gravados para a posteridade, os Beatles começam uma nova história na era digital. Podemos escutá-los sem medo agora, e sem precisar de comparativos com as versões em vinil, até porque se a origem é analógica, o resultado final a rodar em nosso player é o 'estado da arte' da solução digital.

Também temos à disposição, pela primeira vez na era digital, as mixagens em mono, um luxo de sabor especial porque finalmente saem oficialmente em CD as gravações da forma como realmente importava para os Beatles. Estereofonia na década de 60 era coisa para o futuro, um modernismo que não se sabia se um dia iria de fato 'pegar'. Emissoras de Rádio como a BBC, por exemplo, não as executavam. Também não havia disponível equipamento receptor daquele então novo modelo de irradiação de música. Dessa forma as atenções da indústria fonográfica continuavam voltadas para o sistema monoaural. O mono era o rei. E continuará reinando, porque agora nós fãs já podemos estabelecer comparativos digitais entre as mixagens mono e estéreo da coleção dos Fab Four de Liverpool, numa nova página da história. É por isso que me atrevo iniciar esse trabalho propondo a todos os fãs um ingresso definitivo e com os dois pés na nova era.   

Aos mais velhos, um conselho: estamos envelhecendo com essas canções. Mas como elas, temos a missão de não ficar velhos. Nesse caso comece a compreender (e aceitar) o novo mundo que se descortina diante dos olhos e ouvidos. Quando essas gravações foram registradas, não se sabia quanto tempo os Beatles iriam durar. Quem poderia vislumbrar em 1963 (quando Please Please Me e With the Beatles saíram do forno) que um dia, quarenta e tantos anos depois, modernizar a forma de ouvir essas antigas produções sem adulterar sua essência, viraria acontecimento (e exigência) mundial? Não nos custa adotar e compreender o estilo passivo dos técnicos da EMI após a conclusão do hercúleo trabalho de transportar os Beatles para a era digital. Eles nem pensaram na perspectiva do CD. Imaginaram fãs que não tem discos físicos em casa. Trabalharam com o pensamento voltado para aqueles que simplesmente 'baixarão' Beatles para seus iPods e outros sistemas de download. Alguns desses mesmos técnicos brincavam dentro dos estúdios com as guitarrinhas de plástico criadas pela produtora Harmonix como joysticks especialíssimos para se jogar outro sopro de contemporaneidade, o The Beatles Rock Band.   Meu filho de 19 anos jamais utilizou um LP na vida e estranha que se ouvisse música daquele jeito tão precário no passado, empunhando seu mp4 que eu jamais soube ligar ou fazer funcionar. Contei a ele que quando eu tinha 19 anos o mundo perdia John Lennon, e eu fiquei a esperar por meses pelo lançamento do LP Double Fantasy para ouvir as novas canções que o ex-beatle legava ao mundo após cinco anos voluntários de reclusão.

Estendi-me um pouco mais dizendo a ele que quando a minha geração tinha 19 anos a gente voltava para casa com o LP novo debaixo do braço, sentava na cama entre as caixas do 'três-em-um' estéreo e colocava o 'bolachão' para rodar enquanto devorava o encarte com as informações técnicas. E também cantarolava as letras das novas canções, quando disponíveis. Não existia download, nem internet. Só as rádios conseguiam por ação geralmente das gravadoras, antecipar algum iminente lançamento.   Esses mundos distintos se aproximam agora diante de uma caixa branca e outra preta, os mixes dos Beatles chegam ao século vinte e um de roupa nova, impecáveis, prontos para adentrar com uma qualidade de 'nunca antes' nos ouvidos de todos. Fãs de ontem e de hoje na mesma cápsula do tempo. Just like starting over...


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