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3 de Setembro de 2010
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A menina que roubava livros, Markus Zusak PDF Imprimir E-mail

Image O que dizer de um livro onde, logo em suas primeiras páginas a narradora diz: "Eis um pequeno fato: você vai morrer". Não, não se assuste com a afirmação pois, apesar de realmente ser proferida ... ( leia mais)

Resenha 1

A menina que tecia a vida com as palavras

Raros autores revelam uma poética tão inteligente, refinada, bem-humorada e sarcástica como Markus Zusak. A poesia que perpassa "A Menina que Roubava Livros" emociona o leitor sem ser piegas, desperta nele tanto alegria como tristeza, tanto revolta, quanto um certo conforto moral. Há muito tempo o escritor pensava em escrever sobre um personagem que furtava livros, mas sua idéia ainda não estava amadurecida. Quando pensou em unir este desejo ao de retratar o que seus pais haviam experimentado na época do Nazismo, nasceu este livro inesquecível.

Markus destaca neste romance a importância das palavras em um dos momentos mais dolorosos já vividos pela Humanidade. Realmente, ao lado da protagonista, Liesel Meminger, e de seu companheiro de aventuras Rudy Steiner, brilham as palavras, personagens especiais deste enredo, sempre no centro da ação, nas entrelinhas ou na tessitura da narrativa. Palavras que constroem e destroem, que Liesel ama e odeia. As cores também se sobressaem nesta história que se passa na época do Nazismo, em plena Alemanha hitleriana, narrada por ninguém menos que a Morte, sob o ponto de vista desta e com seus comentários geniais intercalados à narrativa. Aliás, esta narradora tem um jeito bem peculiar de interpretar as lembranças de Liesel, gravadas em seu diário – na verdade um livro, no qual a menina se reconcilia com as palavras e grava a essência de sua existência -, perdido durante a Guerra e resgatado pela Morte, que o traduz ao leitor.

Para a narradora, não importa saber o que vai ocorrer no final do romance, o mistério suspenso, mas sim o trajeto narrativo e toda a riqueza inerente a ele – os recursos estilísticos, a prosa poética, a magia oculta nas entrelinhas, a emoção e o humor inusitado que se revelam aqui e ali, as surpresas lingüísticas, as tiradas metanarrativas, muitas vezes irônicas, doadas ao leitor pelo autor, através de sua narradora. Desta forma, o escritor questiona a narrativa tradicional, os mecanismos estratégicos que geram e mantêm o suspense, até a solução final do enigma, os quais condicionam a história à resolução deste, desprezando muitas vezes o valor da narração, as riquezas que dela podem ser extraídas. O autor propõe aqui uma valorização do percurso, dos recursos narrativos, da apropriação da linguagem como o próprio núcleo do enredo.

Nesta obra, o autor, através da Morte, tenta provar a si mesmo e ao leitor que a vida, apesar de tudo, vale a pena. Ele se confronta com os fantasmas de seu próprio passado, presentes na trajetória de sua família durante o Nazismo. Reflexões inusitadas, de pura ironia lírica, conquistam os que lêem este romance, desde as primeiras linhas, quando se percebe claramente quem é a contadora desta e de outras histórias, e qual é o seu estilo. Mesmo assim, pode-se dizer que cada etapa da leitura nos surpreende e encanta, até quando acreditamos que o autor já esgotou toda a sua capacidade criativa. Passagens como "As labaredas cor de laranja acenavam para a multidão, à medida que papel e tinta se dissolviam dentro delas. Palavras em chamas eram arrancadas de suas frases", referentes a uma fogueira de livros proibidos, dão espaço a outras ainda mais poéticas e irônicas. Elas se sucedem na tentativa de transmitir ao leitor o clima perturbador que pairava sobre a Alemanha Nazista.

Os caminhos da Morte e de Liesel Meminger se cruzam três vezes entre 1939 e 1943. Mas Liesel é uma sobrevivente, o que impressiona a ceifadora de vidas. Assim esta, fascinada pela garota, decide narrar sua história, ao se apropriar involuntariamente de seu diário. Esta narrativa é apenas uma entre as que a Morte poderia contar, escolhida no acervo de experiências que ela transporta em si, tentando compreender a natureza humana e a importância de sua existência. Liesel também está em busca do sentido de tudo que vive, em meio à miséria, à morte e à destruição. Nesta cruzada pela compreensão da essência da vida, a garota é guiada pelas palavras, que coincidentemente ou não a perseguem desde sua primeira perda, a do irmãozinho que ela vê morrer a seu lado, em um trem no qual é levada para uma nova vida, não necessariamente desejada por ela. Neste momento, ela se encontra diante da primeira oportunidade de furtar um livro, e é justamente a companhia das histórias que dão à menina, no centro da destruição provocada pela guerra - que oferece à Morte um trabalho redobrado -, um eixo de sustentação e um certo sentido para sua existência.

Todos um dia terão um encontro marcado com a narradora desse livro, mas apenas Liesel Meminger tem o privilégio de ter sua história narrada por ela. Mas também não é qualquer um que sobrevive a uma guerra como esta, vendo tudo e todos desabarem à sua volta, não é qualquer uma que amadurece e permanece viva ao encontrar um propósito maior para sua vida, justamente nas páginas de um livro, ou posteriormente, de um diário. Sim, parece que a Morte, ao contrário de todos os prognósticos, tem coração, e o revela ao escolher a trajetória de Liesel para transmitir ao leitor. Aliás, há muitas passagens em que esta narradora revela seu lirismo, sua ternura, seus cuidados com almas exaustas e envenenadas pela dor e pela crueldade da Guerra, até mesmo sua indignação e revolta com os extremos da desumanidade que atingem os requintes nazistas. Nestes momentos, a Morte, que é uma ótima observadora, percebe reflexos desta ideologia bárbara na própria Natureza, ora na "fuga das próprias nuvens", ora nos contornos loiros do Sol ou no imenso e assustador "olho azul do ar" que não se consegue mais respirar.

Outras histórias dentro da história aparecem ao longo do enredo – as dos livros roubados pela Menina, as dos que ela ganha em seus aniversários, desde as narrativas inerentes ás obras até as que envolvem seu furto ou a forma como foram presenteados - cigarros trocados por livros, ou histórias escritas e pintadas em um livro como o "Mein Kampf" ("Minha Luta"), de Adolph Hitler. Cada uma destas estórias é um retrato a seu modo da Alemanha Nazista, e enriquece ainda mais a narrativa principal. Cores, desenhos, palavras, livros, aventuras vividas por Liesel e Rudy, amizades construídas sobre a dor, a miséria, a luta pela sobrevivência, como a da garota e seu pai adotivo, Hans, e a da menina com Max, um judeu que cruza sua vida e a marca definitivamente. Desta forma o autor vai tecendo o panorama desta época sombria, compondo seus contornos cada vez mais macabros, mas também permeados por aventuras infantis e sentimentos nobres.

Markus Zusak é um escritor que se revela cada vez mais brilhante. Autor de "Fighting Ruben Wolfe", "Getting the Girl" e "I Am the Messenger", recebidos com aclamação pela crítica, obteve o Prêmio Livro do Ano para Leitores mais Velhos, doado pelo Conselho Australiano de Livros Infantis. Este australiano de 32 anos mora atualmente em Sydney, na Austrália. Com certeza ele consagra sua carreira com "A Menina que Roubava Livros", um romance inusitado, poético, arrebatador. Impossível parar de ler, ainda mais difícil esquecê-lo.

Por Ana Lúcia Santana

Resenha 2 ) Roubando pra saldar uma divida com a vida

Australiano cria uma história que promete agradar jovens e adultos

O jovem australiano Markus Zusak une em "A menina que roubava livros" (The book thief, tradução de Vera Ribeiro, Intrínseca, 500 pp, R$39,90), a literatura infanto-juvenil, no melhor estilo Harry Potter e a atual ficção adulta, lembrando ao mesmo tempo, o já citado Potter e "O Diário de Anne Frank". Um livro que explora com habilidade a miséria humana e celebra o poder da linguagem numa narrativa fascinante e uma linguagem inovadora.

O livro de Zusak conta as aventuras e desventuras de uma menina, uma vencedora, uma sobrevivente do Holocausto e seus encontros com a morte. Uma história reveladora, simbólica, divertida, engraçada, abstrata e metafórica, contada pela Morte, uma macabra narradora que o autor escolheu para dar um passeio às pequenas histórias que definem a grandiosidade do ser humano. Ambientada em 1939, na Alemanha nazista, no momento que a menina é abandonada por sua mãe, para não morrer em um campo de concentração, entregue a um casal alemão da cidadezinha de Molching, perto de Munique, onde sofre nas mãos de sua mãe, uma espécie de madrasta. Durante os anos de 1939 e 1943, por três vezes encontrou a morte e por três vezes a venceu.

Markus Zusak ganhou notoriedade a partir desse livro, com apenas 31 anos, figurou durante 43 semanas na lista de best sellers do jornal "The New York Times". Inspirado nas conversas que Mark ouvia de seus pais sobre a infância na Alemanha - a ascensão de Hitler, o fanatismo nazista e o Holocausto.

Lembrando a narrativa fictícia de Lemony Snickett, autor de Desventuras em série, porém com menos sagacidade, Zusak coloca a personificação da própria Morte no papel de narradora. Em uma linguagem inteligente, a "ceifadora de almas" constrói junto ao leitor uma relação de respeito e admiração, como uma storytelling – contadora de histórias – ela não se coloca com um mal irremediável, mas a gentil passagem para o fim da vida. E é com um aviso que ela começa sua história, "Eis um pequeno fato: você vai morrer", pesarosa narra a vida de uma sobrevivente, daquelas sobreviventes perpetuas, uma especialista em ser deixada para trás, uma menina que roubava livros de nome Liesel Meminger. Sobre sua história, a morte escreve pra o seu leitor "É uma dentre muitas que carrego cada qual extraordinária por si só. Cada qual uma tentativa – uma tentativa que é um salto gigantesco – de me provar que você e a sua existência humana valem a pena.".

É possível sentir-se oprimido e impressionado em alguns momentos do romance, mas o impacto que ele causa é a sua própria força. Inovador na sua linguagem, o autor alterna a linearidade narrativa com antecipações de fatos da própria história.

A menina que roubava livros é um conto longo e envolvente, pontuado pelos comentários da narradora. Uma história audaciosa que com certeza se tornará um clássico da literatura mundial e ler-se-á admirando extensamente o cenário perfeito em que os livros se transformam em tesouros e que resistiram à tirania, ao medo e à morte.

Um dos melhores livros já publicados até agora, recomendado para todos os pais e indicado para todos os adolescentes e jovens, todos irão se surpreender com a menina Liessel.

Cadorno Telles

Resenha 3

O que dizer de um livro onde, logo em suas primeiras páginas a narradora diz: "Eis um pequeno fato: você vai morrer". Não, não se assuste com a afirmação pois, apesar de realmente ser proferida pela própria Morte, você tem nas mãos uma história criada para virar um clássico. "É a história de um desses sobreviventes perpétuos, uma especialista em ser deixada para trás". A sobrevivente chama-se Liesel Meminger, uma menina que, abandonada pela mãe, para não morrer igual a ela, nas mãos dos nazistas, acaba entregue a um casal alemão numa cidadezinha perto de Munique, em 1939. Entre este ano e 1943, por três vezes Liesel encontrou a morte e por três vezes a venceu. A narradora, derrotada, explica: "É só uma pequena história, na verdade, sobre, entre outras coisas, uma menina, algumas palavras, um acordeonista, uns alemães fanáticos, um lutador judeu e uma porção de roubos... mas quando a morte conta uma história você deve parar para ouvir". O autor dessa pequena obra prima tem apenas 31 anos, chama-se Markus Zusak é australiano, e conseguiu com uma habilidade impar construir um libelo contra a tirania e o medo, usando para isso a linguagem, o amor aos livros e a palavra como sua principal arma. É conhecido por sua obra dirigida ao público infanto-juvenil, como o premiado "I Am the Messenger". Do Conselho Australiano de Livros Infantis, recebeu o Prêmio Livro do Ano para Leitores Mais Velhos. " A menina que roubava livros" está há 43 semanas na lista dos mais vendidos do New York Times. Encante-se.

 

( release da editora)

Entre 1939 e 1943, Liesel Meminger encontrou a Morte três vezes. E saiu suficientemente viva das três ocasiões para que a própria, de tão impressionada, decidisse nos contar sua história, em 'A menina que roubava livros'. Desde o início da vida de Liesel na rua Himmel, numa área pobre de Molching, cidade desenxabida próxima a Munique, ela precisou achar formas de se convencer do sentido de sua existência. Horas depois de ver seu irmão morrer no colo da mãe, a menina foi largada para sempre aos cuidados de Hans e Rosa Hubermann, um pintor desempregado e uma dona-de-casa rabugenta. Ao entrar na nova casa, trazia escondido na mala um livro, 'O manual do coveiro'. Num momento de distração, o rapaz que enterrara seu irmão o deixara cair na neve. Foi o primeiro dos vários livros que Liesel roubaria ao longo dos quatro anos seguintes. E foram esses livros que nortearam a vida de Liesel naquele tempo, quando a Alemanha era transformada diariamente pela guerra, dando trabalho dobrado à Morte. O gosto de roubá-los deu à menina uma alcunha e uma ocupação; a sede de conhecimento deu-lhe um propósito. E as palavras que Liesel encontrou em suas páginas e destacou delas seriam mais tarde aplicadas ao contexto da sua própria vida, sempre com a assistência de Hans, acordeonista amador e amável, e Max Vanderburg, o judeu do porão, o amigo quase invisível de quem ela prometera jamais falar. Há outros personagens fundamentais na história de Liesel, como Rudy Steiner, seu melhor amigo e o namorado que ela nunca teve, ou a mulher do prefeito, sua melhor amiga que ela demorou a perceber como tal. Mas só quem está ao seu lado sempre e testemunha a dor e a poesia da época em que Liesel Meminger teve sua vida salva diariamente pelas palavras, é à nossa narradora. Um dia, todos irão conhecê-la. Mas ter a sua história contada por ela é para poucos. Tem que valer a pena.

MENINA QUE ROUBAVA LIVROS, A
Autor: Markus Zusak
Editora: Intrinseca
ISBN :  8598078174
ISBN-13:  9788598078175
Livro em português
Brochura
1ª Edição - 2007 - 500 pág.

trecho

p r ó l o g o

Uma c o r d i l h e i r a

d e e s c omb r o s

o n d e n o s s a n a r r a d o r a

a p r e s e n t a :

ela mesma

as cores

e a roubadora de livros

M o r t e e C h o c o l a t e

Primeiro, as cores.

Depois, os humanos.

Em geral, é assim que vejo as coisas.

Ou, pelo menos, é o que tento.

. e i s u m p e q u e n o f a t o .

Você vai morrer.

Com absoluta sinceridade, tento ser otimista a respeito de todo esse assunto, embora a maioria das pessoas sinta-se impedida de acreditar em mim, sejam quais forem meus protestos. Por favor, confie em mim. Decididamente, eu sei ser animada, sei ser amável. Agradável. Afável. E esses são apenas os As. Só não me peça para ser simpática. Simpatia não tem nada a ver comigo.

. r e a ç ã o a o f a t o s u p r a c i t a d o .

Isso preocupa você?

Insisto — não tenha medo.

Sou tudo, menos injusta.

- É claro, uma apresentação.

Um começo.

Onde estão meus bons modos?

Eu poderia me apresentar apropriadamente, mas, na verdade, isso não é necessário. Você me conhecerá o suficiente e bem depressa, dependendo de uma gama diversificada de variáveis. Basta dizer que, em algum ponto do tempo, eu me erguerei sobre você, com toda a cordialidade possível. Sua alma estará em meus braços. Haverá uma cor pousada em meu ombro. E levarei você embora gentilmente. Nesse momento, você estará deitado(a). (Raras vezes encontro pessoas de pé.) Estará solidificado(a) em seu corpo. Talvez haja uma descoberta; um grito pingará pelo ar. O único som que ouvirei depois disso será minha própria respiração, além do som do cheiro de meus passos.

A pergunta é: qual será a cor de tudo nesse momento

em que eu chegar para buscar você? Que dirá o céu?

Pessoalmente, gosto do céu cor de chocolate. Chocolate escuro, bem escuro. As pessoas dizem que ele condiz comigo. Mas procuro gostar de todas as cores que vejo — o espectro inteiro. Um bilhão de sabores, mais ou menos, nenhum deles exatamente igual, e um céu para chupar devagarinho. Tira a contundência da tensão. Ajuda-me a relaxar.

. u m a p e q u e n a t e o r i a .

As pessoas só observam as cores do dia no começo e no fim, mas, para mim, está muito claro que o dia se funde através de uma multidão de matizes e entonações, a cada momento que passa.

Uma só hora pode consistir em milhares de cores diferentes.

Amarelos céreos, azuis borrifados de nuvens. Escuridões enevoadas.

No meu ramo de atividade, faço questão de notá-los.

Já que aludi a ele, o único dom que me salva é a distração. Ela preserva minha sanidade. Ajudame a agüentar, considerando-se há quanto tempo venho executando este trabalho. O problema é: quem poderia me substituir? Quem tomaria meu lugar, enquanto eu tiro uma folga em seus destinospadrão de férias, no estilo resort, seja ele tropical, seja da variedade estação de inverno? A resposta, é claro, é ninguém, o que me instigou a tomar uma decisão consciente e deliberada — fazer da distração minhas férias. Nem preciso dizer que tiro férias à prestação. Em cores.

Mesmo assim, é possível que você pergunte: por que é mesmo que ela precisa de férias? De que precisa se distrair?

O que me traz à minha colocação seguinte.

São os humanos que sobram.

Os sobreviventes.

É para eles que não suporto olhar, embora ainda falhe em muitas ocasiões. Procuro deliberadamente as cores para tirá-los da cabeça, mas, vez por outra, sou testemunha dos que ficam para trás, desintegrando-se no quebra-cabeça do reconhecimento, do desespero e da surpresa. Eles têm corações vazados. Têm pulmões esgotados.

O que, por sua vez, me traz ao assunto de que lhe estou falando esta noite, ou esta manhã, ou seja lá quais forem a hora e a cor. É a história de um desses sobreviventes perpétuos — uma especialista em ser deixada para trás.

É só uma pequena história, na verdade, sobre, entre outras coisas:

Uma menina

Algumas palavras

Um acordeonista

Uns alemães fanáticos

Um lutador judeu

E uma porção de roubos

Vi três vezes a menina que roubava livros.

A o l a d o d a l i n h a f é r r e a

Primeiro aparece uma coisa branca. Do tipo ofuscante. É muito provável que alguns de vocês achem que o branco não é realmente uma cor, e todo esse tipo batido de absurdo. Bem, estou aqui para lhes dizer que é. O branco é sem dúvida uma cor e, pessoalmente, acho que você não vai querer discutir comigo.

. u m a n ú n c i o t r a n q ü i l i z a d o r .

Por favor, mantenha a calma, apesar da ameaça anterior.

Sou só garganta...

Não sou violenta.

Não sou maldosa.

Sou um resultado.

Sim, era branco.

Era como se o globo inteiro estivesse vestido de neve. Como se houvesse enfiado aquilo, do jeito que se enfia um suéter. Junto à linha de trem, as pegadas afundavam até as canelas. As árvores usavam cobertores de gelo.

. . .

Não podiam simplesmente deixá-lo ali no chão. De momento, não era um problema tão grande, mas, logo, logo, a linha seria desobstruída mais adiante e o trem precisaria seguir viagem. Havia dois guardas.

Havia uma mãe com sua filha.

Um cadáver.

A mãe, a menina e o cadáver continuaram obstinados e calados.

-Bem, o que mais você quer que eu faça?

Os guardas eram um alto e um baixo. O alto sempre falava primeiro, embora não fosse o responsável. Olhava para o menor, mais rechonchudo. O do rosto vermelho e suculento.

-Bem — foi a resposta — não podemos só deixá-los assim, não é?

O alto estava perdendo a paciência. — Por que não?

E o baixote por pouco não explodiu. Ergueu os olhos para o queixo do altão e gritou:

-Spinnst du?! Você está variando? – A aversão em suas bochechas adensava-se a cada momento. Sua pele foi-se alargando. — Vamos — disse, tropeçando na neve. — Levaremos todos os três de volta, se for preciso. Faremos a notificação na próxima parada.

Quanto a mim, eu já havia cometido o mais elementar dos erros. Não consigo lhe explicar a intensidade de minha decepção comigo mesma. Originalmente, eu tinha feito tudo certo:

Estudei o céu ofuscante, branco feito neve, que

estava na janela do trem em movimento. Praticamente

o inalei, mas, mesmo assim, titubeei. Cedi

- fiquei interessada. Na menina. Fui vencida pela curiosidade e me resignei a ficar o tempo que meu horário permitisse, e observei.

Vinte e três minutos depois, quando o trem estava parado, desci com eles.

Havia uma alminha em meus braços.

Postei-me meio à direita.

A dupla dinâmica de guardas do trem voltou à mãe, à menina e ao corpinho masculino. Lembrome claramente de que estava respirando alto nesse dia. Fiquei surpresa com o fato de os guardas não me notarem ao passarem por mim. Agora o mundo estava afundando, sob o peso de toda aquela neve. Uns dez metros à minha esquerda, talvez, postavase a menina pálida, de estômago vazio, enregelada. Sua boca tremia.

Seus braços frios estavam cruzados. Havia lágrimas cristalizadas no rosto da roubadora de livros.

O e c l i p s e

Depois vem uma assinatura preta, para mostrar os pólos da minha versatilidade, se assim lhe agrada. Foi no momento mais escuro antes do alvorecer. Dessa vez, eu tinha ido buscar um homem de uns vinte e quatro anos, talvez. De certo modo, foi uma coisa bonita. O avião ainda tossia. A fumaça vazava de seus dois pulmões.

Quando ele caiu, fez três sulcos profundos na terra. Agora suas asas eram braços serrados. Nada de bater, nunca mais. Não para aquela avezinha metálica.

. o u t r o s p e q u e n o s f a t o s .

Às vezes eu chego cedo demais.

Apresso-me,

e algumas pessoas se agarram por mais tempo à vida do que seria esperável.

Após uma pequena coleção de minutos, a fumaça se esgotou. Não restava mais nada para acontecer. Primeiro chegou um menino, com a respiração desordenada e o que parecia ser uma caixa de ferramentas. Com grande inquietação, aproximou-se do cockpit e observou o piloto, avaliando se estava vivo, o que aliás ainda estava, àquela altura. A roubadora de livros chegou talvez trinta segundos depois. Anos se haviam passado, mas eu a reconheci.

Estava arfante.

Da caixa de ferramentas, o menino tirou, quem havia de imaginar, um ursinho de pelúcia. Estendeu a mão pelo pára-brisa partido e o colocou no peito do piloto. O ursinho sorridente sentouse, aninhado entre os destroços amontoados do homem e o sangue. Minutos depois, arrisquei a sorte. Era o momento certo.

Entrei, soltei a alma dele e a levei embora gentilmente. Só restaram o corpo, o cheiro minguante de fumaça e o ursinho de pelúcia sorridente.

Quando chegou toda a multidão, é claro que as coisas haviam mudado. O horizonte começava a se acinzentar. O que restava de negrume no alto já não passava de um rabisco, e desaparecia depressa. O homem, em comparação, estava cor de osso.

Pele cor de esqueleto. Uniforme amarrotado. Tinha

os olhos frios e castanhos — feito manchas de

café —, e a última garatuja lá do alto formou o que me pareceu ser uma forma curiosa, mas conhecida. Uma assinatura.

A multidão fez o que fazem as multidões. Enquanto eu passava, cada pessoa ficou brincando com a quietude daquilo. Uma pequena mistura de movimentos desconexos das mãos, frases abafadas e guinadas mudas, constrangidas. Quando me virei e olhei para o avião, a boca aberta do piloto parecia sorrir.

Uma última piada obscena.

Mais um final de piada humano.

Ele continuou amortalhado em seu uniforme, enquanto a luz mais cinzenta fazia uma queda de-braço no céu. Como acontecia com muitos outros, quando comecei a me afastar, pareceu haver de novo uma sombra ligeira, um instante final de eclipse — o reconhecimento da partida de outra alma.

Sabe, assim por um momento, apesar de todas as cores que afetam e se atracam com o que vejo neste mundo, comigo é freqüente captar um eclipse quando morre um ser humano.

Já vi milhões deles.

Vi mais eclipses do que gosto de lembrar.

A b a n d e i r a

Na última vez que a vi, estava vermelho. O céu parecia uma sopa, borbulhando e se mexendo. Queimado em alguns lugares. Havia migalhas pretas e pimenta riscando a vermelhidão.

Antes, houvera crianças pulando amarelinha ali, na rua que lembrava páginas manchadas de gordura. Quando cheguei, ainda era possível ouvir seu eco. Os pés batendo no chão. As vozes infantis rindo, e os sorrisos feito sal, mas se estragando depressa. Depois, bombas.

Dessa vez, foi tudo tarde demais.

As sirenes. Os gritos malucos no rádio. Tudo muito tarde.

Em minutos, montes de concreto e terra se superpuseram e empilharam. As ruas eram veias rom14 pidas. O sangue escorreu até secar no chão e os cadáveres ficaram presos ali, feito madeira boiando depois da enxurrada.

Estavam colados no chão, até o último deles.

Um pacote de almas.

Seria o destino?

O azar?

Foi isso que os grudou assim?

É claro que não.

Não sejamos burros.

Provavelmente, teve mais a ver com as bombas atiradas, lançadas por seres humanos escondidos nas nuvens.

Sim, agora o céu era de um vermelho devastador, desses feitos em casa. A cidadezinha alemã fora rasgada com violência, mais uma vez. Flocos de neve feitos de cinzas caíam tão encantadoramente, que a gente ficava tentada a espichar a língua para pegá-los, prová-los. Só que eles queimariam os lábios. Cozinhariam a boca.

Claramente, eu vi.

Estava prestes a ir embora, quando a encontrei ajoelhada.

Uma cordilheira de escombros fora escrita, desenhada, erigida à sua volta. Ela estava agarrada a um livro.

Afora todo o resto, a menina que roubava livros queria desesperadamente voltar para o porão, escrever ou ler sua história até o fim, uma última vez.

Olhando para trás, vejo tudo muito óbvio em seu rosto. Ela morria de saudade daquilo — da segurança, da familiaridade —, mas não conseguiu se mexer. Além disso, o porão já nem existia. Era parte da paisagem mutilada.

Por favor, mais uma vez, peço-lhe que acredite em mim.

Tive vontade de parar. Agachar-me.

Tive vontade de dizer:

- Sinto muito, menina.

Mas isso não é permitido.

Não me agachei. Não falei.

Em vez disso, observei-a por algum tempo.

Quando ela conseguiu se mexer, acompanhei-a.

. . .

Ela deixou cair o livro.

Ajoelhou-se.

A roubadora de livros uivou.

Seu livro foi pisoteado várias vezes quando começaram a limpeza e, embora tivesse havido ordens de que se limpasse apenas a confusão de concreto, o objeto mais precioso da menina foi jogado num caminhão de lixo, e foi nesse ponto que me senti obrigada. Subi na caçamba e o peguei com minha mão, sem me dar conta de que o guardaria e o olharia milhares de vezes, ao longo dos anos. Observaria os lugares em que nos cruzássemos e me deslumbraria com o que a menina viu e a maneira como sobre16 viveu. Isso é o melhor que posso fazer — ver aquilo se encaixar em tudo o mais de que fui espectadora naqueles tempos.

Quando me lembro dela, vejo uma longa lista de cores, mas são as três em que a vi em carne e osso que têm mais ressonância. Vez ou outra, consigo flutuar muito acima daqueles três momentos. Fico suspensa, até que uma verdade séptica sangra para a claridade.

É aí que as vejo numa fórmula.

. a s c o r e s .

vermelho: branco: preto:

Elas caem umas sobre as outras. A assinatura rabiscada em preto sobre o branco global ofuscante, em cima do vermelho espesso de sopa. Sim, lembro-me dela com freqüência e, num de meu vasto sortimento de bolsos, guardei sua história para contar. É uma dentre a pequena legião que carrego, cada qual extraordinária por si só. Cada qual uma tentativa — uma tentativa que é um salto gigantesco — de me provar que você e a sua existência humana valem a pena.

Aqui está ela. Uma dentre um punhado.

A menina que roubava livros.

Se quiser, venha comigo. Vou lhe contar uma história.

Vou lhe mostrar uma coisa.

Jukebox

DVD Especial

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