Lugares do feminismo – sobre o feminismo que aparece nas redes

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"Se antigamente se dizia que de médico e de louco todo mundo tinha um pouco, hoje podemos substituir o médico pelo jornalista."

 

 

 

 

 

Lugares do feminismo – sobre o feminismo que aparece nas redes

Por Marcia Tiburi (Publicado no Jornal Zero Hora em 5/11/2015)

O painel virtual da internet é território aberto e cada vez mais disputado. Se antigamente se dizia que de médico e de louco todo mundo tinha um pouco, hoje podemos substituir o médico pelo jornalista. Assistiremos ao espetáculo das opiniões prontas que vão do autoritarismo mais tosco à exposição das lacunas cognitivas mais elementares. Ainda que haja vida inteligente na internet, a banalização das notícias, quando se trata de cada um produzir a sua ou consumir a que se vende nas grandes mercados de notícias, nos faz conhecer o desespero de uns e a incontinência do ego de outros. Expressando-se em slogans e manchetes, cínicos, otários e os demais buscam um lugar ao sol virtual esquecendo-se que se trata apenas de um meio. Sempre é bom lembrar que fins precisam ser buscados em outro lugar.

No meio disso tudo, temos o caso do feminismo que parece ter se tornado um fenômeno em moda na internet. Há quem queira reduzir o feminismo a essa moda.

Não há em nossos dias quem não conheça uma feminista. Antigamente uma jovem com menos de trinta anos que se auto-afirmasse dessa maneira estarreceria seus familiares conformados ao machismo estrutural que, num sistema de privilégios, nunca precisou dizer seu nome. Verdade que muitas ainda ouvem barbaridades quando se expressam como feministas, como se o fato de se dizer feminista fosse uma heresia em relação ao deus patriarcal na igreja da dominação masculina. O machismo é um sistema de privilégios, mas é também um sistema em que ignorância e estupidez são usadas para sua própria manutenção. Fazer-se de espantado diante de uma feminista é a prova cínica do sistema que sempre justifica a necessidade da luta. As jovens sabem disso e não medem esforços nas batalhas.

As corajosas jovens que hoje se expressam na internet são herdeiras de uma história de mulheres que pagaram alto por seu desejo de existir como cidadãs. Elas abriram caminhos muito antes da invenção dos meios de comunicação de massa, quando o simples ato de escrever parecia um luxo e era reivindicado como direito. Muito antes da internet muitas mulheres abriram a selva bárbara e amedrontadora do machismo com armas bem menos impressionantes. Se hoje ainda há medo entre as mulheres é porque não se livraram desses arcaísmos presentes na cultura.

Se é fácil ver o feminismo jovem como um fenômeno das redes, é importante não esquecer que as redes nascem depois do feminismo que está sabendo usá-las em seu próprio benefício.

O feminismo que aparece nas redes

Quem vê o feminismo pelas redes, esquece do feminismo que surge em escolas e universidades, que surge no trabalho, que aparece na família, nas ruas, nos mais diversos lugares da cidade, no centro e na periferia. Esquece do feminismo na história. O feminismo surge como crítica a um estado de violência contra pessoas concretas marcadas como mulheres ou portadoras de características ditas femininas. O feminismo não é um fenômeno de internet, mas uma luta contra a violência dirigida à essas pessoas.

Nos últimos tempos, duas hashtags ficaram famosas. #meuamigosecreto e #meuprimeiroassédio serviram para mostrar o rosto do feminismo que aparece nas redes porque tem a ver com o tempo das redes. O feminismo atual é um fenômeno concomitante e não derivado das redes. Uma camada do feminismo se mostra ali e, por estar no espaço da vitrine virtual, se apresenta em seu momento espetacular.

Nas redes, o jogo de linguagem político do feminismo cruza com o jogo de linguagem da internet, muitas vezes antipolítico. Discurso contra-publicitário do machismo, mais uma vez na história, o feminismo incomoda. Em que pese as críticas que poderiam ser feitas às campanhas acima citadas, um fato é evidente, mulheres resolveram usar as redes para uma crítica do machismo, o que por si só, incomoda o machismo. E o fizeram dentro de critérios e limites dados pelas próprias redes, o que incomoda também aqueles que reconhecendo os limites das redes pensam que eles são os limites do próprio feminismo.

Nos casos das hashtags em questão, a denúncia contra o machismo realizou-se no contexto da atmosfera indireta que é própria das redes. Marcamos no Facebook e no Twitter, por exemplo, os nomes de quem queremos anunciar, mas muitas vezes não falamos às claras, assim como na vida. Somos iludidos quanto ao caráter direto das relações entre pessoas nas redes. Compramos a ideia de que nos relacionamos diretamente com pessoas nas redes. Fingimos que o mascaramento, que o disfarce, típicos da internet, não existem.

A aparência de relações diretas, o ato de falar com qualquer um, de poder mandar mensagens in-box, esconde um espectro de desvio nessas relações espectrais. O caráter indireto é ocultado tecnológica e virtualmente. É como se a tecnologia escondesse que se trata de tecnologia a atravessar a linguagem e, portanto, as relações.

Além disso, o virtual não carrega o ônus ético que a lógica da presença exige de nós. Na internet podemos não dizer quem somos. Não precisamos nos responsabilizar diante do outro, porque o outro não é material. Sua presença é espectral. Podemos ser babacas ou guerrilheiros, fazer a coisa certa ou a errada sem precisar nos comprometer. Temos o direito de ser infantis e usamos esse direito sem muito compromisso com ninguém. Dizemos quem somos quando temos algo a ganhar, não dizemos quando temos algo a perder. O problema ético permanece.

Com isso, quero apenas dizer que não me parece coerente endeusar as redes, nem demonizá-las. Elas não são nada de mais, nem nada de menos. São apenas meios. Elas propiciam ferramentas práticas para um feminismo possível nesse momento. Um feminismo que ainda se enfrenta com o medo da violência que nos faz não dizer o nome de nossos amigos secretos e que nos faz falar do assédio que nunca tivemos coragem de mostrar. A transição para sua própria realização é o objetivo final do feminismo que usa esses meios para ir mais longe.

Internet como máquina de protagonismo

É um erro comum creditar às redes sociais as virtudes e misérias éticas e políticas do tempo presente. No imaginário coletivo as redes se tornaram as responsáveis por todos os avanços políticos de nosso tempo – e por todos os retrocessos. Esse erro, no entanto, não é um erro qualquer. As redes sociais, nas quais muitos de nós, exercitam hoje sua segunda identidade, são efeito de um conhecido modo de produção, o capitalismo e suas formas especializadas, a indústria cultural e a sociedade do espetáculo. No entanto, ficando por conta das redes sociais, tudo se torna mais fácil de suportar. Se podemos colocar as redes para substituir capitalismo, que as criou, como origem dos males, tanto melhor. A vida das redes é perfeita para uma geração de pessoas que deixou de ser o que era ou não veio a ser coisa alguma.

Não entenderemos o feminismo nas redes sem antes entendermos como funcionam as redes e como funciona o próprio feminismo e como um pode afetar o outro. É certo que as redes como meios de comunicação fazem muita diferença hoje em dia, pois aumentam o poder de difusão ao alcance da mão de todos.

É um erro comum, portanto, creditar às redes sociais o avanço do feminismo atual. Sem dúvida, creditar as redes o que acontece com o feminismo hoje é um exagero, mas isso não invalida, antes obriga, à necessidade de entender o porque dessa interpretação.

As feministas estão fazendo feminismo ao desenvolverem seu protagonismo nas redes. As mulheres que não se sabiam feministas estão se descobrindo, saindo do armário do patriarcado também pelos portais virtuais.

O feminismo que ocupa as redes nos faz pensar na expansão virtual do feminismo e nos demais lugares do feminismo. O feminismo pode usar as redes, mas também pode sofrer com suas armadilhas. Toda feminista precisa saber, quando ela se posiciona nas redes e se torna protagonista, que há outras mulheres em luta, que elas não aparecem e, muitas vezes, não se tornam protagonistas. A luta feminista precisa sempre lembrar que o feminismo não é apenas a protagonização – no cenário das redes ou dos meios de comunicação mas que é criação de espaço e lugar reais para mulheres, para seres concretos em termos concretos, como luta viva. Se há um feminismo que usa as redes como máquinas de protagonização, há muitos feminismos que não usam redes. O feminismo que usa as redes sempre terá que cuidar para não ser usado por elas. O feminismo das redes se faz ver. Outro é feminismo invisível pelas redes, pelos meios de comunicação. Um feminismo invisível. Um feminismo que não cabe nas redes. Um feminismo que é notícia proibida até para as redes. Um feminismo que não excita, porque dá muito trabalho. Um feminismo hard. Um feminismo que busca desmontar a estrutura, que não serve de espetáculo para as redes sociais. Que não serve de espetáculo para nada.

O feminismo como desejo

Assim, o que o feminismo coloca em cena é o direito a aparecer. O direito das mulheres pelo aparecer é um direito de participar da esfera pública, o direito de estar no âmbito do poder que sempre escondeu as mulheres na esfera privada.

Ninguém poderá negar a importância das redes, mas é preciso pensar em seu verdadeiro lugar no processo para não jogar fora o desejo como potência política em nome de uma habilidade técnica. No caso do feminismo, podemos dizer que as redes são a arma da luta que move o feminismo como um desejo de democracia radical.

A internet é a escola feminista para muitas pessoas. Mil vezes melhor do que a escola do patriarcado que proíbe de falar em gênero, que ensina o autoritarismo da vida cotidiana do qual o machismo estrutural é a origem e o efeito.

As mulheres de hoje participam de grupos e coletivos fora das redes e dentro delas. Esse entrelaçamento entre vida concreta e virtual garante o modo de ser e o discurso feminista dessa geração. Se não participam na vida concreta do feminismo, por meio da internet estão de algum modo ligadas entre si, produzindo uma mentalidade diferente que pode mudar os rumos da sociedade. O feminismo não é pouca coisa, ele é a teoria-prática, a ético-política das transformações potenciais no sistema social, econômico e político.

Entre o diálogo, o dissenso e a alegria política, as feministas vem de longe e continuarão indo longe com ou sem internet e redes sociais.

(Fonte: http://revistacult.uol.com.br/home/2015/12/lugares-do-feminismo-sobre-o-feminismo-que-aparece-nas-redes/)

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