Somos todos Macbeth?

Avaliação do Usuário: / 1
PiorMelhor 

"Quando os diabos querem dar corpos aos mais nefandos crimes, celestial aparência lhes emprestam".

Otelo - Ato II - Cena III: Iago

 

 

 

 

 

Somos todos Macbeth?

Por Vladimir Araújo

ATO I

No último mês de abril completaram-se 400 anos de morte de William Shakespeare. O autor inglês foi lembrado em todo o mundo face ao que ainda representa para a cultura mundial e, sobretudo, pelo fato de ainda se destacar tantos séculos depois por ter sido um profundo conhecedor da alma humana. Arrisco dizer que poucos escritores aventuraram-se com tamanha propriedade nos meandros da intricada essência daquilo que somos e/ou fingimos ser. Talvez por isso e também por Shakespeare ter sido à sua época um autor popular, continue sendo aparentemente simples reconhecer muito da temática  de suas obras em nosso cotidiano.

No ensejo da data reli algumas de suas peças. Três me pareceram mais atuais que as outras e as tomo aqui como mote por considerar sua atualidade inquietante e também por observar na obra do bardo inglês uma espécie de predileção pelo binômio poder-traição em tudo o que pode haver de mais torpe no conjunto dessas palavras.

Antes de mais nada, um pouco sobre essas obras em brevíssimo resumo.

A primeira delas é Otelo, o Mouro de Veneza escrita no início do século 17. Na história, Iago tenta se vingar do general Otelo por este haver promovido Cássio, e não ele, ao posto de tenente. Tramas sórdidas acontecerão a partir daí culminando com a trágica morte de Otelo no final do livro. A segunda peça é Rei Lear , monarca da Bretanha que, já velho, vê-se na condição de ter que dividir seu reino. Cercado de falsidade e traído até por suas filhas, o rei acaba por enlouquecer. A última das peças é Macbeth e talvez não haja obra na literatura mundial onde a ambição pelo poder seja tão magnificamente retratada. No enredo e após um sem número de manipulações e tramas, o General Macbeth conspira para que ele e sua esposa se tornem o novo Rei e Rainha da Escócia. Macbeth assume o trono. Junto com o reinado porém, culpa, dramas de consciência e remorso os acompanharão sem trégua. Tanto que,  com frequência e profundamente perturbado, o novo rei vê sangue em  suas mãos. Lady Macbeth, sua gananciosa esposa, é constantemente atormentada por fantasmas. Morre consumida e totalmente louca.

Mas até que ponto então seria possível traçar uma linha entre peças escritas há mais de quatro séculos e nossa realidade presente? Eis que Shakespeare novamente nos surpreende e nos vem por completo pois, se é de maldade, traição, tramas e cobiça que nos fala sua obra em fatos ocorridos por entre longínquas terras inglesas, fiquemos totalmente à vontade e nos sintamos bem vindos aqui mesmo, no ano de 2016 em pleno solo brasileiro.

ATO II

CENA I

O atual mandatário do governo da República Federativa do Brasil aparece pela enésima vez em rede de televisão. Dá entrevistas como se houvesse sido alçado ao trono legitima e moralmente pelos braços do povo.

Fala de planos futuros, nomeia asseclas, cerca-se de soldados, duques, generais. O trono está tomado, a corte está formada. Terá ele ouvido a voz de bruxas tal qual o general Macbeth?

CENA II

A filha pequena assiste a mais um discurso do Rei recém-empossado. Haverá verdades ali? Advirto-lhe e asseguro-lhe que não. Como nas tragédias do grande dramaturgo, não existe moral em quem trai. Aquele que trama  e que conspira não merece qualquer crédito. É oco. Nada tem. Não lhe resta nenhum resquício de substancia ética, portanto, nenhuma palavra sua merece credibilidade.

ATO III

CENA I

Os últimos acontecimentos da politica brasileira trazem incrustados em si todos os aspectos torpes das tragédias de Shakespeare. Houvesse algum traço minimamente moral e de boa fé no atual Presidente da república teria cabido a este , ao não concordar com os atos do mandatário anterior, ter se afastado, renunciado, vez que,  era de se esperar, não desejaria compactuar com governo tão cheio de falhas, faltas  e desmandos. Talvez , houvesse agido assim, poderia no futuro quem sabe até retornar amparado na grandeza do ato. Preferiu conspirar, tramar, trair como rato que fica a espreita do pedaço de carne putrefato e podre que se acostumou a consumir aos poucos.

ATO FINAL

De toda a tragédia, não a de Shakespeare, mas a nossa, ainda não escrevemos o último ato. A triste conclusão todavia, é que somos menos nobres em tudo. Até nossa plebe em sua atual cegueira, em seu silêncio e ignorância seletiva mostra-se menos preparada e não raro ouvimos um retumbante barulho de palmas a tudo o que acontece. A grande questão é se trazemos ou não em nós algum traço do general Macbeth e de sua vil esposa.  Terá o atual rei de nossa terra algum drama de consciência? Enxergará ele em suas mãos alguma gota de sangue que venha a lhe atormentar as noites? Pelo caráter vazio e estéril de moralidade demonstrado até aqui pelos que agora tomam o poder , a resposta é não. Nada há dentro dessa gente, nunca nos esqueçamos disso. O novo reinado se impôs. Que não nos resignemos. Fantasmas poderão nos assombrar.

Ilustração : “ As três bruxas de Macbeth”-1783, de John Henry Fuseli

AddThis Social Bookmark Button

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

In order to view this object you need Flash Player 9+ support!

Get Adobe Flash player
Joomla! Slideshow
© 2006 - 2016 Letras e Livros. Todos os direitos reservados. - Este site é gerenciado por:

O site Letras & Livros.com.br é uma iniciativa de Vladimir Lima Araújo e sem fins lucrativos. Este espaço não tem vinculação a nenhuma editora, gravadora ou publicação e possui como objetivo maior a divulgação de matérias referentes à literatura em geral. Aguardamos dos que nos derem o prazer da visita, críticas, sugestões, comentários e idéias, que serão sempre bem vindas. Desde já, o nosso muito obrigado. As opiniões emitidas em artigos assinados são de inteira responsabilidade dos seus autores e não refletem, necessariamente, a posição deste site.