Airton Monte : crônicas escolhidas

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Airton Monte : crônicas escolhidas
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No dia 10 de setembro de 2012 a crônica brasileira perdia um de seus maiores representantes. Airton Monte...

 

 

 

 

No dia 10 de setembro de 2012 a crônica brasileira perdia um de seus maiores representantes. Airton Monte fazia do lirismo o mote principal para traduzir com bom humor as temáticas do cotidiano. Em Textos Escolhidos dessa edição, republicamos matéria do LetraseLivros sobre o autor.

Feitio de oração

Embevecido

Mudanças

Caminhos cruzados

Poção mágica

Apenas diferente

Freudiana

Felicidade

Filhos

Citações

O cigarro

Tal dono, tal cachorro

Auto-análise

Crônica da solidão

Citações

O cigarro

Tal dono, tal cachorro

Auto-análise

Crônica da solidão

A direção dos ventos

Feitio de oração

E quando conversamos, meu Deus e eu, jamais Ele me fala em céu ou inferno, em graça e castigos

De há muito meus lábios não se abrem para fazer, contrito, uma oração ajoelhado em um banco de igreja ou mesmo quando me encontro em casa, sozinho, de braço dado com as minhas angústias e minhas aflições. Faz tanto tempo que não entabulo uma conversazinha com Deus, a sós, pedindo ajuda, tirando minhas dúvidas, que são muitas, ou mesmo para agradecer, genuflexo, as pequenas e grandes graças que tenho recebido pela vida afora. Sim, há vários momentos em que meu ateísmo vacila e como a Torre de Pisa no meio de um terremoto, balança, balança, balança, mas não cai de todo. O Deus, no qual por muitas vezes creio e socorro suplico, é bastante diferente Daquele ou Daqueles em que as outras pessoas costumam acreditar. Ai de mim, que não perco essa tola mania de querer ser sempre original. Do meu Deus não tenho um pingo de medo sequer, mas um amoroso respeito e com todo o respeito, Senhor, igual ao que eu sentia por meu pai. O meu Deus também não me ameaça com os mais terríveis castigos nem me tiraniza com ordens de um cruento ditador. Deixa que eu cultive as minhas opiniões, embora eu pense que Ele considere algumas delas estapafúrdias. Sempre que converso com Ele, parece até que estou batendo um papo descontraído com um velho e querido amigo, como creio que devem ser O Criador e sua criatura.

E quando conversamos, meu Deus e eu, jamais Ele me fala em céu ou inferno, em graças e castigos, em fieis e infiéis, em hereges e santos, inocentes e culpados. Nosso assunto preferido é sempre a bondade que reside no fundo da alma de cada ser humano e que nos faz ser verdadeiramente humanos. O meu Deus, além disso, é dotado de um incomensurável senso de humor e dá divinas gargalhadas com o que se comenta a respeito Dele. Todos estão certos e todos estão errados, já que sou, por definição, o Indefinível. Assim Ele me fala, me piscando o olho e com um sorriso maroto no rosto divinal. Por vezes, Ele assume a aparência de um velho. Por vezes, a de um garoto, numa espécie de brincadeira somente permitida aos seres onipotentes e oniscientes, se desenhando em novas formas no esculpir das nuvens. E aproveitando dessa intimidade que Ele me concede, como sei que concederia a qualquer outro, fiz ao Senhor alguns poucos pedidos, na ansiosa espera de me serem concedidos e que tornarão a minha existência mais leve e mais aliviada das chatices do dia a dia e às quais todos nós estamos indefesamente sujeitos, seja lá quem formos ou deixemos de ser.

Livrai-me, Senhor, dos que ferem a espontaneidade anárquica do botequim, querendo impor regras e limites burocráticos aos seus frequentadores, insistindo em filosofar a sério sobre mulher, futebol e vida alheia. Pois o botequim é sinônimo de espontaneidade, do imprevisível, do inusitado, do quando menos se espera é que acontece. Livrai-me, Senhor, dos que, ao invés de contarem piadas, “causos” e lérias, teimam em discutir política com acirrado fanatismo ideológico. Livrai-me, Senhor, da presença dos falsos amigos, esses Judas do afeto, esses fariseus do bem-querer. Livrai-me, Senhor, dos falsos pastores, que falam Teu Santo Nome em vão e cujo rebanho nada mais é do que a salvação da lavoura. Do pastor, é claro. A todos eles, os que enganam e traem a boa fé do semelhante, castigai-os, Senhor, com uma mulher estabanada, que fale mais que o locutor do Jóquei Clube. E, ao mesmo tempo, Senhor, perdoai-me por pedir o sofrimento para meu semelhante. Livrai-me, Senhor, do imposto de renda, do bolso vazio, do emprego perdido, da firma reconhecida, dos credores inoportunos que tocam a campainha pela madrugada, nos roubando o sono e a esperança. Livrai-me, Senhor, da fila dos bancos, dos juros do cheque especial e do cartão de crédito, da promissória vencida, do salário atrasado, das saidinhas bancárias, que os bandidos não dão trégua, Senhor. Por via das dúvidas, Senhor, livrai-me precipuamente das pragas de ex-mulher rancorosa, que são piores do que praga de mãe e atormentam os infelizes pela vida afora.

Dos maus poetas, Senhor, livrai-me urgentemente, que deles a poesia quer distância por uma questão de sobrevivência. Livrai-me, Senhor, do sexo feito às pressas, num simulacro de paixão. Livrai-me, Senhor, das pobres e tristes criaturas castas, que odeiam o próprio corpo e seus desejos e para quem Deus tornou-se sinônimo perfeito de mortificação e de martírio, livrai-me, Senhor, para todo o sempre. Fazei com que eles recuperem a alegria de viver. Livrai-me, Senhor, dos assassinos de árvores, que trucidam o verde cinturão de Fortaleza e a transformam num deserto de cimento armado por onde os hunos contemporâneos passeiam as suas patas. Livrai-me, Senhor, dos políticos safados, dos padres de passarela, dos juízes marreteiros, das baratas, das traças, dos cupins que infernizam o existir daqueles que amam os livros. Livrai-me, Senhor, das desilusões paternas e da ideia besta de que os filhos nunca crescem. Das mulheres que não sabem cozinhar, nem fazer cafuné e caldo de caridade, Livrai-me, Senhor, pelo amor de Deus. Livrai-me, Senhor, de todos os relógios que me escravizam ao tempo. E se não for pedir muito, Senhor, livrai-me jamais dessa capacidade infinita de sonhar e que me faz sublimemente humano, à Vossa imagem e semelhança.

Embevecido

Perdidas não, achadas. Jamais as horas passadas na companhia dos amigos são perdidas

O dia vinte e nove de julho deu de amanhecer radioso, cintilante, belo como se o domingo estivesse estreando uma roupa nova feita do mais puro e límpido esplendor. Tudo ao meu redor veste-se de claridade e de luz tal e qual assim deveriam nascer todos os domingos de minha vida. Hoje é um bom dia para fugir de casa feito um menino travesso, procurando estripulia e sair passeando livre, leve e solto pela cidade em busca do inesperado que bem pode estar escondido atrás da curva da próxima esquina. Não como se fosse um ladrão à procura de vítima, mas sob a fraterna forma de um amigo querido com quem se pode matar as saudades antigas e trocar conversa fiada durante horas perdidas. Perdidas não, achadas. Jamais as horas passadas na companhia dos amigos são perdidas. Por falar nisso, para minha triste surpresa, nenhum camarada me telefonou até agora para me dar somente boas notícias do mundo, contar-me alegres novidades de outros companheiros. Faz-me uma falta danada, sem par, ouvir aquelas fraternais vozes que me falam direto ao coração. Todavia, não posso me queixar dessas ausências afetivas ocasionais. Os amigos têm lá a sua vida própria, outros amigos também tão merecedores de sua atenção quanto este suburbano e ciumento escriba.

No entanto, creio que já basta, já chega de entoar resmungos e queixumes, do contrário vou acabar me transformando no que detesto ser: um insuportável velhote mimado, enfezado, ranzinza, resmungão feito muitos que conheço por aí. Melhor aproveitar, em toda a sua intensidade, a beleza desse dia que a natureza generosamente me ofertou e de graça. Mui principalmente porque não sei quando outro igual a esse virá bater à minha porta. E porque não sou o umbigo do mundo nem o centro do universo, embora, por vezes, até me alegre em pensar desse modo narcísico, juvenil. Além do mais, essa minha solidão é muito mais aparente, ilusória, circunstancial do que propriamente real. Ah, como os escritores mentem deslavadamente, meus caros. Vícios do ofício. Às vezes, é natural de mim colocar um tanto de exagero nas minhas emoções e sentimentos. Coisas tolas de um incurável romântico sessentão, que ainda guarda dentro do agoniado coração um tantinho de meninice, um inolvidável sabor da longínqua infância. Pois é, a infância. A provar que o passado não passa. Encontra-se demasiado presente não somente nas lembranças. Feliz do homem que, apesar de envelhecer, nunca perde o infante moleque que o habita. E que, de quando em quando, volta a aparecer vindo lá do não sei onde. Assim sou eu e assim percebo que fui durante a existência inteira. Se me faz bem ou mal, pouco me importa, confesso. Sou uma espécie de Peter Pan que não transformou-se em Capitão Gancho depois que cresceu.

Será verdade que um homem pode embriagar-se de domingos? Claro que sim. Porque hoje eu estou liricamente embriagado do resplandecer desse domingo primordial. Então, logo me vem à lembrança um trecho de um poema de Charles Baudelaire: “É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentires o fardo horrível do tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis, sem cessar. De vinho, de poesia ou de virtudes, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis”. E como, então, não concordar com Baudelaire nesse exato momento de total deslumbramento dominical, embora eu me encontre completamente sóbrio às três horas em ponto da tarde? Mesmo sem beber uma só gota de álcool, bêbado estou com a beleza das coisas que ora me rodeiam. A meus olhos bêbados o mundo parece novo como se eu nunca o houvesse visto antes. A música que escuto, as palavras que leio, o filme que vejo na televisão me são desconhecidos, apesar de já haver escutado, lido, visto. Menos aquilo que escrevo. E escrevo sempre partindo do que conheço até atingir o que desconheço e mais além, quando me é possível. E nem sempre é possível ir mais além do que aquilo que já conheço de outros velhos carnavais. Ecos, ressonâncias que se repetem e se repetem.

Até a minha cara no espelho, enquanto faço a barba rala, me parece a cara de outro sujeito, sem vincos de amargura, despida das rugas de tristeza, os lábios entreabertos num sorriso, um brilho, um lume de indisfarçável alegria reluzindo no fundo castanho das pupilas. Sem dúvida, estou bêbado desse domingo inebriante. Sinto-me tomado por uma embriaguez diferente daquelas a que estava habituado. E com a enorme vantagem de amanhã não despertar com gosto de fundo de gaiola na boca, morrendo de ressaca, entre ânsias de vômito e náuseas. Vontade de cantar canções dolentes, de dançar boleros com minha mulher, de recitar poemas tirados de uma empoeirada crestomatia, de jogar bola no meio da rua, de comer algodão doce, de fazer amor no leito conjugal, de beijar meus filhos como se fossem pequeninos, de confessar todos os meus pecados mortais e veniais, de rezar, contrito, a Ave-Maria às seis da tarde, de pensar que sou um homem bom como sempre desejei ser. E enquanto espero, banhado em calma, a noite chegar, anseio que essa minha embriaguez insólita não me abandone tão cedo para que eu consiga dormir, enfim, o sono dos justos e dos inocentes.

Mudanças

Juventude nos dá esse direito de sermos tolos e ingênuos, preparando a alma para suportar, mais tarde, o terrível peso da realidade

Mais uma semana começa sem alarde, discreta, iniciando seu ciclo igual a todas as semanas de sempre. E minha vida também parecer recomeçar com ela, pois assim caminha, descaminha a humanidade em qualquer lugar desse mundo velho sem porteiras nem fronteiras. Certamente, se o inesperado não mostrar a sua cara, todos os dias decorrerão tão rotineiramente semelhantes feito irmãos gêmeos e o tédio será, sem dúvida, minha companhia mais frequente. Nada poderei fazer para mudar tal estado de coisas. Só me restará seguir, acompanhar obediente o marchar do resto do rebanho a batalhar, sem descanso, pela sobrevivência. Raros homens estão libertos desse cotidiano, esmagador destino. Dessas obrigações, desses compromissos dos quais é impossível escapar, fugir desde que Adão e Eva foram expulsos injustamente do terrenal paraíso por um locador de maus bofes. E eu, que sonhava tanto, quando moço, em ser um sujeito completamente livre, preocupado apenas comigo mesmo e ninguém mais. Entanto, a juventude nos dá esse direito de sermos tolos e ingênuos, preparando a alma para suportar, mais tarde, o terrível peso da realidade.

Claro que a vida, embora seus pesares, indubitavelmente vale a pena de ser vivida. Não profiro aqui nenhuma novidade. Tampouco besta não sou de pensar o contrário, porque se assim o fosse, de há muito já teria dado cabo da minha por desespero e desencanto totais. Por maiores e mais graves que sejam os problemas que nos afligem, nos atormentam, roubam descaradamente o nosso sono, existe sempre um jeito de resolvê-los, de encontrar uma solução, uma saída de uma maneira ou de outra, por bem ou por mal, quer nos custe mais ou menos. Ou então, na pior das hipóteses, de conseguir atenuá-los do melhor modo possível que esteja ao nosso alcance. Nada é definitivo. Tudo é circunstancial, deletério, provisório, assim acredito. Para quem já esteve perto da morte e viu, de vislumbre, a sua assustadora caratonha como eu, a vida passa a possuir um valor de imensidão desmesurada. Aprendi, com tal aterradora experiência, a procurar viver intensamente um dia de cada vez, preso a cada momento, a cada instante do tempo presente, do aqui e agora, despido de preocupações quanto ao futuro, pois sei que ele chegará impreterivelmente, pontual como um cobrador, ao meu encontro. Enquanto o amanhã não acontece, somente o hoje me importa, interessa, faz parte do meu show, seja ele alegre ou triste, me mostre uma cara simpática ou me exiba um sardônico sorriso.

Há gente que escolhe viver à moda peru de natal, morrendo de véspera, cingido pelo abraço doentio da ansiedade. Já fui assim nas antigas quebradas do meu existir. Se as coisas não ocorriam como eu as havia planejado, costumava armar uma tosca tragédia de circo mamulengo. Mergulhava de cabeça numa cava depressão e a vida perdia, então, todo e qualquer sentido. Em verdade, comportava-me qual um adolescente mimado quando meus desejos e quereres eram contrariados, sem dar-me conta que me tornava um chato insuportável para todos aqueles que comigo conviviam dentro e fora de casa. Faltava-me senso de humor suficientemente capaz de me fazer rir das minhas próprias desgraças e desditas. E sem senso de humor, até uma prosaica topada num paralelepípedo assume ares de uma tremenda catástrofe. Pronunciava a palavra azar por qualquer dá cá aquela palha sem perceber que a má sorte sempre atende a quem lhe chama, lhe invoca com imbecil assiduidade. Custei a aprender a viver, mas fui forçado a adquirir esse demasiado necessário aprendizado que diferencia os homens dos meninos na hora da onça beber água. Disse, uma vez, o poeta Torquato Neto: “Levem um homem e um boi ao matadouro. O que berrar primeiro é o homem, mesmo que seja o boi”. A velhice e o sofrimento podem não nos tornar mais sábios, mas nos ensinam a compreender que as coisas são como são. Algumas podem ser por nós mudadas e outras, não. As coisas estão no mundo, só que é preciso aprender.

Hoje, a minha tolerância ficou mais elástica, inclusive para com a burrice alheia. Claro que não desenvolvi a infinita paciência de um monge trapista, porém deixei de correr continuamente o risco de morrer de raiva, de um ataque de apoplexia, enfurecido por qualquer besteira. Findei por descobrir a verdade mais simples de que não posso controlar tudo aquilo que acontece ao meu redor, a falar menos e escutar mais, tornar-me mais flexível em minhas opiniões, mantendo, entretanto, a rigidez dos meus princípios éticos. Até chego a levar, como não fazia dantes, desaforo pra casa, desde que não me sinta profundamente ofendido nem desrespeitado, porque aí o negócio muda de figura e minha reação é do tamanho ou maior que a ação. Meu sangue continua quente, contudo aprendi como esfriá-lo nos momentos em que se faz preciso tentar resolver os conflitos usando a calma de um pacifista. Manter a tranquilidade tornou-se uma arte que busco exercitar todos os dias e vi que minha vida melhorou bastante em qualidade. Sei que inda falta muito o que aprender na dura escola do existir, porém procuro ir me transformando em um aluno bem comportado, mas não tanto que termine por virar covarde e saia correndo, rabo entre as pernas, diante dos insultos e ameaças alheias.

Caminhos cruzados

Besteira querer explicar a vida e as paixões que nos tomam de assalto. Simplesmente, elas acontecem

Por enquanto, faz sol pleno, radiante, acalentador feito mão de mãe deslizando suavemente sobre a nossa fronte na hora de dormir. Porém, da maneira como o clima anda sobremodo instável nos dias de julho, sujeito a inesperadas mudanças, próprias de uma mulher com tensão pré-menstrual, pode ser que daqui a pouco o tempo subitamente feche a cara e desabe dos céus uma batelada de chuva, empanando o brilho loução da manhã. Tomada que não aconteça tal incômodo chuviscado, velando a face límpida, azulada do céu, tão bonita de se contemplar, sentir e admirar sem sustos nem correrias e eu não me veja forçado a ficar trancado dentro de casa cumprindo pena por crimes que não cometi. Afinal, amigos, a bem amada inda não retornou de seu exílio e detesto restar sozinho, acuado na casa vazia, com a sua ausência dolorosamente presente por todos os cantos do nosso suburbano tugúrio. Todavia, o que me resta fazer senão ir vivendo na prontidão da espera, que já se faz longa demais, como quem aguarda a volta da que partiu, parado, pregado no cais de um porto, vigiando o horizonte e o eterno movimento dos barcos, com um buquê de tenras rosas entre as mãos aflitas.

Pois sim, meu estimado poetinha Vinícius de Moraes, é realmente impossível ser feliz na solidão, distante daquela a quem se ama e que completa e preenche a outra metade de nossa alma. Quando jovens somos, não damos muita importância a isso, porque a juventude não tem tempo a perder pensando em solidão e nosso coração se basta a si mesmo, ocupado por tantas e tamanhas descobertas surgidas e acontecidas a cada instante que passa, eis que o tempo urge enquanto jovens somos e vivemos como se estivéssemos disputando uma corrida de fórmula um. À medida que envelhecemos, a solidão vai se tornando, assim a percebemos, um insuportável fardo, principalmente quando já encontramos a nossa outra banda da laranja e vivemos unidos a um amor longevo, duradouro. E estamos felizes ao lado dele, dividindo os prazeres e as dores do existir, repartindo o pão do afeto mútuo e cotidiano. Por falar em solidão, encontros e desencontros, caminhos cruzados e descruzados, meu compadre Chico Newton atualmente acha-se em estado de graça e ao mesmo tempo assolado por uma inquietação sem medida, coisa bastante natural da humana condição e à qual todos nós ficamos sujeitos de quando em quando, posto que a ansiedade nasceu com o ser humano e, decerto, nos acompanhará até a viagem final.

Pois dá-se que o padrinho de minha primogênita atravessa uma agoniada situação. Num desses encontros fortuitos, que a vida eventualmente nos oferta dentre seus incontáveis mistérios, viveu uma ardente noite de amor e de luxúria intensa nos braços de uma mulher esplendorosa, que lhe caiu, como uma aparição súbita, em um barzinho da moda. Foi paixão à primeira vista, segundo confessou-me o dileto amigo. Até aí, tudo bem, nada demais. Sei que tal milagre, embora desacreditado por muitos, costuma acontecer e acender paixonites incandescentes que devastam o coração de quem por elas é envolvido. A meu ver, o dilema crucial é que, ao se ir da cena do crime, a moçoila forneceu um endereço falso e um telefone inexistente. E despareceu no turbilhão da madrugada como se não passasse de um belo fantasma, de uma aparição enlevadora, de uma miragem encantadora. Partilhando o sofrimento do compadre, lembrei-me de um samba do Paulinho da Viola: “Só agora reparei que não vi o seu rosto, que você partiu sem dizer seu nome. Só me resta seguir rumo ao futuro, certo de meu coração mais puro. Quem quiser que pense um pouco, eu não posso explicar meus encontros, ninguém pode explicar a vida num samba curto”. Besteira querer explicar a vida e as paixões que nos tomam de assalto. Simplesmente elas nos acontecem e pronto.

Ou porque alguém aparece e desparece em uma esquina de nossa existência. Inútil buscar respostas, pois não há respostas. O Encontro é o grande fim da humana jornada. E um fruto predileto do acaso, do lance de dados de que falou o poeta Mallarmé. De repente, você está sozinho, solitário como uma placa de beco, vendo bovinamente a banda passar e surge alguém que somente poderia surgir ali, naquele exato momento, naquele determinado lugar e tudo o mais acontece como se as cartas já estivessem marcadas antes de serem lançadas sobre o pano verde. A pedra filosofal do encontro talvez seja um muito de magia misturada com o irresistível olor dos hormônios fundamentais. O que fazer, porém, se lhe aparece alguém mudando o ritmo natural das coisas? Deixar-se orientar pelos portulanos da paixão até sobrevir a calmaria. Não estou apaixonado, a não ser por minha mulher, juro. Há muito me vacinei contra esse perigoso vírus. Ultimamente, a realidade me absorve de tal forma feito uma anti-idílica esponja. Também jamais consegui explicar meus encontros e desencontros pela vida afora, quando ainda sobrevivia em mim um luzir de amorosa inocência. Pude, no máximo, escrevê-los, como quem estanca uma hemorragia.

Poção mágica

Não, não estou sendo pessimista, apenas um cético realista

Existem poucas coisas nesse mundo, onde teimo e insisto em continuar sobrevivendo, apesar dos pesares, dos dissabores, das mazelas espirituais e físicas que costumam me afligir em certas ocasiões, capazes de me provocar espanto digno desse nome. Claro que ainda não cheguei ao bovino estado de habituar-me com as perversidades, as barbaridades cometidas a todo instante por algumas criaturas pertencentes a nossa primitiva espécie de macacos metidos a besta e, digamos assim, pensantes. Mesmo em meio à barbárie generalizada em que somos obrigados a levar a nossa vidinha, não fui capaz de perder por completo a minha perene capacidade de indignar-me quando me defronto com os mais inadmissíveis, inimagináveis frutos oriundos de nossa selvageria ancestral, que ora e sempre acontecem cotidianamente da Conchichina ao Chuí. O ser humano não passa, é minha óbvia conclusão, de um perfeito animal selvagem, embrutecido, que o ralo verniz da cultura e da civilização em tantos milhares de anos mostrou-se totalmente ineficaz em esconder, ocultar, velar. A fera aprisionada dentro de nós pode libertar-se quando menos se espera e atacar a todos, inclusive a nós mesmos. Não, não estou sendo pessimista, apenas um cético realista.

Alguns conseguem até manter a besta sob controle aparente, mas a qualquer momento também podem sair por aí expondo suas garras e seus caninos, tomados de uma ferocidade incoercível, impulsionados pelos motivos mais tolos e mais torpes. Para mim, não há somente mocinhos e vilões entre nós, pois cheguei a triste conclusão de que todos somos cúmplices neste filme de horror que protagonizamos na realidade do nosso belo quadro social. Entanto, venho me dando conta, percebendo, ultimamente, de um fenômeno que realmente me deixa pra lá de estupefato, incapaz de explicá-lo sob a luz de uma teoria qualquer, seja antropológica, biológica ou sei lá que mais, que a mim me satisfaça, dando-me a resposta que desejo alcançar. Parece que todos os meus perclaros amigos conseguiram, não sei como nem onde, haver descoberto o mágico elixir da eterna juventude. Como nenhum deles tornou-se um vampiro e apesar de muitos militarem nas arcadas da imortalidade literária, constato, consternado, que somente eu envelheço segundo os padrões ditados pelo tempo. Somente a mim o tempo acomete e aflige com as costumeiras mudanças anuais de idade. Somente eu faço aniversário a cada trezentos e sessenta e cinco dias que se passam no implacável caminhar dos calendários.

Não se trata de uma despeitada vontade minha de desejar cometer indesculpáveis injustiças contra gente de meu mais fraternal afeto, mas o César Montenegro não sai dos cinquenta e quatro há pelo menos uma década. O poeta Carlos Augusto Viana estacionou nos cinquenta e um e não abre mão de tão satisfatória e confortável faixa etária. O livreiro Sérgio Braga já comemorou os seus cinquenta e dois verões pelo menos uma dezena de vezes. O Erle Rodrigues nem é bom falar, pois até ficou com os lábios dormentes de tanto soprar as mesmas sessenta e quatro velinhas todo ano. Luciano Maia, o bardo do Jaguaribe, nem comenta acerca de seus natalícios, para evitar desconfiadas suposições dos camaradas. Meu compadre Chico Newton faz absoluta questão de manter uma canina fidelidade às sessenta e seis primaveras, que jura poder comprovar em cartório e com firma reconhecida. José Teles, vate e anestesista de escol, botou o tempo pra dormir na imóvel estação dos sessenta. Quer dizer, todos descobriram um processo de envelhecer lentamente como se pertencessem à unanimidade dos nascidos em anos bissextos. Para eles, o calendário tornou-se apenas uma dispensável figura de retórica, desprovido da importância capital que lhe dá o resto dos pobres mortais comuns que nem eu.

De qualquer modo, sejam benvindos, irmãos meus, à tal da “boa” idade e que o dobrar do Cabo da Boa Esperança lhes tenha sido menos pesado do que o foi para mim, confesso. Só lhes peço um favor de idoso companheiro: jamais envelheçam da alma. Jamais se transmutem em um bando de velhotes ranzinzas, de mal com o existir. Urge que sejamos joviais, sobretudo, e que a cada encontro nosso se restaure em nossos encanecidos corações a boa e sadia molecagem de sempre. Contudo, na nossa idade, é preciso tomar certos cuidados de extrema relevância. Principalmente com o mau humor, a perda da alegria e da esperança, porque é disso que os velhos morrem. Vento encanado também é um perigo. Senão, lá se vem boca torta, reumatismo galopante, pneumonia braba, catarros volumosos, torcicolos crônicos. Quedas no banheiro podem ser desastres domésticos fatais, mormente se quebrarem o fêmur, a bacia, o osso do mucumbu na porção final do espinhaço. Cuidado com as extravagâncias de caráter sexual, com o uso indiscriminado das pílulas turbinadoras da ereção. Na esquina do prazer erótico, pode tocaiar escondido um inesperado piripaque no motor cardíaco e a tal da morte súbita pegar o indigitado de jeito. Nada de bancar o pai dos netos, uma apropriação indébita do pátrio poder dos filhos. Não permitir que as mulheres comandem nosso viver, nos forçando a ir ao médico, dormir cedo, seguir dietas insípidas. Portanto, a hora chegou de sermos rebeldes transgressores da ditadura conjugal. Sejamos, enfim, aqueles de quem se diz que envelhecem com dignidade, pompa e circunstância, permanecendo donos e senhores do nosso próprio destino.



Comentários  

 
0 #2 Vladimir Araújo- 30-09-2012 15:46
Grande perda. Grato pelo acesso ao site.
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+1 #1 Leone Leão Leppard 29-09-2012 09:02
Saudade grande do primo querido e do escritor maravilhoso que perdemos todos: familiares,amig os e amantes de uma boa leitura. :sad:
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