Amy

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Porque Oscar de melhor documentário para “Amy” foi o mais merecido da noite.

 

 

 

 

 

 

 

 

O Oscar de melhor documentário para “Amy” foi o mais merecido da noite.

Por Kiko Nogueira

O único documentário que poderia rivalizar com “Amy” no Oscar era “What happened, Miss Simone”. Ambos falam de cantoras de imenso talento que se autoimolaram para nosso deleite, cada uma à sua maneira. O prêmio para “Amy” foi merecido.

Tem todas as virtudes de um documentário musical: histórias bem contadas, a conexão entre a vida e a obra de um gênio, o ritmo fluido, os depoimentos de virtualmente todos os que importam, a ausência de Nelson Motta — e o efeito de fazer com que o espectador queira ouvir novamente tudo o que ela gravou, agora com outros ouvidos.

Alguém escreveu que Amy Winehouse tinha talento demais para um corpo tão pequeno. Encontrada morta aos 27, no auge, depois de um disco impecável, Amy continua sem substituta à altura. Basta ver o que Adele cometeu contra si mesma em seu mais recente hit histérico e no Grammy para perceber o abismo entre as duas.

Em meio a imagens de Amy adolescente, menina judia de classe média, sorridente, no início da carreira — o pacote completo de uma jovem promessa — surge a sensação incômoda: como ela se transformou num farrapo? O que deu errado?

Mais: quem foi o culpado por sua destruição e por que ninguém fez nada para impedir que o destino que se desenhava se confirmasse?

Eis o pecado do longa. Duas pessoas são escolhidas como vilãs: o pai, o taxista Mitch, retratado como um oportunista que vivia da inspiração da filha e a forçava a fazer turnês em seus momentos de desintegração física e mental.

Ela conta que passou a tomar antidepressivo depois que o pai sai de casa, na esteira de um caso amoroso. “Amy adorava o chão que ele pisava”, afirma um amigo.

O outro é o namorado Blake Fielder-Civil, um junkie inútil que lhe apresenta o crack, não sai de sua cola, gasta seu dinheiro e chega a alugar o quarto vizinho na clínica de reabilitação em que ela se interna para que a farra continue (“Back to Black” é baseado na relação doentia dos dois).

É uma simplificação. O cineasta Asif Kapadia usou da mesma estratégia em “Senna”, pondo Alain Prost no lugar do bandido.

Amy era autodestrutiva. A mulher bomba. Alcoólatra e bulímica. Era maior de idade, também, bem sucedida, rica e inteligente (não tanto quanto as filhas do Nelsinho, mas ninguém é perfeito). Quem convence um compulsivo a parar de usar qualquer coisa se o compulsivo não quer parar?

“Amy era uma das maiores cantoras de jazz da história”, afirma Tony Bennet, que gravou com ela um lindo dueto de “Body and Soul”. As cenas de ambos são tocantes. Uma moça com seu ídolo, pedindo desculpas por errar. “E Jazzistas não gostam de cantar para 50 mil pessoas”.

A fama avassaladora foi uma surpresa para o tipo de música que ela fazia. Depois de um álbum de estreia de sucesso relativo (“Frank”), “Back to Black” bateu todos os recordes e ganhou todos os prêmios da indústria.

Um conjunto de canções com influência de jazz e soul, com letras em que a autora falava de seus dois amantes e se comparava a gim Tanqueray desbancou lixos comerciais como Justin Timberlake.

Ela não soube lidar com 150 paparazzi na porta de sua casa em Londres e seguindo-a pelos bares, a pressão, a loucura. Após ganhar o Grammy e se consagrar, ela confessa para a melhor amiga: “Nada disso tem graça sem as drogas”.

O pai, a mãe, Tony Bennet, o marido, os vagabundos, as colegas de infância, o psiquiatra, o segurança — ninguém teria salvo Amy. Não há bandidos numa história sem mocinha.

O lento suicídio de Amy Winehouse foi uma escolha, como se testemunha em “Amy”. E ela está viva.

( Fonte: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-belo-documentario-sobre-amy-winehouse-cria-viloes-para-uma-historia-sem-mocinha-por-kiko-nogueira/)

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